Raduan Nassar e a escrita da terra, por Gustavo Conde

O trigo colhido por Raduan não é alimento (apenas): é significado. Sua lavra é a palavra.

Raduan Nassar e a escrita da terra, por Gustavo Conde

O paralelo entre a semeadura e a palavra é obsceno de tão óbvio. Plantar é escrever na terra. As bifurcações semânticas são apenas o efeito colateral da atividade linguageira que, a rigor – como postula Novalis -, sempre quer voltar para a casa, a casa da literalidade perdida.

A língua e a terra são duas irmãs desgarradas no tempo, singradas pelo arado simplificado dos homens das letras. O homem do campo, este sim, contempla a linguagem em todas as suas pulsões telúricas, na simplicidade do sopro e na delicadeza do trato.

Raduan Nassar trafega neste território selvagem da escrita física no corpo do real.

Os homens, que não entendem suas origens e seus medos, dizem por aí que ele “parou de escrever”.

Não.

Raduan trocou a caneta pelo arado, mas seu arado jamais deixou de ser caneta. Sua “dicção agrícola” é composta por sobreposições monumentais como os fluxos líricos da lavoura metafórica. Sua colheita é narrativa. Sua semeadura, literal. Sua irrigação é a mão transpassada em página fendida – em pressões caligráficas.

O trigo colhido por Raduan não é alimento (apenas): é significado. Sua lavra é a palavra.

E vice-versa.

Raduan publicou essa obra monumental encravada na terra. Ela se chama “Fazenda Lagoa do Sino” – subtítulo “Câmpus da Universidade Federal de São Carlos”.

Quando o autor de Lavoura Arcaica doa sua maior obra ao país, quando ele controla e exige minuciosamente – em contrato – um tratamento solidário, democrático, acadêmico e inclusivo para seu “texto real” em novas mãos públicas, ele ‘autografa’ seu livro-legado, ressignificando a vida de milhares de jovens, protagonistas de sua mais generosa obra.

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Raduan não interrompeu sua escrita: ele escreveu o mundo e a vida.

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1 comentário

  1. Entre tantas Maravilhas, mais esta produzida pela Agricultura Brasileira, pela Pecuária Brasileira, pelo Campo, Área Rural, AgroNegócio, AgroIndústria Brasileira. A Poesia. Inigualável. Incomparável. Inalcançável. Pobre país rico. O Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista e suas Elites ainda lutam contra.”…é obsceno de tão óbvio…”Mas de muito fácil explicação.

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