Pedro Malasartes decide ser prefeito, com todas as regalias e vantagens da função

Estava eu posto em sossego, me deliciando com vídeos pornô e fumando um cachimbo de barro atochado de maconha orgânica cultivada em casa, quando o telefone tocou. Deixei tocar. Na décima vez atendi.

– Alô, doutor Nunes?

Estranhei. Não estou acostumado a ser chamado de doutor.

– Pois não.

– Aqui é a secretária do doutor Pedro Malasartes. Ele gostaria de marcar uma reunião com o senhor, de preferência no gabinete dele.

Eu não sabia que o malandrim do Malasartes tinha gabinete, mas tudo bem.

– Ok – disse eu, displicente. – Em que lugar, dia e hora?

– Ele gostaria que fosse hoje mesmo, às 15 horas, em Cafundó das Uvas.

Consultei meu relógio. Eram 17 horas e começava a escurecer.

– Tudo bem. Estarei aí.

Olhei para trás. Minha máquina do tempo estava ali no escritório, com o piloto cochilando na cabine, atochado de cocaína. Consultei o Google para me certificar da localização. Cafundó das Uvas era distrito de Cafundó, cidadezinha brasileira situada entre o Oiapique e o Chuó, às margens do rio Traíras. Outros distritos eram Cafundó das Melancias, Cafundó das Abóboras, Cafundó da Soja, Cafundó do Feijão, Cafundó das Laranjas e Cafundó do Milho.

No futuro do passado

Cheguei 15 minutos depois, 14 dos quais demorei arrumando a trouxa, isto é, ajeitando duas camisas, uma cueca, dois pares de meia, escova de dentes e outras miudezas num embornal de couro de onça-preta curtido. Se tivesse de pernoitar…

Fui recebido por Malasartes em pessoa. Acompanhado da secretária, o velho amigo de estripulias e bacanais me abraçou efusivamente. Malandrim, sim, mas ótima pessoa, sempre prestativo em qualquer situação de aperto, tipo cobrir cheque sem fundo, arregimentar laranjas e mulas, descolar habeas corpus etc.

Seu gabinete era logo ali, disse ele, de modo que fomos a pé. Antes de entrar olhei em volta para conhecer o distrito: constava de uma única rua e 33 casas. Fiquei sabendo que a população totalizava 333 pessoas, média de 10,09 por residência. Nada mal para as estatísticas do IBGE crescerem e os cabelos da UNESCO caírem.

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O gabinete era amplo. Chão de terra batida, paredes de pau a pique, redes nas paredes para a sesta, frigobar, a mesa de Malasartes (com telefone e computador), outra mesa grande e redonda com 20 cadeiras em volta.

Havia 12 pessoas em pé quando entramos. Todos de terno, gravata e botina rangedeira. Reunidos ali, à minha espera, conheci os mais ilustres cidadãos dos distritos cafundoenses retrocitados, acompanhados pelos principais assessores.

Apresentado aos ilustres e seus aspones, todos me cumprimentaram com simpatia, tecendo louvores a meu trabalho, nacionalmente conhecido e reverenciado. Malasartes ocupou a cabeceira. Fiquei à direta, sua secretária à esquerda. Na outra ponta da mesa, um taquígrafo ladino registrava até voo de mosquito-palha.

Curiosidade sobre os participantes

A secretária até que era jeitosinha, apesar das pernas curtas e do enorme nariz. De tanto mentir, conforme me explicou Malasartes. Quando precisou de secretária, foi à capital contratá-la. Numa agência de empregos temporários examinou fotos de 111 candidatas, de frente, perfil e corpo inteiro. Nem precisou ler currículo. O nariz dela era tão grande e as pernas tão curtas que ganhou disparado.

O que vi de mais curioso nos cidadãos ilustres foi o tamanho das bocas e dos bolsos. Bocas grandes e sorridentes, bolsos larguíssimos e permanentemente abertos, sugerindo sacos sem fundo. Os assessores não tinham bolsos, apenas mãos compridas de dedos finos. Se precisasse algum dia de puxa-saco contrataria um deles.

Ah, esqueci que você não conhece Pedro Malasartes. Mede entre 1,65 e 1,85, pesa de 70 a 90 quilos, seus cabelos são preto-castanho-alourados, gestos largos, voz variando de tenor a baixo, aparência simpática, vestido com sóbria elegância. Enfim, um sujeito impossível de descrever com precisão, se alguém caísse na besteira de tentar. O máximo que se poderia dizer dele seria: tem pinta de deputado.

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Antes da reunião, o refresco

No centro da mesa estavam dispostas 45 fileiras de cocaína e, ao lado de cada uma, canudos produzidos com notas novas de 10 reais. Coisa de pobre, matutei. A civilização ainda não chegara ali, só uns pitacos dela. Perfeito seria se fossem notas novas de 100 dólares. Mas a proporção era razoável: três fileiras por convidado, inclusive eu. E haveria mais se necessário, informou Malasartes.

