Pitaco do Conselheiro Aires, por Sr. Semana

Um pitaco em forma ficcional crítico do atual governo inspirado no romance Memorial de Aires de Machado de Assis.

Pitaco do Conselheiro Aires

por Sr. Semana

Extraído, pelo Sr. Semana, cronista da Gazeta de Notícias, da parte ainda inédita do Memorial de José da Costa Marcondes Aires.

 

1 de maio.

No dia do trabalho desembarco, aposentado, na Baía da Guanabara.

 

7 de maio.

Que país é este?

 

13 de maio.

Que explica a anotação anterior.

O autor hesita. Regressando de longa ausência exigida pela vida diplomática, me deparo com um país de tal forma transformado que, se não fossem a Rua do Ouvidor, a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Enseada de Botafogo, duvidaria se é o mesmo que deixei há 5 anos. Ao longo das minhas missões estive em países grandes e pequenos, ricos e pobres, democráticos e tiranizados. A experiência me leva a pensar e registrar neste diário que o governo atual é o primeiro e único no mundo—pelo menos entre os vigentes nos inúmeros países em que estive—a reunir falange tão variada de direitistas extremados. Se não me falham meus olhos malferidos, distingo 6 grupos.

01- Discípulos fanáticos de um autoproclamado filósofo anti-iluminista mais insano que Quincas Borba (e com o avesso da graça), capitaneados pelo próprio presidente da república, seus influentes filhos e ministros de pastas estratégicas. Agradeço a fortuna por ter me aposentado antes do desembarque.

02- Torquemadas messiânicos do judiciário e ministério público que proclamam, sincera ou hipocritamente, que o combate à corrupção justifica o emprego de meios que violam as garantias, liberdades e direitos constitucionais. Ai que saudade do Nabuco!

03- Militares linha-dura que me deixam nostálgico do Deodoro e do Floriano.

04- Ruralistas que querem legalizar a manutenção de empregados em condições análogas às da escravidão e permissão para matar os que invadirem suas terras, muitas das quais griladas. Até Santa-Pia, se ainda vivo fosse, se oporia.

05- Neoliberais ultra extremistas dominando toda a área econômica e de gestão do governo, capazes de levar a imensa maioria da população à mais extrema miséria sob o pretexto de sustentar o tripé macroeconômico. Não seria mais razoável sustentar a população?

06- Evangélicos fundamentalistas que atacam abertamente a laicidade do estado e a liberdade de cátedra, buscando implementar medidas que acreditam visar o bem-estar da nação (não a dos brasileiros, mas a dos filhos de Israel), na crença que assim contribuem para a segunda vinda de Cristo. Pois já não basta ter vindo uma vez?

04, 05 e 06 já eram bem conhecidos, influentes no Congresso e, em medidas diversas, em todos os governos que tivemos desde a redemocratização. Entretanto, em todos os governos anteriores esta influência era mais ou menos limitada pelos interesses e programas dos governos e suas principais bases de apoio. Agora não há programas de governo, cuja base de apoio é formada por estes grupos e pelos demais ainda mais extremistas.

03, que se julgava extinto, ressurge dos porões. Como diria o Fausto de Goethe: “Aí vindes outra vez, inquietas sombras…?”

02 já se insinuava através da imprensa pelas instituições antes da minha partida dando ares de querer captura-las.

Enfim, 01…!? Como compreender tamanha notoriedade por aqui (não se fala de outra coisa na Rua do Ouvidor) deste desvario travestido de filosofia cujas raízes desceram, subterrâneas, lá de cima do equador? Quem poderia há 5 anos imaginar que os valores mais fundamentais e preciosos da civilização ocidental, estabelecidos na Grécia de Sócrates, imortalizados por Plutarco, universalizados pelo iluminismo, seriam o grande alvo da ideologia oficial que quer estabelecer o obscurantismo no país do sol? E o mais espantoso—e irônico a notar neste 13 de maio—é que foi uma opção voluntária da maioria dos votantes pela escravidão da razão.

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