quem tem o olavo pra se acompanhar termina sozinho, só pode penar, por Z Carota

Maurício Maestro guinou à direita tradicional a partir do golpe na Presidenta Dilma Rousseff, em 2016

quem tem o olavo pra se acompanhar termina sozinho, só pode penar

por Z Carota

tudo que o fascismo toca, quando não vira merda, fenece.

a prova mais recente desse fato entristeceu um bocado de gente, eu aí incluído: o esfacelamento de um dos melhores e mais longevos grupos vocais de toda a história da música popular deste país, o querido quarteto carioca Boca Livre, com o anúncio da saída, na segunda-feira (18), de Zé Renato e Lourenço Baeta, e ontem (20), de David Tygel, após uma tão breve quanto inútil tentativa de seguir com sua viola acompanhando Maurício Maestro, pivô da cisão.

Zé Renato e Lourenço não esconderam as divergências não apenas políticas com Maestro que tornaram insustentável o convívio com o colega, enquanto Tygel preferiu mencionar somente a impossibilidade de continuar, mas sem especificar o porquê – porém, basta uma rápida consulta a seus perfil no Facebook para constatar que comunga das opiniões e desconfortos que os primeiros alegaram para deixar o grupo do qual participaram durante 41 anos (exceto Baeta, que passou a integrar o quarteto em 1980, um ano depois de sua formação original).

Maurício Maestro guinou à direita tradicional a partir do golpe na Presidenta Dilma Rousseff, em 2016, mas conforme Zé Renato contou numa das entrevistas dadas à mídia após a sua saída do grupo, a partir de 2018, logo, na campanha do fascista bolsonaro à presidência, o endosso de Maestro às barbaridades ditas e cometidas por aquele contra minorias (raciais e de gênero) e adversários políticos tratados como inimigos a serem extintos tensionou os limites de tolerância dos colegas à divergência, que foram atravessados há duas semanas.

a razão: a insistência de Maestro para que o grupo entrasse em estúdio para gravar novo trabalho, proposta refutada pelos demais em virtude das normas de segurança sanitária contra a pandemia da Covid-19 – e aglomerar pessoas (além dos músicos, técnicos e demais profissionais de um estúdio) num espaço tão pequeno é uma das principais medidas para se evitar transmissão e contágio –, fato minimizado por Maestro, que ainda manifestou sua (im)postura antivacina.
a partir dessa radicalização, indiferente à tragédia ocorrida em Manaus que matou mais de 50 pessoas por asfixia, graças à cada vez mais evidente estratégia de bolsonaro de ter na pandemia uma aliada em seu projeto genocida de governo (sic), a divergência evoluiu de política para humanitária, e deu-se o rompimento.

no perfil de Maestro no Facebook, porém, vê-se que bolsonaro não é a causa de sua transmutação em mais um apóstolo do ódio e do negacionismo rosnados pelo fascista presidente, que não passa, feito Maestro, de mera consequência da verdadeira causa da estupidez (lato sensu) como virtude: olavo de carvalho, guru de ambos e de milhões de vocacionais hienas, que, como tal, comem merda e ainda riem.

Maestro destina ao rapineiro guru não uma simples admiração pelo seu pensamento (risos livres), mas fanática devoção, a ponto de dedicar-lhe quase o mesmo número de publicações que faz para divulgar sua carreira musical, e o faz com uma decrepitude que destoa de seus inegáveis talento e sensibilidade, repetindo clichês e comandos de adestramento ao ódio e à ignorância rosnados pelas claques acéfalas do fascista bolsonaro e propagados nos pântanos e esgotos das fake news alimentados pelo nefando gabinete do ódio, que incorre diuturnamente em práticas criminosas que contam com a omissão cúmplice das “instituições que estão funcionando”…

apesar – e especialmente por causa – disso, minhas palavras são estéreis a qualquer discurso reativo e raivoso, mas prenhes de um profundo lamento, afinal, como se contentar com a dissolução de um grupo cujo nome, inteligentemente, fez alusão crítica à repressão e à censura promovidas já no outono da torturadora e assassina ditadura militar tão cara ao fascista bolsonaro, e que mostrou-se capaz de, durante 4 décadas, promover tanta beleza e leveza, que também são armas, mas vitais, não letais, contra todo esse horror encarnado e praticado por um sociopata contra milhões de seres humanos, e com o endosso justamente de um dos integrantes desse grupo?

porém, sou fortemente contra essa “cultura do cancelamento” já tão tristemente naturalizada pela banalização e generalização.
não só continuarei ouvindo, sem qualquer culpa e com o encantamento de sempre, todas as canções dos 10 álbuns que o grupo lançou em toda a sua carreira, como manterei meu reconhecimento e admiração ao profissional, ao músico de gênio Maurício Maestro, responsável direto, com seus arranjos vocais e instrumentais, por significativa parte das citadas beleza e leveza promovidas pelo grupo para seu público.

a cultura, sua beleza, seu poder de transformação, seu valor imaterial e humano, não pode ser destruída por tiranos – que sempre odiaram e sempre odiarão o bonito, o conhecimento e a civilidade –, por seus artistas, tampouco pelo público que dela tanto depende, seja para evolução ou enlevação – e, mesmo, se a esquerda insistir nessa naturalização do cancelamento não só de artistas que a desapontaram ideologicamente, mas também de suas obras – talvez, só o que tiveram de melhor a oferecer –, irá, por um exemplo, ouvir quem, o quê?

com o tempo, só lhe restarão “Bella Ciao” e a “Internacional Socialista” – ou, quando enjoar do loop, clandestinamente, ouvirá sertanejo universitário, cuja consciência política e identitária predominante não merece nem sequer debate.

ps: a simpatia de Maestro ao fascismo de olavo não foi capaz de transformar em merda a produção do Boca, que não só manteve público, como o renovou, e ele é também responsável por essa manutenção da qualidade, mas levou o grupo ao fim, fato lamentável que só pode ser minimizado, ou mesmo desprezado, por seu guru.

Z Carota é jornalista e escritor, autor de “dropz” (Editora Penalux) e “a beleza que existe” (Páginas Editora)

Facebook: https://www.facebook.com/marcelo.carota.92/
Instagram: @zecarota
Twitter: @zcarota1

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3 comentários

  1. Rapaz! Ao olhar a vida diária e ideológica de qualquer artista, ao não se adotar um “distanciamento” do ser humano que esta por trás daquelas idéias, voce pira. Exemplo: Wagner o anti-semita. A atitude correta a ser adotada é essa mesma do artigo: “não só continuarei ouvindo, sem qualquer culpa e com o encantamento de sempre, todas as canções dos 10 álbuns que o grupo lançou em toda a sua carreira, como manterei meu reconhecimento e admiração ao profissional”. Corretissimo: profissional e não ao ser politico.

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