Aonde chegamos?, por Rui Daher

As transformações nas sociedades modernas se dão compassadas, não bruscas e, às vezes, perceptíveis após décadas.

Aonde chegamos?, por Rui Daher

Discute-se muito, atualmente, as perspectivas para a pós-pandemia da Covid-19. Se ela for embora, claro.

Saber e discutir sobre isso é mais apropriado a jovens, com horizonte, por óbvio, mais longo do que o nosso, idosos, e mais ainda dentre os de “alto risco”.

Não estou alheio a esse porvir. Tenho minhas hipóteses, mas tendo a pensar que não haverá transformações muito drásticas ou súbitas depois que houver vacina ou cura para o novo coronavírus.

As transformações nas sociedades modernas se dão compassadas, não bruscas e, às vezes, perceptíveis após décadas. Pessoas da minha idade devem sentir isso, tantas foram as inovações tecnológicas e de costumes que vimos acontecer e só as percebemos muito tempo depois. Costumo dizer: “fomos dos ‘orelhões’ aos telefones celulares; dos telex à comunicação digital pela internet”. Sem percebermos. Imaginávamos?

De prático e imediato, em nosso cotidiano, o que nos trouxe a pandemia de mais visível? Número de infectados, óbitos, sofrimentos familiares e entre amigos, precauções higiênicas, isolamento social, despreparo na falta de aparelhos preventivos e curativos, e diferenciação de classes sociais entre os que se salvam, ou não.

De louvor: o heroísmo dos profissionais de saúde e a solidariedade entre aqueles que menos podem. Fora eles, que vêm de instituições tradicionais de caridade tradicionais, acredito, e dos demais espero que a propaganda de grandes empresas e dos ricos, venham sem interesses de divulgação ou tributárias.

“Se puder, fique em casa”, frase ou slogan, sei lá, que me irrita. Perfeito. Aqui estou há 70 dias, mas rogo que pensem na expressão “se puder”.

Falam com quem caras-pálidas? Somente comigo e amigos “meritórios”? Deu para olharem a situação de penúria do país em que vivem? Quantos poderão cumprir tal ordem? Ou, sem internet, terão mesmo que se arriscar e enfrentar a precariedade do Estado mínimo, sem a possibilidade do anglicismo home-office?

Daí não poder parar por aqui. Na esteira, há uma catástrofe econômica de dimensões comparáveis às ocorridas no século passado.

O que poderá haver de mudanças depois desse pacote de maldades? Nenhuma!

Com certeza, e baseado num sistema econômico, há décadas, em processo de deterioração produtiva e mercantil, a recuperação dos estimados pela ONU, US$ 8,5 trilhões, perdidos durante a pandemia, se vierem pelas mesmas vias anteriores, de que formas serão? Na mesma engrenagem?

Digamos que, como muitos acreditam, a recuperação acontecerá com menor ganância e imediatismo, e poderá proporcionar leves alívios nas mazelas acima citadas.

Sinto dizer, nada de mais contundente fará mudar uma sociedade incrustrada nas aquisições econômicas e sociais vigentes há quase dois séculos.

Os último três quartos de século em gangorra, lá no alto da brutal concentração de renda entre países e segmentos populacionais, lá embaixo alargamento das restrições cidadãs, de gênero, raça e renda, a dor de viver em meio à destruição do viver em harmonia com a preservação ambiental e a biodiversidade.

Nada irá mudar depois da pandemia. Era isso o que queriam, meus irmãos do BRD? Pois é. Não insistam mais.

Inté!

 

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