réquiem para uma abelha, por Zê Carota

réquiem para uma abelha

por Zê Carota

hoje acordei com um casal discutindo na frente do prédio em que moro, na direção da janela do meu quarto.

 

levantei-me, escovei os dentes, passei um café, e a discussão seguia.

acendi um cigarro, fui pra varanda assistir à discussão, que seguia.

aquilo: “você isso”, “ah, mas você aquilo”, “claro, você tinha feito isso”, “só porque você tinha feito aquilo, esqueceu?”, enfim, aquele habitual festival de reminiscências sobre as faltas e falhas um do outro.

é babaca, isso.

 

na mágoa, prevalece a lembrança apenas do ruim, como se nada de bom, nunca, tivesse existido e criado, além dos afetos e tesões, a cumplicidade que gera o respeito – admiração, até –, tudo glacialmente desprezado no momento em que se faz mais necessário: no rompimento.

 

além de babaca, portanto, estúpido, isso.

a prova, a frase que, depois de proferida por uma das partes, encerrou a discussão:  

 

– eu menti cada sorriso!

 

confesso ver nessa frase aquela beleza triste, única e inerente às verdades – e, no caso, potencializada por confessar mentiras pretéritas.

mas, claro, o efeito para a parte que a ouviu é bem outro.

sabe-se lá até quando soará como o refrão de uma balada que se dançou juntinho, sorrindo, mas que agora revelou-se falaz.

 

e pra parte que a disparou, que, vestida em amarelos e pretos, parecia uma abelha, soará, hoje mesmo ou nalgum amanhã, como o último movimento de um réquiem – afinal, ao ferroar, a abelha morre.

 

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