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Os diários de Bárbara – fragmento, por Maíra Vasconcelos

Os diários de Bárbara – fragmento, por Maíra Vasconcelos
MAX ERNST, DEUX JEUNES DAMES, 1972, GOUACHE, PENCIL, INK, AND COLLAGE ON PAPERBOARD, 9″ X 11 3/4″ X 1 1/2″, FRAMED. COURTESY OF KASMIN, NEW YORK.

Os diários de Bárbara – fragmento

por Maíra Vasconcelos

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Ano passado, por primeira vez, publiquei um fragmento dos meus diários, “Os diários de Bárbara”. Tentei a publicação na Revista Caliban, por sua abrangência para além Brasil, pois a equipe editorial engloba profissionais também de Portugal, Angola e Moçambique. A revista foi, e parece que continuará sendo, o lugar onde se poderá ler trechos dos meus diários, que passarei a publicar uma ou duas vezes, por ano. O responsável por fazer a ponte entre meus textos diarísticos e a Caliban, é o poeta Ney Ferraz, de Belém.

Replicar esse primeiro fragmento dos diários no GGN, é como abrir um espaço de contraste com as notícias políticas e econômicas que circulam aqui: a ficção sempre cai bem nos jornais.

Boa leitura.  

na Revista Caliban

Os Diários de Bárbara

Supostamente essas páginas estão a sustentar o mais claro de mim. E, certamente, não. No entanto, Buenos Aires se faz árida de novidades, algumas boas, mas nem sempre prazerosas. Ou isso que é apenas o viver. Com um diário, a tarefa de vida se faz mais acompanhada e mais solitária, de mãos dadas a mim mesma ou a essa que aqui escreve cheia de outras influências literárias. Nunca sendo eu mesma, jamais. Algum dia, deveria provar ser eu mesma, mas talvez não convenha e seja pouco interessante. E pouco vívido também. É melhor viver em outra e nesses diários.

A vida em casa se parece apenas à construção consciente de uma mulher que deve buscar espaços concretos. Como não sei ainda fazê-lo, e isso não tem a ver com o fato de realmente gostar desse apartamento sem plantas, claro. Talvez, pudesse escrever uma novela curta com essa história, a de uma mulher cheia de casa, sempre com preguiça da casa, sempre com muito esforço em ser essa que não seja ela mesma.

Não deveria escrever demasiado e todos os dias nesse diário. Mas, por enquanto, não há nenhuma possibilidade de distanciamento. Além do mais, preciso escrevê-lo melhor ou tentar sempre regular o tom dessa voz. Às vezes, canso-me antes mesmo de começar, porque já conheço o ritmo com o qual escreverei. Cheia do decaimento de certas coisas de mim mesma que começarão a ser passado. Deveria regular a teatralidade óbvia dessa escrita. Sem nunca perder o tom da voz, ainda que possa ter matizes. Em algum momento, também devo dar-me ao trabalho de cortar muitas palavras, revisar. Ao mesmo tempo, um diário não guarda tantos arranjos. É apenas isso, escrever o que há. Hoje. Isso tem uma resposta dupla de vida, como se fosse a própria vida, mas também é uma tentativa literária muito bem pensada, outras vezes não, ou nada pensada. Mas estará sempre junto a mão que corta as palavras, a mente crítica revisora, até mesmo em um diário; aqui, onde está uma parte da minha vida. Se meu trabalho com a escritura fosse apenas encher de cotidianos esse diário, poderia ter alguma ingenuidade frente à palavra escrita. Mas essa ingenuidade não há e talvez nunca haverá. Porque aqui é onde começo a desenhar o que será a minha escrita. Que nem ao menos posso ainda precisar, e apenas escrever e escrever, todos os dias.

Novembro de 2011.

***

Trecho retirado dos meus diários, revisado e editado para essa publicação na Revista Calibán. Essa é a primeira vez que se publica um fragmento. Hoje sei que se trata dos meus diários. O que a princípio, realmente, não sabia, pois escrevo em terceira pessoa (há momentos, em primeira pessoa) e cheguei a considerá-los novela ou romance, por muito tempo. Cheguei a enviar os diários inteiros, naquela época, ao redor de 450 páginas, ao editor da Patuá, Eduardo Lacerda (Que ele me perdoe o despropósito. Imaginem, quase 500 páginas). Passados alguns anos, entendi que esses são apenas os meus diários. E essa necessidade de fazer ficção, mesmo em diários, formam o início dos meus primeiros escritos.

Maíra Vasconcelos nascida em Belo Horizonte, mora em Buenos Aires. Escreve crônicas no Jornal GGN, desde 2014, há quase dez anos escreve Os diários de Bárbara. Autora do livro Um quarto que fala. São Paulo:Urutau, 2018.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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