Opinião, por Izaías Almada

Há exatos 65 anos, dia 11 de dezembro de 1964, estreava no Rio de Janeiro o show “Opinião”, espetáculo criado como desobediência civil e resposta cultural ao golpe de estado civil/militar

Opinião

por Izaías Almada

Há exatos 65 anos, dia 11 de dezembro de 1964, estreava no Rio de Janeiro o show “Opinião”, espetáculo criado como desobediência civil e resposta cultural ao golpe de estado civil/militar que, naquele mesmo ano, tirou do poder o presidente João Goulart por iniciativa das forças conservadoras de então, apoiadas e incentivadas que foram pelo Departamento de Estado norte americano.

Sobre esse fato nenhuma novidade, pois milhares de documentos tornados públicos comprovam os acontecimentos históricos.

O leitor com certeza já deve ter visto esse filme recentemente, mas com outro elenco, outro realizador e produção mais sofisticada. Nada de tanques nas ruas ou nas estradas. 

Basta espalhar a mentira pelos jornais, revistas e canais de televisão, que o crédulo povo brasileiro ainda acredita na existência de comunistas comedores de criancinhas. Chega a ser patético.

O Brasil gosta, de tempos em tempos, de reprisar alguns de seus momentos de grandes patriotadas, onde o espírito de justiça social, solidariedade e independência sucumbem diante do entreguismo, da ganância, do preconceito e da submissão cultural.

O show, criado por Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa e Paulo Pontes, contava com a participação do compositor e cantor nordestino João do Vale, do cantor e compositor carioca Zé Keti e da cantora e também compositora, capixaba, Nara Leão. 

A realização do espetáculo foi de Augusto Boal, carioca de nascimento, mas que se tornou um dos ícones do Teatro de Arena de São Paulo, adquirindo notoriedade internacional ao criar anos depois o Teatro do Oprimido.

A questão que se coloca ainda hoje, se é que exista alguém interessado nisso no Brasil contemporâneo, é por qual razão o país não aprende com o seu próprio passado?

1924, 1930, 1932, 1935, 1954,1964, 1968, 2016. Uma história republicana carregada de expectativas democráticas, mas sempre destruídas pelos bolsões reacionários que se abrigam tanto nos grotões do país como em algumas de suas maiores metrópoles.

O oportunismo político mistura-se às entranhas da nação, tornando frágeis alguns de seus ossos e músculos e deixando o organismo, como um todo, vulnerável a ação dos eternos predadores nacionais e internacionais.

E de tempos em tempos vamos nós tentando encontrar o caminho das pedras, aquele que não nos deixará morrer abraçados à mediocridade, à ignorância e à indigência cultural, como essa que vivemos no momento. 

O capitalismo caminha para uma implosão de suas principais bases de sustentação como a acumulação de imensa riqueza em poucas mãos, a exploração cada vez mais selvagem do trabalho, áreas onde a corrupção e o desemprego tornam-se protagonistas de uma realidade de convivência doentia entre seres humanos.

Entre nós, essa conjuntura chega ao descalabro de vermos policiais agredirem crianças indefesas no meio da rua ou matar jovens adolescentes em bailes de final de semana, o que, de certa forma, nos torna fortes candidatos a uma aguda depressão social, onde nem mesmo uma atividade e manifestação cultural como foi o “Show Opinião” de 1964 temos para assistir.

Estaremos à beira da falência do humanismo?

Ou já não temos “opinião” para mais nada?

3 comentários

  1. Se não me engano João do Vale era paraibano. Se especifou os outros, o mesmo vale para quem é da região Nordeste.

    Quanto ao Brasil, anos de Rede Globo e sua escola do individualismo, do dinheiro, do desprezo à cultura, levou sim o brasileiro a não ter opinião sobre nada ou ter a opinião publicada sobre tudo.

  2. Tem toda a razão, Márcio, não está sendo nada chato. E olha que não fui muito mau aluno de Matemática.
    Não sei a sua idade, mas prepare-se para o envelhecimento, que é traiçoeiro nas suas investidas, rsrsrs…

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