Será o teatro uma arte política? (II), por Izaías Almada

Irá o Brasil com o seu novo e irresponsável governo caminhar na contramão dessa utopia? A inveja, o recalque e a incompetência irão imolar mais de duzentos milhões de brasileiros?

Será o teatro uma arte política? (II)

por Izaías Almada

Com certeza, pois é escrito por mulheres e homens, representado por mulheres e homens, assistido por mulheres e homens. Por qualquer ângulo que se observe, esses homens e essas mulheres são antes de tudo cidadãos, integrantes de uma comunidade, da polis, com direitos e deveres perante a sociedade em que vivem. Dos índios ianomâmis aos monges do Tibete; dos esquimós aos pigmeus africanos; das calçadas de Nova York às areias do Saara.

Qualquer dos seres humanos em sua totalidade, ou seja, toda a humanidade, com harmonia ou conflitos, tem a sua vida ligada direta ou indiretamente aos interesses de um Estado, de direito e de fato. Quando faz amor, pratica um assalto a mão armada, descobre uma nova vacina ou constrói o maior arranha céu do mundo, o homem pensa e age sob determinados impulsos, todos eles impregnados por um respeito para consigo, com o outro e com a comunidade em que vive. Mesmo que assim não considere ou que aja em desconformidade com esses preceitos.

As artes mergulham nesse mundo de subjetividades e de ações concretas à procura de explicações para o que de melhor e de pior existe dentro de cada cidadão, de cada um de nós. O teatro, arte do diálogo, adverte-nos para ações exemplares, nos contamina com afetos e admirações por heróis, personagens emblemáticos, excita-nos a imaginação e o conhecimento para a crítica, coloca à nossa disposição ferramentas para avaliarmos a nós próprios e ao mundo à nossa volta, exalta a diversidade e, sobretudo, conclama-nos à defesa dos direitos fundamentais do ser humano. Projeta-nos como cidadãos.

Ao escrever o prefácio para a edição de O INSPETOR GERAL da Coleção Brasiliense de Bolso, o mesmo Augusto Boal citado no início desse artigo diz: “Cada peça adquire, em cada momento histórico e em cada encenação, uma de suas múltiplas valências”. Em seguida pergunta: “Quem é Godot? Deus ou a Revolução Socialista? Quem é a Velha Senhora? O pecado original punido ou o Plano Marshall? Quem são os rinocerontes: os alemães nazistas ou a “rebelião das massas”? Qual a culpa de Joseph K: ser judeu ou viver numa sociedade capitalista? Quem é o verdadeiro Inspetor Geral?”

Vejam que ao citar Beckett, Dürrenmat, Ionesco, Kafka e Gogol, cinco dos mais ilustres representantes do teatro contemporâneo, Boal deixa implícita a natureza política desses autores, a preocupação de cada um com a inserção do homem na sociedade, no mais das vezes à procura de entender e defender os seus direitos fundamentais como ser humano.

Mas o que significam de fato esses direitos fundamentais do ser humano? Os direitos fundamentais do homem pressupõem, entre outros atributos que lhe são próprios, o exercício pleno da cidadania, a aplicação imparcial da justiça para todos e a distribuição mais equânime da riqueza, o funcionamento independente dos poderes constituídos; o direito à educação e à saúde; o direito à moradia e à felicidade. Utopia? Sempre… Como um Sísifo moderno, o teatro cumpre essa sua caminhada por absurdos infernos à procura de seu regresso ao convívio humano e, a cada retorno dos infortúnios e dos acontecimentos funestos, busca voltar ao ápice de seu suplício com renovada carga de esperança.

Irá o Brasil com o seu novo e irresponsável governo caminhar na contramão dessa utopia? A inveja, o recalque e a incompetência irão imolar mais de duzentos milhões de brasileiros?

Ao findar a primeira metade do século XX, o teatro brasileiro – até então bastante influenciado por suas raízes portuguesas e pela produção edulcorada, competente e extremamente profissional dos clássicos europeus e norte americanos – ainda não havia se dedicado a perscrutar a alma de seu próprio povo. Afirmação que faço sem nenhum demérito para autores como Martins Pena ou Aluísio de Azevedo, por exemplo.

Há, contudo, um fato histórico que marca a viragem dessa tendência: o Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena no ano de 1958. Ali surgiram nomes como Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Roberto Freire, Manoel Carlos, Nelson Xavier, Augusto Boal. Mais do que nomes, entretanto, surgiu ali a preocupação de se colocar em cena o homem brasileiro e seus conflitos. 

