Revolução dos Cravos – Parte 2, por Rui Daher

Crônica pela Revolução dos Cravos

Foto Rede Brasil Atual

Revolução dos Cravos – Parte 2, por Rui Daher

Apesar de descendente de árabes, nascido no Brasil, minha segunda pátria é Portugal. Lá não tivesse nascido Álvaro Barreirinhas Cunhal (1913-2005), tanto o admiraria e confortariam meus sonhos os sete desenhos seus, que me acolhem, enquadrados, na escadaria que me leva da sala ao quarto de dormir.

É a única oração a que me dedico antes de esperar o sonífero fazer efeito. Se soubesse postá-los, fotografaria os originais, presente me dado por fiel amigo, logo após a Revolução dos Cravos (1974).

Obras de arte que significam as lutas portuguesas contra a ditadura e Salazar.

Álvaro nasceu em Coimbra, opositor do Estado Novo (?) e filiado ao Partido Comunista Português.

Já em Lisboa, formou-se em direito e iniciou o ativismo político. A partir dos 17 anos, seguiu até chegar ao comitê central do PCP. Cumpriu seguidas prisões, mas teve sua tese de licenciatura aprovada em 1940, tempos ainda ditatoriais.

Entre 1937 e 1960, esteve preso por 15 anos, intermitentes. Foi torturado, mas em compensação, durante as prisões, permitiu-se escrever e pintar.

Solto, dedicou-se à devoção pelo comunismo soviético, só regressando a Portugal cinco dias após o 25 de abril de 1974.

Passeou de braços dados com Mário Soares, foi ministro em quatro governos provisórios, e deputado de 1975 a 1992.

Cego, em junho de 2005, mais de 250 mil pessoas participaram de sua cremação. Foram 85 anos defendendo o ideal comunista.

Os desenhos em minha escada até o quarto de dormir, fazem-me orar por ele.

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-)

Foi o comandante e estrategista da Revolução dos Cravos. Nascido em Maputo, África, na carreira militar ideologizou-se à esquerda.  Teve grande parte de seu tempo militar em missões no continente africano, e lá se conscientizou dos males do colonialismo de Portugal.

A partir de 1973, começou a reunir oficiais para a futura rebelião, o Movimento dos Capitães. Grândola, Vila Morena, vencedora em 1974, Otelo lá estava.

Daí em diante, por várias vezes, tentou se eleger presidente (1976 e 1980), sempre derrotado por forças civis e centristas que, por muitos anos, dominaram a política portuguesa, ainda temente do fantasma salazarista.

Queriam algo mais ameno. Perdeu para Ramalho Eanes, e teve votações inexpressivas.

Mário Soares (1924-2017)

Presidente da República Portuguesa e Primeiro-ministro de Portugal, em vários períodos (entre 1976 e 1996), e secretário-geral do Partido Socialista por 13 anos. Um intelectual de centro-esquerda, como aqui se pensou de Fernando Henrique Cardoso.

Para mim, aí está o tripé que recolocou Portugal nos trilhos da democracia e do desenvolvimento.

Uma de minhas filhas esteve lá este ano e voltou de lá encantada. Eu e Cléo, todas as vezes que fomos, tivemos a mesma sensação. Continuem assim e obrigado por serem vocês, os lusitanos, que nos descobriram.

Inté, poeta maior Fernando Pessoa.

 

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