Saga JGH, final. Por Rui Daher

Na troca de mensagens, resolveram se encontrar para discutir racha tão importante na frente da sede da Polícia Federal, em Curitiba, sábado passado.

René Magritte

Saga JGH, final. Por Rui Daher

No início do mês de abril, me referi a três novos personagens fictícios ‘ma non tropo’.

Assim comecei o primeiro texto da curta saga:

“Avisava que iria falar de Jesualdo (J), Geromel (G) e Heinrich (H), que não se conheciam pessoalmente, mas que o nível de identidade de ideias professavam logo os reuniria em algum culto da extinta ou fatiada (?) TFP, Tradição, Família e Propriedade, que amigo, galhofeiro como eu, trata de Traição, Feminicídio e Pedofilia, tais as orientações de sua matriz, a prelazia Opus Dei”.

Foi quando então entrementes, segui com as características de cada um. Deixaria pra último, Heinrich, o mais completo e erudito membro da tríade bolsonarista do meu barulho.

Jesualdo, regula a sua vida pelo o que e quanto irá comer e dormir. Detesta calor, praia, areia e de quem se beneficia de aparelhos sociais para vencer na vida. Segundo fanático, próximo a ele, mas venenoso, me confidenciou: “é uma ótima pessoa, mas pudesse colocaria ar condicionado em todos os locais dos variados cultos que lhe permitiram a meritocracia”.

Geromel, cosmopolita, bonitão, boa escrita, morou em vários lugares do Brasil, até se aportar em RG carioca. Adepto de praias, lagartear ao sol, pegar jacarés, que não os do caçador australiano de crocodilos, e pedalar nas orlas cariocas. Lá, politicamente, por más influências, ou por não ir com a cara de alguns desafetos de esquerda, tornou-se de direita e empedernido neoliberal.

Isso, para quem melhor o conhecia, pareceu normal, enfim, como dizia Millôr Fernandes, “pensar livre, é só pensar’.

Com o advento de Jair Bolsonaro, no entanto, mesmo os mais próximos não entendem e dizem que ficou abilolado. Coonesta, apoia e aplaude toda e quaisquer ações, palavras, gestos, mesmo os sorrisos asnáticos do Regente Insano Primeiro. Alguns justificam ter-se tornado evangélico, outros negam. Sei lá.

E Heinrich? Descendente de europeus, considera o Brasil uma zona, não defende, explicitamente, o Capitão, mas ameniza com o samba de uma nota só de arraigado antipetismo. Suas preferências artísticas são sempre clássicas, mais lindas as provenientes de lagos e alpes suíços ou da Baviera.

Não se conhecendo pessoalmente e, agora, mais ainda com o isolamento, se indignaram com as atitudes de Sérgio Moro e vice-versa, Jair Messias.

Na troca de mensagens, resolveram se encontrar para discutir racha tão importante na frente da sede da Polícia Federal, em Curitiba, sábado passado.

Jesualdo, adorou. Não havia perigo de praias ou calor. Esqueceu-se de que os restaurantes em Santa Feliciana, estariam fechados. Geromel topou, pedalaria em homenagem a Dilma Rousseff, esquecendo-se Joaquim Levy, o neoliberal que a tirou do caminho certo. E Heinrich, aproveitaria, quem sabe um concerto ou balé ao ar livre, respeitando a distância de 2 metros.

Foi quando, então, entrementes, deu-se o quiproquó. Prá que lado ir? Jesualdo e Geromel decidiram logo, o primeiro motorista, o segundo bolsonarista. Apavorado, Heinrich, para espanto de todos, passou a gritar o nome Wolfgang Amadeus Mozart.

Creio que nunca mais se falarão.

Nota: este texto é dedicado a Aldir Blanc, poeta e galhofeiro maior. Não poderia dedicar-te séria lamúria. Tanto que ao introduzir a palavra geriátrica entrementes, se lesses, dirias: “Rui, como usar essa palavra descrevendo uma reunião entre a clã Bolsonaro”?

O Botequim Celestial tá aberto pra ti.

 

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