Terror e antropofagia na Inglaterra, por Fábio de Oliveira Ribeiro

FOTO: JACK TAYLOR/GETTY IMAGES

 

– Ei, Jeremy, você vai gostar deste caso. Venha assistir o interrogatório deste suspeito irlandês.

 

Jeremy era policial há 15 anos. Havia ganhado notoriedade nos jornais e respeito entre os colegas por ter ajudado a resolver os maiores roubos a bancos da Inglaterra. Se não fosse careca, apaixonado por roupas punks e beberrão nas horas vagas, ele seria um verdadeiro Hercule Poirot moderno.

Policial meticuloso, inteligente e dotado de uma imaginação científica invejável, Jeremy não foi capaz de antecipar o que iria ocorrer diante de seus olhos. Eles haviam sido treinados para ver os detalhes além das aparências e não para testemunhar a realidade do terror neoliberal.

Um vidro espelhado separava Jeremy e seu colega do interrogatório. Na outra sala, ainda coberto de terra, o suspeito era questionado por Bill.

Policial “old school”, Bill tinha um apelido que detestava: Jihadi Perestroika. Ele era bisneto de uma russa que havia emigrado para a Inglaterra em 1917. O pai dele era descendente do filho de um indiano admirado pela Rainha Vitória. Bill era violento. Portanto, ninguém ousava empregar o apelido quando ele estava presente.

– O senhor foi acusado de violar a sepultura de Friedrich Engels. Um crime grave, especialmente para alguém que já foi preso por ser membro de uma violenta gangue de torcedores do Aston Villa. O que tem a dizer em sua defesa?

Silêncio. O suspeito ficou em silêncio. Bill agarrou o suspeito pelos colarinhos como se fosse agredi-lo.

– O que você pretendia fazer com os restos mortais Engels? Vender no mercado negro para um colecionador de relíquias comunistas?

Incógnito na sala ao lado, Jeremy começou a rir. O caso era ridículo e a técnica policial de Jihadi Perestroika lhe parecia muito adequada. Do ponto de vista forense era irrelevante saber o que o suspeito pretendia fazer com os restos mortais de Engels. O crime havia sido consumado e o réu estava coberto de evidências. Bastava recolher amostras de terra das roupas dele e do local onde ele havia sido visto cavando muito embora não fosse o coveiro.

Subitamente a cena ridícula se tornou bizarra. Isto ocorreu quando o suspeito começou a falar.

– O senhor não entende. Ela vai me pegar e eu não estou protegido. Ninguém aqui está…

– Você já foi pego, meu caro. Goste ou não  você terá que responder por seu crime. E nós estamos aqui para protege-lo enquanto você estiver sob a custódia do Estado.

Jeremy parou de rir do colega. A resposta que Bill deu ao suspeito lhe pareceu muito adequada.

– Ninguém irá proteger quem quer que seja quando ela entrar aqui. Ela vai pegar até aqueles caras que estão atrás do vidro espelhado.

Bill olhou para o espelho, fez uma careta e riu. Mas na sala ao lado Jeremy lutava para sobreviver e seu parceiro já estava morto. Os tiros disparados pelo policial punk estraçalharam o vidro e Jihadi Perestroika finalmente entendeu as palavras do suspeito.

Jeremy estava sendo devorado vivo por uma criatura fantasmagórica. Quando o vidro quebrou ela o deixou em paz e penetrou na sala onde Bill estava. A criatura tentou atacar o suspeito, mas a terra da sepultura de Friedrich Engels o tornara indigesto.

A intrusa já degustava uma perna de Jihadi Perestroika quando Bill retornou da sala de evidências. Como se fosse o Dr. Van Helsing num antigo filme de Drácula estrelado Christopher Lee, Jeremy fez uma cruz com as falanges de Engels. Mas a criatura não foi embora.

 

Bill gritava de dor e de horror.

– Você tem que enfiar o dedo de Engels nela. Também tem que dizer as palavras mágicas.

– Quais são as palavras mágicas?

– Eu não sei. Não tive tempo de aprender. Vocês me pegaram antes de eu consultar o feiticeiro que recita passagens de Engels para conjurar demonios comunistas contra esta maldição neoliberal que está devorando as pessoas endividadas na Irlanda.

Ferido e apavorado Jeremy fez as únicas coisas que podia fazer. Ele viu Bill ser devorado vivo enquanto se esfregava no suspeito para compartilhar as evidências do crime que o haviam salvo. Era preciso sobreviver para aprender como destruir aquela fera maldita que invadiu a Inglaterra.

 

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1 comentário

  1. Enquanto…

    … Jeremy via a fera devorar Bill algo chamou sua atenção: os dentes! Pareciam humanos e evocavam imagens do passado. Esta imagem pavorosa já estava gravada nas mais profundas das suas memórias.

    De repente viu-se novamente criança em Derbyshire. A porta da sala abriu e viu o seu pai com a roupa ensanguentada. O sangue escorria de um profundo corte na sua cabeça. Pensou que ele tinha sofrido um acidente na mina, mas não era possível. Estavam em greve e protestando contra o seu fechamento.

    – Mike! Que foi isto? Ouviu sua mãe gritando.

    – A polícia da bruxa. Usaram contra nós toda a violência.

    Maggie, the witch. Ela está morta! Falou Jeremy em voz alta. Com todas as lembranças daquele período desaparecendo como vieram. Restando apenas o vermelho do sangue que espirrava em todas as direções enquanto a besta rompia a pele, rasgava músculos, destroçava ossos e engolia as vísceras.

    Jeremy e Nigel, o preso, aproveitaram-se de um momento de deleite do monstro ao saborear o fígado de Bill. Sairam da sala com o máximo de cuidado e trancaram a porta. Sabiam que ela não seria capaz de deter a criatura. Com esta pequena distância que tomaram começaram a correr.

    O pânico e o caos espalhavam-se por todo o departamento. Viram pelo menos mais dois seres infernais satisfazendo-se dos corpos inertes. Como o primeiro, enquanto dilaceravam as vítimas emitiam ruidos terríveis.

    – Policial, onde ficam as armas?

    – Esqueça. Não conseguiremos abrir a sala. Não sou policial armado, não tenho as chaves. Vamos sair daqui.

    Na rua as pessoas não sabiam o que estava acontecendo dentro daquele prédio. Caminhavam com a pressa cotidiana, mas não deixavam de olhar as vitrines. Liam ou digitavam nos seus smartphones desviando dos postes nos últimos segundos. Isoladas, como sempre, nos seus mundinhos virtuais. Atraidas apenas pelos objetos de desejo expostos atrás dos vidros.

    – Não entendo. Disse Jeremy e continuou. As forças de segurança sempre a apoiaram. Por que este ataque contra a gente?

    – Deve ter pensando que vocês estavam me protegendo. Como se eu fosse uma obra subversiva e perniciosa em construção. E complementou: precisamos ir para Highgate agora.

    – Highgate? Por quê?

    – O cemitério, o túmulo de Marx.

    – Os ossos de Engels não fizeram nenhum efeito. Por que os de Marx farão? São monstros e todas as lendas dizem que precisamos de crucifixos, água benta e muita prata. Vamos procurar um antiquário que venda estas coisas.

    – Não irá resolver. Depois que você disse Maggie, the witch, tudo fez sentido para mim. Quando saimos da sala vimos outros dois também atacando. Reparou neles?

    – Olhei, mas… espera, um deles usava um tipo de chapéu alto e pontudo. E o outro algo parecido com um chapéu de cowboy. 

    – Exatamente. Maggie, Ron e Karol.

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