Tato de ninguém, por Eliseu Raphael Venturi 

Riu, chorou, em uma sequência insana de dias sem qualquer rotulamento bipolar; sentou-se diante da paisagem e compreendeu que dali não haveria maior fuga.

Rubens. Wolf and fox hunt (detalhe). 1616. (1)

Tato de ninguém

 por Eliseu Raphael Venturi 

Ao final do dia, todo ponto era um referencial do começo, como que em qualquer esfera se pode ser o centro infinito de superfície aberta sobre si mesmo, cuja extensão própria é o seu fechamento em novelos de abstrações lineares.

Crônicas zoopolíticas tinham bem assim seus pontos rizomáticos dispersos em qualquer lugar.

Por conveniência do relevo os homens davam a se distinguir entre si de um modo insistente durante séculos, produzindo reedições de histórias em um nível frenético cuja diferenciação nos padrões entediantes e repetitivos se dava por arrancamentos, por golpes violentos e por extrusões repentinas, o que passava por linhas de alfaiataria  e pinceis de orelhas de mamíferos.

Esses movimentos eram cuidadosamente colecionados em planos pictóricos deslumbrantes e em livros muito bem editados, até mesmo ilustrados, e que ao longo de décadas se apagavam por força da ação de formas de vida menores, frágeis e insidiosas que se instalavam nas porosidades silenciosamente e, em meio aos novos estilos musicais, relutavam sua função decompositiva, decomponente, decompositora. Calor e umidade.

Fitamo-nos sob suspeita, todos nus uns diante dos outros, libertos de tudo aquilo de que nos cercamos para bem nos camuflarmos, nos significarmos de sentidos alheios: estampas em losangos e em flores, tons sóbrios do fundo do oceano e do anoitecer, paletas marrons, peles animais sintéticas, couro animal legítimo, perfumes de lavanda, café, toda sorte de cultivos que costuramos em nossa pele, cravamos em nosso corpo, cortamos em nossa carne.

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Era uma reunião da convivência em meio às conveniências, do culto em meio aos incautos e aos broncos, da criação e do cuidado em meio à aniquilação. Colisão, radiação, desmaterialização eram as cartas que saiam na leitura daquele consulente.

Demo-nos por satisfeitos sobre essa disposição inicial como um jogo de tabuleiro sem grade, sem regras dadas contrariando a noção de jogo rudimentar, em um mundo aberto cuja única condenação seria o livre arbítrio; a liberdade, discordaríamos.

Não se pretendiam mais ficções escatológicas, bradou-se em manifestos, apenas se queria viver, era tão óbvio, a despeito de tudo aquilo que era ameaça sobre ameaça, tolice sobre tolice, horror sobre horror.

Era preciso ir com calma, disseram justamente logo em meio à emergência. Educação era substrato para se localizar em tantas ruas prontas, prédios prontos, discursos prontos, comidas prontas, mundos postos e opostos, enquanto trabalho, este era impulso de deslocamento, qualquer trabalho, quando não sequestro, era castigo e projeção, um estranho amor a que fomos educados.

Na sala gelada do ar azul, a que fomos guiados, fria de um aroma insuportável que não conseguíamos precisar a composição exata, recrutaram-no à retirada dos crachás das mesas, e foi assim o nascimento do narrador, o som da voz veio daquela posição desconfortavelmente atribuída, o lampejo da mudança. Em cada um nasceu um.

De cada corpo seco retiraria o “nome” – ordenaram-lhe as forças da circunstância. Incrédulo, retire a palavra, a identidade, faça o corte, elabore a fatia, faça a incisão como se nunca temesse sangues e tecidos vivos, transições de fezes e de entranhas. Esta seria a primeira medida – ironicamente, daquelas mais clássicas da despersonalização odiosa que se praticava, assim, a todo tempo e em todo o lugar na mais límpida etiqueta. Veneno ao assassino, pensaram alguns.

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Esta seria a primeira medida que cada homem realizaria em seu coração selvagem, disseram, normatizaram, ninguém se opôs, ninguém sabia executar aquela técnica, o narrador se viu em momento estratégico e tático, sentiu-se capacitado à execução pública diante de todos e dos olhos, do olfato, do tato de ninguém.

Riu, chorou, em uma sequência insana de dias sem qualquer rotulamento bipolar; sentou-se diante da paisagem e compreendeu que dali não haveria maior fuga. E assim se procedeu, naquele ato inaugural desesperadamente ensaiado durante anos: “retirem-nos o que for, retiraremo-lhes a significação”, gritou aquele líder de um novo povo, povo sem líder posto que em cada um nasceu um, e que virou as costas e seguiu ao oposto e ao contrário, ao avesso de tudo aquilo a que foi condenado por ninguém. Era cruel, era injusto, era grave, mas, sobretudo: era necessário. E não havíamos criado aquela necessidade.

Caçamos todos os nomes naquela noite inicial.

 

Eliseu Raphael Venturi é radicado em Curitiba/PR.

(1) Detalhe de imagem disponível em: <https://www.metmuseum.org/art/collection/search/437536>. Acesso em: 15 jul. 2019.

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