Os Gritos de Carnaval, por José Bulcão

O grito de despedida. A catarse. A mensagem maior de que carnaval é alegria, mas é também protesto e luta!

Os Gritos de Carnaval

por José Bulcão

Sexta-feira

E pensar que começou com um lamento, de dor, de muito sofrimento pela perda de uma vida ainda desabrochando. Um menino de apenas sete anos, um anjo, com um sorriso lindo se foi repentinamente, sem poder dizer adeus a muitos que o amavam e ainda o amam.

Sábado

Veio o grito de tristeza e um sussurro sufocado pela injustiça cometida contra o avô daquela criança, privado do convívio com sua família, seus amigos, seus inúmeros – milhões! – de outros irmãs e irmãos, filhos e netos, com seu povo! Foi um grito de despedida, de revolta pela humilhação de não poder sequer acompanhar o velório de seu neto mais próximo, de raiva pelo aparato espalhafatoso montado a seu redor, que sequer soube respeitar a dor daquela familia, mãe, pai, primas e primos, tias e tios, tanta gente que amava o pequeno Arthur e a saudade sem fim daquele avô injustiçado. Foi também um grito de reconhecimento pela grandeza daquele homem, que mesmo calado, abatido, aterroriza seus algozes ao ponto de nem quererem deixá-lo acenar para o povo que tanto o ama. Mas aquele nordestino arretado não se deixou vergar e disse ao carrasco que tentou argumentar que ele não devia acenar ao povo, virando-se para ele com sua voz forte, mas sempre calma e respeitosa: “o senhor sabe que eu devia”.

Domingo

E o grito, aquele nó na garganta do povo que quer ser feliz, trabalhar e cantar, explodiu em uníssono, por todos os lugares, desde os grandes centros até os cantos mais remotos do país. O Brasil só tinha uma voz, só queria mandar um recado, soltar aquele nó e dizer que o sujeito que se crê ungido, o tal “mito”, já era, se despedaçou com a chuva fina, porque era feito de papel, uma imagem falsa, covarde e fraca, incapaz de resistir à grande piada do carnaval, o convite metafórico, cantado em alto e bom som, para que fosse embora com seu rabinho entre as pernas, através do clamor popular que ordenava “Ei bolsonaro! Vai tomar no …”. A voz do povo é soberana!

Segunda

Leia também:  Supremo deve declarar suspeição de Moro contra Lula até novembro, diz jornal

Eis que o grito reprimido por quase 519 anos explode na avenida. O grito do povo indígena, do povo negro, do povo pobre, das mulheres, de todas as minorias, o grito dos brasileiros ecoa junto com a comunidade da Mangueira, morro do Rio de Janeiro que tantos talentos nos deu e nos dá. Veio a Mangueira contar, na forma de um grito de liberdade, a História que a “história” não conta. Foi lindo poder cantar forte e alto os nomes de nossas heroínas e nossos heróis Dandara, nossa Luísa Mahin, nosso Luís Gama, nosso Mussum, nossas Lecis e nossos Jamelões, nosso Dragão do Mar Chico da Matilde, nossos Tamoios, Tupinambás e todo o povo originário, massacrado e esquecido, nossa Zuzu e seu anjo Stuart, assim como tantos que enfrentaram a ditadura assassina e, claro, nossa heroína, nossa Oyá guerreira, senhora das lutas e da justiça, Marielle Franco. Eparrêi!

Terça

O grito de despedida. A catarse. A mensagem maior de que carnaval é alegria, mas é também protesto e luta! O grito como mensagem de que o carnaval acaba, mas a luta segue. Ninguém vai soltar a mão de ninguém e nem vai dar um passo atrás sequer. É na rua que o povo brasileiro se encontra. É a rua que faz os senhores de engenho temerem e é prá lá que nós vamos. E vamos gritar. E vamos cantar. E vamos dizer que o Brasil é nosso, do povo brasileiro. Teve também o grito de espanto, mais uma vez o grito de raiva e desprezo por um sujeito que, eivado com a faixa presidencial, foi capaz de tentar expor seu povo e país à vergonha, à degradação pública, à chacota e à repulsa ao querer associar nossa festa mais tradicional e bela com um tal de banho dourado, nada edificante. Não conseguiu. O tiro saiu pela culatra e quem tomou um banho de vergonha e desonra foi o próprio autor, um sujeito menor, ínfimo, covarde, sem respeito à seu povo e país, sem apreço à sua cultura. Um pária, que cada vez mais se mostra aquilo que sempre foi e será, um verme fascista, desprezível e descartável.

Leia também:  Uberistas, taxistas e populismo, por Rui Daher

Quarta

Eis que chega a quarta-feira de cinzas e Jorge Pelingeiro dirige o show, mas quem comanda o baile é novamente a Estação Primeira de Mangueira. Leva tudo. É nota máxima em tudo. O desfile da Mangueira na Segunda foi impecável. Tudo perfeito. A matemática fria de um desfile sem falhas dá lugar à majestosa história por trás dos retratos, que mostrou o sangue retinto derramado em favor da construção de uma verdadeira nação, cujos valores estão bem acima daqueles que figuram nos livros da história oficial. O desfile, pela beleza das alegorias, do samba (que samba!), das fantasias, da bateria, da evolução, de tudo o que os olhos puderam ver e os ouvidos puderam ouvir na avenida, foi antológico, mas acima de tudo isso, Mangueira mereceu mais que qualquer outra essa vitória, muito mais por algo que não apenas os olhos viram e os ouvidos escutaram. Mangueira ganhou porque fez o coração bater forte, a alma ser lavada. Era a alma do nosso povo, eram negros, índios e pobres, conforme constava na bandeira redesenhada do país redescoberto, quem desfilava diante do mundo para dizer que o grito de liberdade jamais será calado!

E vamos à luta! Obrigado Mangueira!


Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome