Passeio com flores, por Maíra Vasconcelos

por Maíra Vasconcelos

Irei passear um pouco mais pelo meu espírito, enquanto escrevo neste jornal. Até quando, não sei. Respiro. Irei passear um pouco mais. Mais uma vez, escrevo, mais uma dose, menos um princípio. Pela indecência, pela total falta de pudor que tanto nos enriquece. Escrevo. Sem amém, por favor. Não me apressem e me tolerem. Vou. Estou indo. Tomo nota de cada detalhe. Mais uma flor: leucanthemum vulgare. Aceitem-na, por favor. Depois, se passo por bosques ou chãos de concreto, isso os avisarei. Amanhã. Estou a criar diálogos com o mundo. Ainda que sempre sozinha, e muito. Não há vivalma. Ainda que tantas vozes me façam companhia, ainda que não conheça todas as vozes, mas tampouco desconheça. Depois, essa vozinha. Tomo nota de cada detalhe. Em mais um passo adiante. Vou.

Tenho tantas ofegações, ainda sem saber: qual dia viverei quimeras? Quimeras de uma vida sem afazeres absurdos. Esquecida, irremediavelmente. Mas não posso. Sempre a concentração que me anula e me aumenta, um pouco. E cria. A criação de todos os dias. Ah, quantos dias mais! Exclamação. Escrevo. Há quantos dias, aqui, neste quarto? Ainda sem saber se chegarei ao ponto do inenarrável. Narro uma possível história? Talvez. Para dar vida aos dias antes que a morte chegue. Isso parece razoável e sensato. Desencalhar uma vida, uma vida como uma mentira constante. Se escrevo. Se não escrevo pode ser a morte. Viva! Viva! Assim dizem todos, quando à espera de uma arte bonita. À espera. Regozijo. Desnuda diante do mundo e vidrada pelo amarelo. Assim, não serei uma mulher anônima e de alma apagadinha. E somente mulher estaria muito errado. Claro. Mulher-animal mulher-animal. Sim. Desnuda diante do mundo e a barriga exposta ao sol. Essa exposição além dos ossos, além dos francos ossos de todos os corpos. Não serei anônima. Habitarei a vida de cada palavra. Habitarei a morte de cada palavra. Todos os dias. Incumbida da criação de outras tantas palavras. Talvez. Outras tantas. Até quando?

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Irei passear um pouco mais pelo meu espírito. Passear para manter concentrada e dissipar essa voz. Essa vozinha. Para manter essa presença falante, essa fala que nunca será ausente. Não posso parar de falar. Escutem! Exclamação. Aproximem-se. Mas aproximem-se com precaução porque posso recitar a sua morte. Ah, que gargalhada imensa. Sim. Posso recitar a sua morte. Para apenas dar vida aos dias. Agora que tanto ri! Exclamação. Não serei anônima. Não serei longínqua. Jamais serei de alma apagadinha. Se escrevo. Em cada passo, em cada passo adiante com flores em minhas mãos. Se em cada passo existe a ofegação da vida. Da vida que eu vivo! Que eu tanto vivo! Exclamação, exclamação. Sempre sujeita a flutuações de alma. Sim. Quem não? Sempre sujeita às cores e às luzes. Tão proeminentes. Assim, nunca de alma apagadinha. Pululante. A cada expressão da lumiaria no trajeto inconstante. Claro-escuro claro-escuro. Alguém percebe? Esse amarelo pelo qual me refaço diante do mundo. Todos os dias. Quem ainda não viu a luz das frestas? Qual luz, alguém vê? Eis o amarelo entre as palavras, a palavra entre o amarelo. Se tão exposta ao sol. Assim, posso recitar a sua morte. Ah, que gargalhada, novamente, que gargalhada imensa. Vou. Irei passear um pouco mais pelo meu espírito. Pisando e recolhendo flores, tantas flores.

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