Sutil apropriação do Mercado de San Telmo

Admirada, entro e saio infinitas vezes do Mercado. Milhares! Canto e escuto tango, tomo mate, café, participo de reuniões, conversas e histórias que estão ainda a esperar-me por lá. Agora que o Mercado já é meu: tenho encontros marcados.

Mas antes do mercado ser todinho meu, aviso: está em funcionamento desde 1897. E o Mercado de San Telmo é curiosíssimo. Não vende seus ofertados objetos antigos. Por que? Porque ele é feito por esse passado, e se vendesse deixaria de existir. Então, ele exibe ao público a valiosa impressão de que nada nunca sai do lugar. Seus objetos estão pregados! 

É preciso sabe olhar para comprar o que o mercado quer vender. Pois, pode ser mesmo só coisa de mirar. O que o torna um verdadeiro mercado: seu modo de ser passado e que no passado está e continuará. E assim ele é tão mercado! Intacto no ontem, com a elegância de quem vale muito e não se deixa fácil tocar!

Em cada loja, tudo estancado, preciso, e geometricamente calculado num antes do tempo. Os comerciantes têm caras mais esquecidas do mundo dos negócios que os próprios objetos valorizados por quão abandonados são. Pode ser necessário repetir até três vezes a pergunta ao vendedor: quanto custa…? Eles falam com tanto gosto dos objetos, ou de si mesmos, ou de histórias do mercado, que se esquecem de vender.

E os cabides com roupas estranhas: são falsos. Porque são desnecessários. Tantos e quais foram os corpos que passaram por aquelas roupas que estão fin-gi-da-men-te expostas sem ninguém. Vejo, cada costura está tão frouxa. Essa é a certeza de que alguém ainda não saiu de dentro daquele velho blazer rosa claro. As pessoas que o vestiram estão ali, quem não está presente é o inútil cabide. Os sapatos têm a dobra feita de calcanhares. O chapéu de palha fina não pertence àquela descabeçada boneca. Tem uma cabeça de gente ali ainda. Seu formato é redondo, certo, e real demais com aquele jeitinho de cair no cabelo tão perto da orelha.

Ah! O Mercado de San Telmo: um lugar espirituoso. Há coisas que não se vê, mas que não deixam de estar por lá. Estão! Sentimento passageiro não é uma verdade para o mercado. Porque a nostalgia é sempre tão apressada, quando tentam agarrá-la, vem um suspiro, e ela já passou. Mas, retorna. É a ida e a volta que não termina nunca de ser um eterno falso abandono. Tango! Porque nostalgia é coisa que mora acordada no vento, num sopro que dá voltas no mercado. E isso faz barulho. Eu escuto! São as nostalgias dos assobios constantes movidos pelos receios dos seus vendedores. Porque eles cantam tango sem precisar ler a partitura, porque eles tocam violão ajustado das mãos do carpinteiro… Porque eles são gente de mercado, porque investigam, são obsessivos, querem objetos mais velhos entre os mais velhos das vidreiras, porque eles retocam o imexível quadro da foto amarela, porque penduram para ver a transparência dos panos gastados, porque não quebram a xícara já rachada, porque limpam roupas manchadas, porque riem do que já não está mais.

Olhar o Mercado de San Telmo é ver a raridade de uma joia falsa da bisavó encontrada pela neta ao abrir a gaveta da penteadeira. Assim é o entrar no mercado. Seja pela rua Defensa, seja pela rua Bolívar, seja pela rua Estados Unidos, seja pela rua Carlos Calvo. É dar de cara com a branquidão que um velho pode luzir de nostalgia. É ver um homem da faixa dos 55 anos comprar uma nave voadora de dar corda, não perguntar o preço, e tocá-la com o cuidado correspondente à sua idade, porém, com a saudade do que nele já passou.

Padarias e cafeterias são tudo o que há de mais vivo no Mercado. Reclamam instante, exatidão! Se deixarem passar a hora certa, não terão os produtos para vender. Café com pão: o sobressalto da vivacidade contrastada com o esquecimento próprio do que é a vida das antiguidades. Assim, numa balança, o mercado tem lá seu equilíbrio entre passados mortos e vivos. 

E tem os distraídos. Enquanto o senhor da loja “Rincón de La Nostalgia”, dorme e ronca, o rádio soa a transmissão do futebol, e secundário passam por ali alguns interessados compradores, que logo viram um fato passado do mercado. Queriam comprar (?), o senhor vendedor não registrou. Vê-se, ele entende é de passado. Esse é o verdadeiro comerciante de um mercado! E o Mercado de San Telmo é um porta-retratos antigo, com a imagem da profunda compreensão do que é o passado das coisas, passado que sempre está entre o exato instante presente de tudo.

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4 comentários

  1. conta pra nós..

    Mayra conta aí pra nós pobres mortais apedeutas nefelibatas onde fica esse tal Mercado? Espanha, Argentina, Chile ou qualquer outro País de língua espanhola..grato

  2. Buenos Aires é linda. San

    Buenos Aires é linda. San Telmo é exatamente isto, o passado que não se envergonha, pelo contrário, é vivo, lindo, vibrante. E o Mercado de San Telmo é um porta-retratos antigo, com a imagem da profunda compreensão do que é o passado das coisas, passado que sempre está entre o exato instante presente de tudo. 

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