Caminho natural para um país que começava a buscar a sua razão de ser como nação de inegáveis recursos naturais e humanos. E que descobria no teatro uma atividade que ultrapassava a simples fruição de um prazer estético. Era previsível que, em algum momento da nossa história teatral, além de nos interessarmos pelo destino trágico de Édipo, pelo sofrimento amoroso de Romeu e Julieta ou pelo drama de Amanda Wingfield, passássemos a nos interessar também pelo destino trágico de Severinos e daqueles que não usam Black-ties.

 Com o passar dos anos, esse desbravamento de saudável nacionalismo irá influenciar e configurar a ação de dezenas de grupos pelo Brasil afora, sobretudo a partir do final dos anos 80 e início dos 90. Em São Paulo, muitos desses grupos, ou mesmo profissionais isoladamente, criaram o Movimento Arte Contra a Barbárie, já citado, numa demonstração de que a produção coletiva do fazer teatral passava pela intervenção social e pelo despertar da cidadania.

É curioso notar aqui que o avanço da ciência e o progresso tecnológico têm confrontado o homem contemporâneo com um instigante paradoxo de natureza filosófica: quanto mais adquirimos o saber, por vezes, mais nos distanciamos da sabedoria, entendida aqui como o conjunto de conhecimentos que nos distinguem dos irracionais.  Em todas as áreas do saber, caminha-se com grande rapidez. É como se disputássemos uma olimpíada por mês, sempre à procura de um novo recorde no conhecimento. Estão aí os celulares, os computadores e i-pads e toda a comunicação digital que não nos deixam mentir… Num piscar de olhos o homem entrou em nova era: a era da cibernética.

Ao mesmo tempo o dia continua com vinte quatro horas e as quatro estações do ano se mantêm, apesar do El Niño e do buraco na camada de ozônio. Nosso ritmo biológico continua inalterado e para a reprodução da espécie ainda são necessários o esperma e o óvulo, mesmo com os métodos de inseminação in vitro; os pontos cardeais não sofreram alterações e sem oxigênio não há vida possível sobre a terra, que continua redonda, embora existam algumas controvérsias de pessoas, alias, muito cultas e conhecedoras do assunto.

A lista das leis naturais e da física, bem como de fatos simples ou complexos vai por aí afora. São elas que mantêm o equilíbrio da vida e da natureza e, ao que tudo indica muitas delas são imutáveis, duradouras. Ou, pelo menos a ciência, com todo seu avanço, ainda não as desmentiram. 

Como simples e duradouro é o sorriso do homem, por exemplo. Ou as suas lágrimas. E aqui é possível sentir como a importância do teatro, esse privilegiado elemento catalisador de todos os nossos sentimentos, tem sido inestimável. O símbolo das duas máscaras que o caracteriza é imortal e emblemático.

Creio que é na perenidade das coisas simples que iremos encontrar parte da essência do ser humano. Penso que é também por aí que passam os seus direitos e que, como no dizer do poeta sobre o amor, serão eternos enquanto durarem. 

Numa releitura, qualquer seja ela, das obras de Shakespeare, Tchecov, Ibsen, Miller, Brecht, Arrabal, Vianinha, Suassuna, Guarnieri sobressaem não só a argúcia penetrante e sofrida em busca do humano, mas também o bálsamo para os sofrimentos do homem. Esse homem que em busca da felicidade, paradoxalmente, é capaz de grandes desatinos.

Nunca é demais repetir o óbvio e continuar a ser utópico. Nesses tempos do salve-se quem puder, não há mal nenhum em se criar ou recuperar utopias. Porque elas falam das coisas comezinhas que continuam a ser sonhadas pela maioria dos homens. As utopias, embora muitas vezes embaladas em discursos políticos ardilosos ou textos filosóficos intrincados, rebuscados ou não em sua linguagem, falam do nosso lado mais simples e imutável: elas falam de solidariedade, justiça social, liberdade de ideias, respeito ao pensamento, ética no comportamento e nas atitudes. 

A utopia, sem anular a nossa individualidade, sem arrogância ou violência, deve buscar satisfazer os nossos direitos fundamentais de sobrevivência e de vida coletiva: a saúde e o envelhecimento com dignidade, a educação e o saber democratizado, sem privilégios, o direito à moradia e a segurança para a família, a liberdade de expressão, de religião e a liberdade de ir e vir. 

Admitir pura e simplesmente que o mundo já não dá para todos, afirmar o fim da história e das ideologias e negar a possibilidade de sonharmos com uma vida melhor será – com certeza – o caminho mais curto para o retrocesso, para a barbárie, para novas guerras. Além de perverso egoísmo e oportunismo político.

O teatro, arte de milênios, ainda tem muito a contribuir para evitar a barbárie.

Leia a parte I aqui.24

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