Toda cor livre e diversa, por Maíra Vasconcelos

Por Maíra Vasconcelos

Os meus outros são de um assombro borbulhante. Quando acho que tudo esfriou e posso contemplar, queimo em nova bolha. Eu e eles, fechados vemos mundos despregarem-se de nossas peles. Trocando como animais em fases de muda. A nossa manhã voa, quando ela é tão boa. Nessa hora, ninguém vê como estão os meus pés debaixo da mesa. E sorrimos comendo pão e doce. Vejo-me enfrentada numa tarefa de coragem regada a cafés confusos e falas intelectuais.

Meus amores, meus encantos de vida. Às vezes, apenas quero cantar e esquecer. E eles discutem muito bem a geopolítica do mundo. Nessa hora, coloco meus pássaros no bolso e espero o próximo músico passar pela janela. Então desço as escadas e neles busco o outro-lado. Às vezes, acho que faço mágica para viver. Mas nada fica dentro do chapéu. Minha transparência chega a ser irritante, se as pessoas são um muro vestido. Vou desnudar-me e sei que assim engulo a vida. De vez. Sem vergonha, mas com distância insinuante porque não quero perder o clímax. Depois preciso do ficar parada observadora. Atrair é fundamental. O corpo suga. Assim a nossa bolha cresce e ficamos mais juntos, mais juntos. Somos enigmáticos. Eu vos penetro inteira e adoro. Numa alma lisa e ondulante.

Se conheço o medo dos homens, nem me lembro. Sim, conheço, mas isso é fatalmente trágico e não enche a minha mão. Prefiro o fervor da entrega, em algum momento gosto de dar as mãos. Na cama a quatro mãos – diria Hilda H. Seu sentido de união é Real. Vale mais que flores. Se nas flores as mãos se desprendem: uma entrega a flor, a outra recebe, assim separadas. Porque flor não se divide. Porque flores têm a magnitude da solidão exibicionista e ninguém percebe até jogá-las à eternidade do mármore grosso. Todo aquele e tudo aquilo que navega no desejo pelo eterno, carrega também a solidão. Eternos e sós. Dois companheirismos fatídicos – viver para desviar-se de tantos pontos trágicos.

Prefiro quase morrer no sacrifício de ter o outro. Enfim, homens podem ter medo ou desprezo pela sola do meu sapato. Sempre colorida e tremulante. E meu pé pisa torto, por isso giro sempre e fico pouco entendível no tempo comum. Preciso de horas coloridas demais. Pensar sobre mim é perda total de tempo. A arte trabalha em silêncio e repouso. Baixo o pingo de cada sol, somente é válido pensar no outro que somos nós mesmos sem perceber.

Se eles têm muitos receios e penseiros quando estão junto comigo, isso será sempre a configuração de um romance destrambelhado. Mas o medo também fundamenta. Sem o medo não há a certeza do passo. Depois que beijamos o medo, cada afirmação de caminho concretiza-se mais no fundo da vida, porque o medo é doce. Crianças são atraídas e gostam de sentir a insegurança mais extrema, porque são mais inteligentes ao tratar o desconhecido, e são mais libertárias. Eu me liberto depois de conhecer cada medo. Tudo vira uma luta de ata-desata, isso que me une a mim mesma e também me separa do outro. A liberdade é.

Gostaria muito de ser querida como se não fosse ameaçadora da ordem. Por favor, abram as portas, mas não se assustem não gritem não se hipnotizem com gatos. Cada animal reage a seu modo, provocando o ressurgir de um ato confrontador e de desenvolvimento do ciclo: ciclo íntimo individual ou ciclo de amor conjunto. É bonito quando nosso instinto animal sabe se preservar e procriar. Há aqueles animais que juntos se matam.

Eu não mato, retiro-me depois de ter a luz na greta da porta aberta. Preciso de muita luz e não posso ficar no escuro que me come rápido. Sem luz meu osso esfarela no prato. E meu prato deve conter flores. Sou fraca em algum lado. Depois desviro e vejo minha força descomunal, que se faz viva quando perpetuo o passado das coisas: eu parada na linha de ferro no traspasso para que tudo se faça no presente vivo.

Existe uma força que é oculta e invisível, e vemos seu reflexo quando um corpo vira coisa-da-arte. Mas esta força em-si é irreal e quase fora do humano. Vira-se um pedaço uma coisa um labirinto interpretativo, as pessoas podem entrar invadir e se aderir. Assim, multiplica-se a vida. Com arte. Essa força é feita para existir na doação, até do sangue, até tudo virar mesmo flor, essa flor que há dias a desprezo por pura preguiça da sua sensibilidade exacerbada. Vou pisar em outra flor, outra outra e depois tentar entender qual olhar ficou em mim. Se cruel ou brincalhona.

Diante de todos estou a raspar minha pele, agora. Contando do olho na manhã que é o mais íntimo dos meus modos de estar. Ai, que amarelo desconcertante! Qual intimidade ainda terei? Ramos de flores se entrelaçam rapidamente, recriam-se na renovação. Devo transparecer tudo, sabendo que existe ainda o que fica entre mim e eu. E quanto ainda existirá de segredo neste entre que me navega?

Desfazer-se das magnificências humanas e dos poderes sociais, isso pode ser um trajeto de monges e freiras. Que não é de ferro, mas não sei qual tipo de material permeia o chão de pés sacralizados, talvez lã de ovelha pastora. Às vezes, escrevo apenas enrolando para não cair na palavra que é ritmo sequencial, encaixada em história a ser contada. Romances me esperam. Isso aqui é meu descanso produtivo.

Piso flores e desprendo-me de. Achar que sou feita do que agora lhes escrevo, nem eu acho. Jogo flores onde quero, ganhei essa autonomia. O delírio perfeito sempre vai embora, e se estou lunar escondo todo florescer dentro do armário vazio. Existe a esperança da imaginação que não evapora. O que fica guardado de toda uma vida?

Deixo minhas mãos vazias e sós, em saídas pela noite orgíaca de beleza libertária. Vou de novo espelhar-me no olho amarelo da manhã, com apenas uma vida, mas uma vida livre, meu Deus!, e ter-se-á tantas luzes e cores quanto mais trabalhado for cada novo amarelo. Conseguirei a diversidade colorífica depois de peneirar muito muito cada sol. E chegará a estação do ano do século perfeito em que haverá dois corpos juntos, sem flores sem flores, e todo outro saberá como é fugir de ser desejada como belezas de uma desafortunada solitária arte. Quando o sol raiar e o olhar cristalizado for apenas aquele que carrega cada um. Não sou a luz de ninguém.

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