Que fazer? Parte 3, por Rui Daher

Não sei o porquê, a momento, acabei misturando Lênin e meu avô Miguel, velho lutador libanês, que apenas conheci no caixão, em São José do Rio Preto, SP.

Que fazer? Parte 3, por Rui Daher

Do caderninho de notas, uma edificação construída com papel e lápis. Ivan Lessa (1935-2012, que pena) me ensinou “nunca ande sem ele; de uma palavra poderá sair um ótimo texto”. Se não perceberam, quando escrevo crônicas em galhofas, nos entremeios sempre há citações críticas sobre a sociedade em mazelas; e vice-versa. Se não perceberam, façam como propunha Ivan, entubem um robalo.

Cansado de reler repetições (necessárias, reconheço) no GGN, sobre as situações políticas, econômicas e sociais no planeta e, particularmente, na Federação de Corporações, em indevidas intervenções de 24, 31 de maio, e 1º de junho, dia mais outro menos (a editora define), decidi me afastar e deixar o BRD à cargo de Nestor (N) e Pestana (P), diariamente também no Facebook (N&P), cumprindo contrato com Dr. Mark. Descubro, a cinco caixas mensais de cervejas (eles acham que eu não sei das condições).

Não sei o porquê, a momento, acabei misturando Lênin e meu avô Miguel, velho lutador libanês, que apenas conheci no caixão, em São José do Rio Preto, SP.

Bem, os textos anteriores estão aí para vocês lerem. Não têm pretensão fática, mas fakes também não são, embora ache que toda a literatura ficcional seja fake. Ou não?

Verdade é que senão, quando, entretanto, tampouco, numa tarde fria outonal, vou à Redação para retirar meus objetos pessoais. Achava que seria como naqueles filmes norte-americanos. O sujeito, demissionário ou demitido, sai com uma pequena caixa de papelão levando seus pertences. Simples e nobre, não?

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Pois bem, no meu caso, percebi que teria de chamar a Lusitana para a mudança. Fora dinheiro, sou um acumulador.

Já com o telefone na mão para as providências, sinto minha garganta sendo estrangulada por uma jiboia. Penso, enlouqueci mesmo, mais um daqueles pesadelos de vírus e verme, ultimamente tão frequentes.

Imagem embaçada, lágrimas correndo bochechas abaixo, consigo enxergar os vultos de Nestor e Pestana à minha frente, mas quem por trás?

– Afrouxa, Everaldo!

É a voz de Pestana, enquanto balbucio, em inglês, para mostrar a gravidade: “I can’t breathe, I can’t breathe”.

– Calma, Evê!

–  Caralho, Everaldo. Quer me fazer um George Floyd, não viu a merda que deu nos Estados Unidos?

Ele aperta mais, o segurança do BRD. Aumenta do desespero da morte próxima. Os olhos lacrimejam. Nas últimas forças, olho de forma piegas e peço:

– Posso morrer de Covid-19, mas não de Evê-140. Os dois aí, ou tirem ele de cima de mim ou me arranjem um respirador.

Vejo as mãos dos dois jornalistas pedirem para que Everaldo alivie. Deitado no chão da Redação, arfo e respiro por alguns minutos. Aos poucos, retomo o fôlego e, pior, a indignação de alguém subjugado. Levanto-me. Sento na cadeira de editor-chefe.

– Que merda foi essa? Motim? Como posso aumentar seus salários, se nem mesmo o PSO e o PSTU aceitam anunciar em nosso blog? De onde vou tirar grana para nossa subsistência? Propor campanha de recuperação da popularidade do Moro?

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– Calma, Rui, você pediu.

– Consultaram o Conselho Consultivo do Dominó de Botequim, se eu merecia tal castigo? Chamem uma ambulância, o Uip, a indústria da cloroquina, da água tônica de quinino, o Teich.

– Ah aliviou? Esperto. Estava me matando, como se faz diariamente com a língua portuguesa, Everaldo, seu filho-da-puta. Sempre o defendi aqui, e às suas causas, e agora tenta me matar. De onde tanto ódio?

– Acabaram suas perorações, chefe?

– Nunca, Nestor! Quem inventou esta merda de blog fui eu. Faço o que quiser, sou o presidente eleito democraticamente, a Constituição, o capitão, a cultura, os três ou mais Poderes, podem não ter votado em mim, por mais avisados que tivessem sido. Mas eu mando!

– Entendo seu delírio, Rui, mas você tem exacerbado, meio alucinado, e olhe que bebo muito mais do que você.

– Pode ser, Nestor, mas não aguento mais. Talvez, seja o melhor para a “Pátria amada, Brasil!”.

Uma voz ao fundo, orwelliana, reverbera: “Todos já pro cercadinho e você, Nestor, procure emprego na Vai-Vai”.

– Certeza?

– Porra Pestana, mais do que eu lutei? E os bolsominions ficam falando em Lula e BNDES, os iletrados.

– Sim! Aí, de forma melindrosa, você decide desistir. Por que haveríamos de deixar, sabendo que no dia seguinte estaria arrependido?

– Sei não, tudo dói. Agora ainda mais, traidores. Duvido que nossa editora concorde com o ato totalitário e covarde de vocês.

– Só deixaremos você deixar o blog, mas aí sim em definitivo, depois de deixar clara a história do encontro de Lênin com seu avô Miguel.

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– Já o fiz nos capítulos anteriores.

– Não o suficiente. Tudo errado. Fomos pesquisar com os parentes de seus ancestrais, em São José do Rio Preto, tão solícitos quando você lançou seu livro na Saraiva da cidade.

– Talvez, possa ter-me enganado em alguma coisa, mas não por mal, sabem. Coisa de ficcionista.

– O momento de corrigir é agora. Comece.

 

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