PAI, por Ricardo Rangel de Andrade

Trata-se de um relato fictício, embora alguns acontecimentos possam coincidir com a realidade. Nada é por acaso.

PAI¹

por Ricardo Rangel de Andrade

Recém-ingresso no Ministério Público, não tardou para que seu potencial, talento e competência despontassem. Ascendeu rápido na carreira, ocupando cargos e exercendo funções cada vez mais relevantes. Alçado à chefe de colegas muito mais antigos que ele, começou a capitanear grandes e complexas investigações criminais, com repercussão inclusive internacional; e, à frente delas, prendeu e processou por corrupção políticos, empresários e servidores públicos, reputando criminosas as relações estabelecidas entre eles.

O jovem prodígio granjeou imensa notoriedade. Virou celebridade. Lançou livro contando as experiências vividas. Foi agraciado com prêmios, comendas, homenagens e toda a sorte de honrarias. Diuturnamente, participava de programas e concedia entrevistas para os principais e maiores órgãos de comunicação do país. O que dizia se tornava notícia, na televisão, nos jornais e nas mídias sociais. Rogava-se com empenho a sua presença em todos os lugares: universidades, congressos, associações, fundações, igrejas, entidades da sociedade civil organizada e órgãos públicos. Até mesmo em bailes de formatura seu comparecimento era desejado com entusiasmo.

A demanda era tão grande pela sua presença que amiúde não conseguia atendê-la. Então, resolveu cobrar por palestras, obtendo, dessa forma, uma renda extra ao salário. De quando em vez, o valor cobrado coincidia com o de personagens principais e artistas de shows. O preço superava a remuneração que recebia do Estado e excedia, desproporcional e descomedidamente, a quantia que cabe a um professor por cada hora de aula. A criação de uma empresa ou instituto de eventos estava no horizonte, para promover as palestras remuneradas e gerir os respectivos cachês.

Vieram as críticas. Tão inexoráveis como fora a inevitável fama. Imputaram-lhe abuso da sua posição para ganhos pessoais; de lucrar com a fama, aproveitando-se do prestígio do cargo e das relações que travou durante às investigações. Acusaram-no, ainda, de: prática regular – e ilegal – de atos de comércio, fazendo as vezes de mercador; uso de salas, recursos e funcionários públicos na organização de sua atividade pessoal de palestrante; empréstimo do prestígio do cargo público – ou venda da função pública – para benefício próprio e/ou de entidade privada; monetização das investigações criminais, convertendo-as numa maneira de ganhar dinheiro, como se as investigações mercadorias fossem; patrimonialismo, confundindo as esferas pública e privada; e de dar causa à conflito de interesses, ao receber recursos de empresas investigadas ou que poderiam vir a ser. Por analogia, sua conduta foi equiparada à que se descreve, no âmbito da igreja, como o pecado da simonia: compra ou venda ilícita de coisas sagradas ou espirituais, tais como benefícios eclesiásticos, sacramentos e indulgências. Em suma, atribuiu-se-lhe o uso de conhecimento adquirido em virtude de sua posição oficial para auferir ganho privado durante o exercício das funções.

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Legiões levantaram-se em sua defesa, objetando contra as acusações: boa parte dos recursos se destinavam a entidades filantrópicas ou serviam de custeio para iniciativas e ações que promovem a ética, a cidadania e o combate à corrupção, ou seja, parte significativa do dinheiro obtido era doado para fins beneficentes/caridosos; as palestras, ainda que remuneradas, inseriam-se no conceito de docência – equivalentes, portanto, ao exercício do magistério (ensino, professorado); a atuação funcional nelas tratada não abrangeu assuntos sigilosos; e são atividades de interesse público. Intenções ocultas e escusas estariam por trás das acusações: estancar as investigações de corrupção e impedir a punição de pessoas poderosas. Quanto às recriminações oriundas dos próprios pares, colegas de trabalho, eram movidas pelo sentimento de inveja relacionado à fama e sucesso alcançados, ou baseavam-se em inconfessável motivação política.

Mas o que lhe incomodava mesmo, deixando-o transtornado, era a postura de seu pai. Não que ele, seu pai, tivesse cerrado fileiras, por assim dizer, com os críticos; ou endossasse as acusações. Absolutamente. Mas também não atacava nem censurava os que lhe criticavam – os que acusavam o próprio filho. Não culpava os outros pela situação do filho, recusando-se a vê-lo como vítima. Sentindo-se consternado e desamparado com essa neutralidade – aparente, pois o amor de um pai pelo filho é incondicional – de seu pai, foi procurá-lo; e ouviu que se segue.

Meu filho, “nos cargos públicos, está sempre latente a oportunidade tentadora de trabalhar pela honra e glória, para a vingança ou ganho pessoal. Junto com o cargo público chegam o poder e a influência” 2; e o cargo que ocupa é tido como um dos de maior prestígio da República, além de ser vitalício, destinado a durar a sua vida inteira. Seu salário está entre os mais altos do serviço público. Quando precisa viajar a trabalho, é digna e satisfatoriamente indenizado por isso. À custa do empregador – no caso, o Estado -, pode frequentar e participar de excelentes cursos e seminários para seu aperfeiçoamento. Há outros benefícios, mas que não vêm ao caso agora, porque os conhece melhor que eu. Lidera portentosas investigações – consideradas das mais proeminentes, pelo menos na história recente deste país – a permitir que assuma relevantes responsabilidades e desafios – uma oportunidade única e inestimável de enriquecimento pessoal e profissional. Goza de consideração e respeito dos colegas com quem trabalha. Tem a estima e o apreço de um extraordinário número de pessoas pelo que vem realizando. Desempenha suas funções com independência funcional, ou seja, ao tomar decisões, sujeita-se apenas à sua consciência e à lei. Quando labuta, pois, sua consciência não é servil à outra. Mora próximo aos seus familiares, e numa cidade com qualidade de vida bastante superior à maioria das outras.

Então, meu filho. Diante de tudo isso, “não se deixe deslumbrar pelo brilho da glória, dizendo presunçosamente; `Veja o que eu fiz!’” 3; e como te conheço bem e sei que é um ser humano decente, apelo para que faça um cálculo de prejuízos e benefícios: neste caso, valeu a pena empregar sua capacidade para ganhar um dinheiro extra?

Ricardo Rangel de Andrade – promotor de Justiça em Goiás

1 Trata-se de um relato fictício, embora alguns acontecimentos possam coincidir com a realidade. Nada é por acaso.

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2 Bunim, Irving M. Ética do Sinai. SP: Sêfer, 2001, pág. 78

3 Idem, pág. 79.

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