Pai e filho comunistas em conflito, por Urariano Mota

Urariano Mota tira da gaveta um trecho significativo de seu livro "A Mais Longa Duração da Juventude", para esses tempos em que vivemos.

Pai e filho comunistas em conflito

por Urariano Mota

Agora,  estamos em Jaboatão, e Daniel conversa camarada na casa de Karl Marx. Sincero e aberto, Marx acredita como palavras de fé a conversa de Anselmo, digo, Daniel. O agente cruza as pernas, fuma e pontifica sem dar a mínima a normas de segurança: 

– Eu tenho um contato com um cara que tem muitas armas. 

– Armas, balas, novas? – Marx pergunta encantado. 

– É claro. Arma velha, enferrujada, eu não aceito.

– Mas qual o tipo de arma?

– Metralhadora, fuzil. E bomba de primeira também.

– Rapaz, é um arsenal – Marx volta. Mas pergunta: – Como é que ele tem isso tudo?

– Segredo de Estado…. é uma pessoa de total confiança.

– Eu conheço?

– Hem? E se conhecesse, eu não diria. 

Anselmo gargalha. Marx, sem conhecer a verdadeira razão do cômico, gargalha também. Nesse momento atravessa a sala o pai de Marx, um velho comunista, que olha para Daniel. O velho, que registrou os filhos com nomes de revolucionários, escutava a conversa deitado no seu quarto. Ele dirá a Marx, quando Anselmo/Daniel for embora: 

– Eu não gosto desse cara. 

– Lá vem o senhor… por quê?

– Eu não confio nele. Comunista de verdade é discreto.  

– Isso foi no seu tempo, pai. Daniel é um tipo novo de comunista… Muito viajado. 

– Eu sei…. Eu conheço esses viajados. 

O velho saía resmungando porque a conversa ia azedar, e logo, logo, entrariam os dois em discussão braba, com o filho apontando o caráter reformista do partidão, e o pai respondendo que no passado conhecera aventuras de armas que não deram certo. Organização de porras-loucas ele sabia como terminava. Nada se podia fazer sem o povo, sem um trabalho de massa. 

– O senhor está aposentado.  

O velho ao ouvir isso ficava engasgado, passando mal. E logo chegava a mãe, nervosa, com um copo d’água gritando: 

– Você respeite o seu pai. Ou respeita ou sai de casa. 

– E saio mesmo – Marx respondia. E deixava a sala batendo a porta, irritado com a velharia atrasada, que desconfiava da nova revolução. 

Por isso o velho resmungava, quase a implodir num infarto, porque evitava as palavras e ações mais duras, em que ele ficava a ponto de pegar uma corda e dar umas boas lambadas no filho. “Aposentado pra luta, era só o que faltava”. O pior é que lambada não resolvia. “A solução é dialética”, ele se dizia. Mas o que podia fazer a dialética com a juventude?

– A inexperiência é dialética, companheiro? – ele perguntava a um camarada, no dominó à tarde. 

– Oxe, é nada. A inexperiência é burra. 

– Também acho. Bati!

E jogava as pedras do dominó sobre o tabuleiro. E se levantava. O que fazer com menino que não ouve a gente? “Vai tomar no oiti… E eu vou também, puta que pariu”. E saía se arrastando, falando só. O quadro que o atormentava se traduzia nos resmungos: “Isso não acaba bem. O porra não vê? Não. Vai tomar. E eu vou também. Isso é certo?”. 

Marx gostava menos ainda de discutir com o pai. À sua maneira, respeitava-o. Mas o velho era “atrasado”. E com isso Marx queria dizer que era um jovem, com ideias novas, organização nova, tinha cabelos compridos feito os Beatles, gostava de música de guitarra. O que era o PCB? Jogar dominó, tomar cachaça na barraca, ver o Chacrinha. O PCB era o velho. Gostavam até de ver o anticomunista Flávio Cavalcanti na televisão. Aí estava em que caía o velho. Mas alguma coisa fazia sentido. “Ele pode ser atrasado em política, mas conhecimento da vida ele tem”. 

*Do romance “A mais longa duração da juventude”

Vermelho https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/urariano-mota-pai-e-filho-comunistas-em-conflito/ 

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