– Espero que apreciem uma cafungada – comentou a secretária com um sorriso lindo e convidativo. Mal acabou de dizer essas singelas palavras, ela mesma se debruçou sobre a carreirinha mais próxima e mandou ver. Afoitos, todos mandaram ver.

Findas as cafungadas, seguidas de espirros e suspiros, todos se acomodaram confortavelmente nas cadeiras e olharam sorridentes para o anfitrião.

Começa a reunião

– Sabemos de sua competência em consultoria – disse Malasartes olhando para mim e circulando os olhos pelos ilustríssimos. – Gostaríamos, por isso, de consultá-lo sobre um assunto de enorme importância para nossa região.

Fez demorada pausa, olhou carinhosamente cada cidadão ilustre, e continuou.

– Como sabe, nossa região é privilegiada, e o será mais ainda em futuro próximo. Não nos agrada, porém, vivermos à sombra de Cafundó, que desfruta de todos os privilégios do poder, enquanto não temos nenhum. Nenhum mesmo!

Abaixou-se, deu uma cheirada numa fileirinha, fungou e continuou:

– Foi por isso que nós, os mais ilustres cidadãos dos distritos cafundoenses, decidimos unir forças e emancipar nossos distritos, constituindo novo município.

Nesse ponto me olhou longamente, como se pedisse opinião.

– Excelente ideia – disse eu, cheirando outra fileirinha. – Um novo município significa, necessariamente, mais um prefeito, câmara municipal, funcionários públicos e, naturalmente, verbas. Com fartura, de preferência.

– Gosto de você por isso – concordou Malasartes. – Pega logo a ideia. É claro que, como representantes dos distritos, os ilustríssimos presentes serão os vereadores. Seus assessores, secretários. Demais cargos, veremos com o tempo. Que tal?

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– Nada contra – apoiei com firmeza. – Creio que o país realmente necessita, não digo de novos municípios e mais gente ganhando pra ficar à toa, mas de boas cabeças que, com o passar do tempo, se tornarão deputados estaduais, federais, ministros, ou seja: se tornarão membros privilegiados da elite dirigente. Contem comigo.

Todos aplaudiram com entusiasmo. Malasartes pediu silêncio.

– Apenas como esclarecimento, devo registrar que entre nós não usamos a palavra mula, mas tatu. E não empregamos laranja, mas abacaxi. Assim, quando precisamos transportar cocaína et alii, usamos tatus. Para transações financeiras e empresas de fachada, abacaxis. Entendido?

– Só mais uma coisinha – apressou-se um homem alto e forte, que depois fiquei sabendo ser o mandachuva de Cafundó da Soja. – Nossos tatus estão fartos de transportar muamba em carro de boi. Exigem helicópteros. Se alguns podem e fica por isso mesmo, por que eles não podem?

– Fique tranquilo – arrematei eu. – É apenas uma questão de tempo.

Está encerrada a sessão

Feliz da vida, Malasartes pediu à secretária que, com a ajuda dos assessores, providenciasse novas carreirinhas, além de uísque e salgadinhos variados para comemorar. Enquanto esperávamos, pediu ao estenógrafo – coitado, não havia cheirado nada – que traduzisse para nós os garranchos anotados.

Como gesto de boa vontade, ordenei a meu piloto, ainda atochado de cocaína, que trouxesse da máquina do tempo delicados presentes para os convidados: pequenas mudas de maconha orgânica produzidas no terraço de minha casa.

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7 comentários

  1. O texto é instingante. Li-o

    O texto é instingante. Li-o no todo. Porém, fico sem saber se se trata de uma história real, embora não desconfie mais de nada em relação às relações de políticos brasileiros. 

  2. Ah, ah, ah, aqui nas Minas Gerais, Malasartes é sempre bem vindo

    contam até que aqui na cidade opera-se de maneira semelhante, reuniões, contatos, se é que me entendem. 

    Mas isso não vem ao caso.

    E se necessário for, podemos retirar também.

    Esse Malasartes se dá a cada desfrute !

  3. Camaleões

    Tem um personagem de filme que eu acho (ops…) fantástico. Trata-se do filme Jogos do Poder com o  Tom Hanks, mas o personagem que rouba as cenas é o Gust Avrakotos  (Philip Seymour Hoffman) que em  uma de suas falas “sapeca” algo mais ou menos assim:

     “Quando um senador está envolvido, com repercussões na imprensa, com drogas e sexo você pode “estacionar” um porta-aviões em plena Avenida Afonso Pena que ninguém, absolutamente ninguém vai perceber. 

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