Salão de Baile II, por Izaías Almada

“Tô só de passage. Manhã cedo eu vô pra Curvelo. Tô ino visitá minha mãe.”

Salão de Baile II (*)

por Izaías Almada

         “Cê acha que ela topa? Peraí: aposto que ocê já fez isso cum otros… Quando eu entrei no salão eu vi qui cê ‘tava do lado dela… Cês tão combinado”.

         “Vai cagá, sô. ‘Tô combinado cum ninguém não”…

         “Se eu discubro qui cês tão de safadeza, qui tão aqui me embruiando, eu arrumo a vida d´ocês. Óia aqui”…

         “Guarda isso, sô… Óia lá, o marido dela tá chegano”…

         “Aquele gordim?”

         “Ele mesmo… Num tem cara de corno?”

         “Corno ou não corno, eu agora num vô consigui nada. Merda! A mulhé bem qui merece um sacrifico”…

         “Se cê me dé os cem real, eu levo ele lá pra fora.”

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         “Num arredo o pé daqui si cê num mim dé um bejo”…

         “Já disse qui aqui num dá. Num sô muié de dá vexame na frente dos outro… E depois meu marido ‘tá aí fora com seu amigo”.

         “Ele num é meu amigo. Pensei qui fosse seu”…

         “Que qui cê tá fazeno aqui na cidade?”

         “Tô só de passage. Manhã cedo eu vô pra Curvelo. Tô ino visitá minha mãe.”

         “Sua famia é dessas banda?”

         “Só minha mãe e um irmão mais novo qui ficaro lá.”

         “Me leva concê?”

         “Tá brincando mulhé?”

“Tô não. Tô falano sério.”

“E seu marido?”

“Aquilo num presta pra nada. Só sabe bebê e vivê do dinhero qui eu ganho por aí”…

“Ocê é mulhé da vida?”

“Sô não… Num é o qui cê tá pensano”…

“E onde qui cê ganha dinhero?”

“Trabaio aqui di noite furano cartão. E di dia dô aula de dança de salão”…

“Isso dá dinhero?”

“É melhó qui trabaiá na casa dos otro, d”impregada…”

“E cê qué imbora mesmo daqui?”

“Num vejo a hora”

“Intão me onde cê mora, qui antes do dia clariá eu passo pra ti pegá. Vamo pra Curvelo e dipois caimo nesse mundão de Deus…”

“Cê tem dinheiro?”

“Prá vivê uns treis anos sem preocupação.”

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“Bem qui eu tomava um cafezim agora.”

“Fala baxo, qui o vento espaia as voz por aí tudo.”

“O que qui a gente faz?”

“Divide tudo por treis.”

“Esse foi fácil dimais…”

“Dá até pra discunfiá.”

“Coitada da mãe dele… Vai ficá sem o dinhero”.

“E o corpo?”

“Nóis interra”.

“E dipois?”

“Vamo pro Mato Grosso do Sul. Diz qui lá tem muito pião chei da grana”…

“Vamo lá, corno manso”.  (Riso)

“Treis ano eu num digo, mas podemo vivê um ano numa boa cum esse dinhero”…

“Me dá um bejo”.

“Só si fô di língua”.  (Riso)

“Si ocê num fosse minha irmã, eu também quiria um”.

“Óia, brinca não, sô. Deus castiga…”

E foram s’imbora

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(*) – Conto do meu livro “Memórias Emotivas”/ Ed; Mania de Livro.

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