Os Cavaleiros do Apocalipse decidem visitar o Nordeste, por Sebastiao Nunes

O apocalíptico cavaleiro Messias convocara os filhos e o escudeiro-Moro para uma excursão ao Nordeste, buscando imitar as muitas que palmilhara, anos atrás, o nunca assaz louvado presidente Lula

Os Cavaleiros do Apocalipse decidem visitar o Nordeste
Por Sebastiao Nunes

– Deita na gamela e fica quieto, Carlos – reclamou o cavaleiro Messias de seu filho vereador, que esperneava que nem criança mal-educada. – Se você não deitar, será difícil matar os carrapatos.

– Matar é comigo mesmo – afoitou-se o cavaleiro Flávio-senador. – Quem é que estão querendo matar? É só me dizer o nome que o desgraçado está fodido!

– Também gosto de matar – intrometeu-se o cavaleiro Eduardo-deputado. – Sou especialista em matar e mandar matar, de preferência mulher, traveco e crioulo. Querem alguns presuntos frescos? É só encomendar!

– Calem a boca vocês dois – arreliou-se o cavaleiro Messias, pai-coruja e guru de Carlos, Flávio e Eduardo. – Por agora ninguém vai matar ninguém. Cadê o fumo de rolo que mandei comprar, escudeiro-Moro?

– Tá aqui, chefe – apressou-se o pau-mandado. – É bom liquidar logo os micuins antes que se fartem de mamar e transmitam a maculosa. De carrapato eu entendo.

– Deve entender mesmo – ironizou Carlos, o vereador peladão, encolhido na gamela de curar bicheira de bezerro e com água até o umbigo. – Mas andem logo com isso, que não aguento mais de tanta coceira!

– Me ajudem a picar o fumo – ordenou o cavaleiro Messias. – Fumo de rolo fede que nem bosta de pobre.

Foi só começar e acabar. Cada um com sua peixeira, cortaram em pedacinhos o fumo, jogando os toletes na gamela de água suja, dentro da qual se coçava a modo de cão sarnento o vereador Carlos.

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ACONTECERA O SEGUINTE

Decidido a demonstrar in loco sua capacidade de governança, o apocalíptico cavaleiro Messias convocara os filhos e o escudeiro-Moro para uma excursão ao Nordeste, buscando imitar as muitas que palmilhara, anos atrás, o nunca assaz louvado presidente Lula, odiosamente preso por consabidas maquinações maquiavélicas.
Pensou em convocar para integrar a caravana os ministros recém-empossados, mas logo desistiu, desconfiado de sua (deles) capacidade de penetrar a alma popular, como se ele próprio soubesse o que fosse alma popular.

– Onde mesmo é que fica o Nordeste? – perguntou em dúvida ao escudeiro-Moro, pau para toda obra.

O escudeiro-Moro coçou a cabeça, matutou um pouco, e concluiu:

– Acho que para os lados da Bahia. Parece que é um pouco mais em riba. Se o senhor quiser, posso olhar no Google.

– Não precisa. O piloto deve saber. Ele vai completar 666 horas de voo.

E lá se foram os cinco cavaleiros às terras secularmente espoliadas por casas-grandes e imensos latifúndios. Voando no avião presidencial, chacoalharam em campo de pouso capinado às pressas por leitura errada dos roteiros nordestinos.

Vivalma? Nenhumas. Tudo por desentendimento do piloto, que leu por caatinga o que deveria ser Canindé, povoação catita do semiárido cearense, cujo santo padroeiro, São Francisco das Chagas, atraía romeiros de toda as redondezas.

E lá estavam eles, criaturas do asfalto e do malfazer, mais perdidos que cego em diligência policial nos subúrbios do Rio de Janeiro.

O QUE ASSUCEDEU EM SEGUIDA

Mal capinado, o campo de pouso mais parecia pasto de vacas prenhas, no qual se meteram os cavaleiros de terno, gravata e a pé, deixando as alimárias amarradas no rabo do avião. Aos poucos, começou incerta coceira generalizada, principiando no vereador Carlos, que seguia à frente da quadrilha, já fartamente comido de micuins, minúsculos e famintos, que davam graças aos céus pelo inesperado reforço alimentar.

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Logo toda a comitiva estava a se coçar rudemente, pois os futuros rodoleiros partiram vorazmente em busca daquelas carnes tenras e gostosas como não viam desde os tempos das Capitanias.

– Vixe! – gemeu o escudeiro-Moro. – Comecei a pinicar também, e só pode ser carrapato, que aqui é mais do que mato.

– Eu também! – gritou de seu lado o senador-Flávio, metendo unhas em perna e bunda, que lhe coçavam desesperadamente.

– E eu! E eu! – vociferaram por sua vez, quase em uníssono, Eduardo-deputado e o cavaleiro Messias, defendendo-se com ardor da furiosa investida de miríades mirins dos abençoados micuins, anteprojetos dos futuros rodoleiros, afamados, os pequenos e os graúdos, por sugarem em fúria cavalos e cavaleiros desavisados.
Escondidos numas moitas de capim colonião, meia dúzia de vaqueiros ouviam e viam aquele remelexo doido, rindo-se entre si dos apocalípticos cavaleiros.

– Conheceram, papudos? – resmungou à socapa um deles, esperançoso de que a febre maculosa desse cabo daqueles malditos malvados.

 

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