Salviano e Figueiredo, por Rui “Harmônica” Daher

Salviano e Figueiredo, por Rui “Harmônica” Daher

Na veia. Sem Word para intermediar. O primeiro assasinato de Harmônica.

– Doutor, como foram os resultados das dezenas de exames que fiz?

– Pois é, Salviano, as notícias não são as melhores.

– E como poderiam ser com o que e quem vocês trouxeram ao Brasil?

– É mais sério do que política, economia e seus ideais de direitos sociais.

– Ah, meus? Estou aqui no seu consultório no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. E os do SUS que, para vocês,nem isso acham que os pobres deveriam ter direito?

– Salviano, não vem ao caso. É grave.Terei que interná-lo. 

– Pullman ou Figueiredo?

– O segundo. 

– Então posso chegar aqui à cavalo e de sunga preta?

– Não, Salviano. Sei que eles estão na moda, mas não. Seu seguro-saúde permite apartamento no 11º andar.

– E se eu não quiser?

– Foda-se. O assunto não é para suas galhofas. É sério. Nossa equipe trata de você há mais de 30 anos. Gostamos de você e de suas tiradas literárias. Sabe disso. Mas percebemos metástases evoluindo. 

– Bem, no Brasil, alguém precisa evoluir. Voltamos ao século19.

– O diagnóstico precoce ainda permite 50% de mantê-lo vivo por mais alguns anos.

– Chego à Copa do Mundo de Futebol, no Qatar?

– Talvez.

– Com que idade estará lá a Fátima Bernardes?

– Sei lá, porra! Autorizo a internação ou não?

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– Antes da minha resposta, aguenta umas ponderações?

– Saco. Manda!

– Doutor, sou meio samba-canção, meio bolero. Desde a adolescência venho de ‘fracasso em fracasso’. Nunca me abati. Salvou-me ir ser gauche na vida. Sonhei, “utopiei” (existe?) – se Rosa inovou, por que não eu? -. Atravessei férias no interior, paixões incofessadas por primas e meninas inacessíveis. Errei na profissão, e por ela não tenho nenhum apreço. Ajustei-me e fui feliz na literatura marxista, originária dos evangelhos de Cristo, lidos e entendidos junto ao colégio dos padres beneditinos. Ganhei dinheiro e o perdi por truques do capitalismo sem caráter e compaixão. Não fumei. Hoje em dia, alguns charutos semanais me acompanham. Bebo? Bebo sim. Na medida que acho aceitável e os demais deplorável. Se o nome Salviano me recomenda salvação, sigo suas orientações e subo ao apartamento.

– Ótimo! Faremos de tudo para curá-lo.

– Grato. Uma última pergunta. Está internado para tratamento ou exames algum político que tenha apoiado o presidente do retrocesso?

– Fora muitos médicos, uns cinco ou seis.

– Ótimo. Pode me internar, mas saiba, nesta noite Harmônica agirá e o hospital terá um assassinato para resolver amanhã.   

 

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