Pela Arte de Professar, por Jean Pierre Chauvin

Mas, reconheçamos: é difícil, é duro atuar como professor neste país. Verdade seja dita: já tivemos dias melhores.

Banksy

Pela Arte de Professar

por Jean Pierre Chauvin

A senhora, o senhor internauta, conceda-me três minutos do seu precioso tempo.

Suponha estar diante de alguém que decidiu ser professor por volta dos vinte e poucos anos. Diga lá: haveria jeito melhor de fazer do ofício pretexto para mais estudar e compartilhar algum saber – ainda que pouco, pouco e fragmentário – com outras pessoas?

Pois bem. Esta é (ou deveria ser) a principal motivação para que alguém seguisse a carreira docente.

Mas, reconheçamos: é difícil, é duro atuar como professor neste país. Verdade seja dita: já tivemos dias melhores. Antes dos acordos MEC/USAID, em vigor na década de 1970, o magister era uma figura de prestígio. Recebia quase tão bem quanto um deputado ou um juiz do século XXI. Claro, descontada a possibilidade de convidar dezenas de assessores (não os confundam com monitores de turma, por gentileza) para auxiliá-los a inflar sua reduzida importância; isso sem contar as palestras muito bem remuneradas que dizem complementar os seus rendimentos.

Salvo engano, o processo por que passou a escola pública, de lá para cá, já chegou às universidades ditas públicas. Agora, pergunte-se, honestamente: qual a imagem projetada pelo docente, em nossos dias?

Vejamos: primeiro ele foi precarizado. Como recebe cada vez menos, reduz gastos com o que considera supérfluo (afinal, é ou deveria se importar mais com o conteúdo que carrega que com as aparências). Mas como alguém que não se veste feito juiz, com ternos caros, gravatas italianas, sapatos lustrados, costuma ser percebido neste território? Você sabe: para a maioria dos brasileiros, o salário (ou melhor, o poder aquisitivo) diz muito sobre o modo como alguém deve, ou não ser tratado. A julgar pelo modo ultraviolento com meus conterrâneos condenam os “moradores” de rua, destratam os garços, desprezam os engraxates, os auxiliares de limpeza, os funcionários das agências dos Correios etc, suponho que o professor – precário, precarizado – tem sido visto como um ser inferior e, pior, como aquele vagabundo que “tira duas férias por ano” e está a “reclamar de barriga cheia”.

Ah, o poder dos chavões. É curioso que os mesmos pais, mães e alunos (muitos a se portar como clientes egocêntricos, mesmo na universidade, ainda pública) não vejam problema no fato de que os juízes e outros profissionais melhor remunerados também usufruam de dois períodos de recesso por ano etc. Mas a culpa, bem sabemos, é do professor. Ele é que responderá pelo mau comportamento dos estudantes malcriados. Da ótica do alunado, ele tem o dever de ser atencioso, como a profissão sugere e o cliente demanda.

É difícil atuar como professor neste país. Particularmente desde meados da década de 1990, quando os megaindivíduos passaram a acreditar que o conhecimento está sempre à mão. Quantas vezes, durante aulas, sujeitos supostamente bem-intencionados, “corrigiram” 1% do que disse o em público? Experimente, você, professor, corrigir uma bobagem astronômica perante os colegas do bonzão.

Suspeito que a geração do século XXI seja ainda mais arrogante e suscetível que a minha. Combinação explosiva e deletéria, pois não enxerga o professor como referência, mas sim como um burocrata que chateia a sua brilhante existência – vazia de sentido e cheia de tédio; esvaziada de curiosidade pelo saber; mas repleta de opinião, lastreada pelos sites de busca.

É difícil ser professor neste país. Alguém poderia perguntar ao médico, à dentista, ao mecânico, ao dono da banca de jornal, à taxista, ao uberista se eles deixam de emitir opinião, ainda que fundada em fakenews. Já reparou? Todos se sentem perfeitamente à vontade para discorrer sobre política, especialmente se o tópico da incrível conversa for “corrupção”. Moral de araque.

Todos, inclusive os mais tacanhos, que nunca abriram um livro, nem folhearam revistas, estão autorizados a discorrer sobre as virtudes do mercado, o melhor negócio, ensinar o melhor investimento, a melhor forma de lucrar (sobre os outros), o método mais eficaz de investir na carreira, supondo a livre iniciativa e a possibilidade de ser chefe de si mesmo. Mas isso não é visto como doutrinação, pois não há “ideologia” no mundo de sabão que criaram, em que o dinheiro faz o papel de deus e a faculdade tornou-se extensão do ensino mé(r)dio ou, mesmo, da balada “top” da véspera.

Mas ao professor está vedado professar. Este ser abjeto, que pretendem converter em micro-especialista, técnico de uma disciplina, expert em um único assunto (desde que autorizado pelo diploma), não pode opinar, não pode sentir, não pode estimular o pensamento crítico (que é coisa de stalinista, embora quase ninguém tenha lido, e menos ainda compreendido o que porventura leu). Bom mesmo é lamber as botas dos Estados Unidos da América e implementar apenas para as camadas média e baixa o tal regime da “austeridade”. Se não me atinge, pensam eles, não me movo.

É difícil ser professor neste país. Como lidar com alunos que não demonstram cortesia, nem mesmo por e-mail? Sujeitos que muito cobram, mas não admitem ser cobrados, apesar de reconhecerem a funcionalidade do professor/orientador/tutor/gestor de bolsa ou coisa que o valha.

A postura clientelista, que nunca saiu de cena, voltou à moda. E agora está armada. Caberá ao professor ensinar boas maneiras? Provavelmente se o fizer correrá o risco de ser mal interpretado. Dia desses receberá uma mensagem assertiva do pai, do tio, da avó do querido discente, a reclamar que o filhinho universitário não pode, não deve, não merece ser tratado dessa forma. Discorrerão sobre o papel que esperavam do professor, embora afirmem respeitar a sua profissão, seu micro-conhecimento, o seu papel de civilizador, perante a sociedade – ou melhor, perante o indivíduo mega-protegido que não aceita nem regra, nem limite.

Mas o melhor, mesmo, fica para o final. Chegou a hora da formatura. Nenhum parece disposto a admitir que se trata de um momento importante (“fechamento de ciclo”, como se costuma dizer). Eles terão perdido a capacidade de se emocionar? Isso talvez explique o fato de que vejam o professor não como uma referência, nem como um ser que chegou bem antes (e já vivenciou, com maior educação, conhecimento e sensibilidade, o que supõem ser experiência exclusiva deles).

É difícil ser professor nesta neocolônia.

Talvez o melhor procedimento seja mostrar-se autoritário, engolir a boa vontade, assumir maior distanciamento. Mesmo porque não parece haver discernimento nos gestores, nos pais e em seus filhos adoráveis, que os permitiria distinguir entre autoridade e autoritarismo.

Direita, volver?

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