Os últimos dias de Sandoval Herculano nas terras do Taperebão, por Izaías Almada

Foi nos anos em que um tal de Jango chegou a ser presidente do país, logo depois que sua mãe morreu. “Deus esqueceu o Taperebão”, costumava dizer. O diabo, nem conheceu.

Cândido Portinari - fragmento de O Lavrador de Café

Os últimos dias de Sandoval Herculano nas terras do Taperebão (*)

por Izaías Almada

         Sandoval era comunista. Ou melhor, carregou o estigma pelo resto da vida. Na verdade, nunca soube o que era isso.

         Apenas achava que quem trabalhava a terra de sol a sol, mais dia, menos dia, tinha que possuir um pedacinho de seu para cultivar. Costumava dizer isso ao pai e aos dois irmãos que iam com ele trabalhar lá para os lados do Taperebão.

Foi nos anos em que um tal de Jango chegou a ser presidente do país, logo depois que sua mãe morreu. “Deus esqueceu o Taperebão”, costumava dizer. O diabo, nem conheceu.

         Filho mais velho de Milagres e Tenório Mariano, Sandoval cresceu tangendo e marcando gado numas terras que ninguém sabia muito bem de quem eram, mas que um tal de Zaqueu Totonho cercou e mandou um grupo de vinte homens armados vigiarem. Cem hectares ao todo. Outros diziam que a terra era do governo.

         Sandoval tinha também uma irmã, a caçula Marieta. Era ela quem tomava conta da casa. Marieta tinha onze anos de idade e ficou mulher naquele mesmo ano.

         Foi tudo muito rápido.

         As ideias foram chegando por entre o mato e foram se ajeitando pelas vendas, nas conversas de beira de estrada e na cabeça do pessoal. A terra tinha que ser dividida. Tal qual no pensamento de Sandoval. Era preciso organizar os homens que trabalhavam a terra. Formar um sindicato.

         Zaqueu Totonho reuniu seus capangas e seus trabalhadores e disse que quem estava espalhando aquelas ideias era um pessoal chamado de comunista e que tinha ligações com alguns políticos da capital. Gente aparentada com o demônio. Sandoval ouviu o falatório de Zaqueu Totonho e pensou discutir o assunto em casa na hora do jantar. Não pôde…

         Naquela noite não teve jantar. Marieta tremia de febre e tinha as roupas e as pernas ensanguentadas. Foi gente do Zaqueu, disse a menina. O pai de Sandoval foi chorar escondido junto à cisterna. Os outros dois irmãos deram banho na irmã, trocaram a sua roupa e rezaram para Nossa Senhora do Amparo. Sandoval jurou vingança.

         Três dias depois apareceu com Marieta no Taperebão, a cavalo. Cheiro de sangue. Sandoval era homem sem medo. Um dos capangas de Zaqueu tentou interferir e foi abatido com uma foiçada na testa.

         O verdadeiro culpado não teve tempo de correr. Um tiro na nuca e outro no pulmão esquerdo. Zaqueu Totonho soube de tudo e considerou que a honra da menina estava lavada. Deixou que o pai de Sandoval e os irmãos continuassem trabalhando para ele, mas espalhou a notícia de que os comunistas é que tinham criado aquela situação.

         Sandoval e Marieta nunca mais foram vistos no Taperebão. Dizem que ela é professora primária no Estado do Tocantins. Sandoval foi ser chofer de táxi em Belo Horizonte e Zaqueu Totonho foi eleito deputado estadual e depois vice-governador de Minas Gerais.

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(*) – Conto do meu livro “Memórias Emotivas” / Ed. Mania de Livro.

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro. Nascido em BH, em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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