Trilogia sem flores, por Maíra Vasconcelos

Por Maíra Vasconcelos

Vivi o fundo de muitos momentos, agora resto apenas no instante de cada dia. Somente o instante tem servido meus pés, há quantos anos. A escritura de um romance aumentou minha capacidade consciente de capturar todos os momentos comuns. No seu exato tempo, sei que aquilo é a repetição banal. Às vezes, até seguro o respirar para não me gastar. E a simplicidade de ser apenas é possível quando nunca vimos a nossa cara mais de uma vez. Pensar sobre si mesmo é o início do fim de uma alegria.

Beijando e amando profundamente meu estar-com-o-outro, me vi até que somar e subtrair ficaram sem solução. Depois, tenho ficado longe do outro que sempre amo. Amo como o mar que se mistura em cada areia difusa. E também as engole se estão.

Alguns homens amam em mim a inspiração que lhes despejo, a vida e o desejo louco neles instalado, se os desperto mais sadios para o mundo. Depois esvaio em solidão, enquanto eles amam de longe, olhando observando uma mulher que eles escolheram, uma mulher que é somente uma parte das minhas tantas outras. Conhecendo alguém que não sou eu completa, há uma outra que sempre fica sobrando com a mão na janela, incrédula com o coração desestruturado e folgado. Talvez uma parte minha goste demais do silêncio. E ela é tão esperta.. Necessito escrever para alcançar o que sou eu mesma na fuga de mim. Piscando dissonante como um inseto verde.

Pairo numa falta angustiante: eu sozinha, comigo, lutando derrotada. Pois se o outro já não me viu inteira. Nada serve. Por isso, retratos retalhados em cubos são fiéis. Anita Malfatti jamais passaria ilesa pelo incorporar do cubismo. Técnicas artísticas são capazes de revelar as loucuras mais arredias subjugadas esquecidas. Tudo a tona virá.

Acho que o escrever de hoje trará a solução final de mim. Mas chega o amanhã e sucumbe o que eu fui ontem.

Momentos ficaram-me inúteis. Isso torna o dia a dia mais custoso, como espreguiçadeira. Preciso do instante porque nele cabe a minha intensidade. Poderia escrever um livro sobre o poder destruidor do ser intenso, e escrever até morrer.

A intensidade da minha pele faz de mim eterna refém do tédio, esse tédio profundo que é a gota que toca minha cabeça: como uma goteira terrífica. Todos os dias. O teto existe e além do mais nos cobre como se fôssemos inúteis e frágeis para o mundo. Mas sou com o corpo diante de. A horizontalidade do meu peito alinha-se com a montanha no sentido da confrontação. Em linha reta-igual olhamos juntos o mesmo ponto, eu e o mundo. Nunca meu olho coloca-se abaixo de. Isso é improdutivo e não atrai. Pois, se o momento ficou redutível.

Amanhã escreverão outra música pensando nesta mulher dividida que sou. Fico invisível quando usada na arte. Estou cheia de poesias que palavreadas repetem meu corpo e alma na escuridão. Aquele querido francês ficou com meu gosto no seu paladar, e escreveu escreveu escreveu. Já virei também cobertura de foto e quadro, sendo para o outro no olho idolatrado, e preenchi esses espaços incompreensíveis – por que sou colocada aí?, se depois tenho que sair – o reflexo ficou triste e bonito, e outras vezes via-se apenas uma mulher em forma de esperança, de não ser exatamente o que é. Como se o momento fosse feliz. Todos possuímos um olhar sonhador. Mas nem todos somos possuídos por essa mirada. Às vezes, ficamos muito duros. Toda rocha há de se esfacelar no vento secular, demorando muito.

Existe uma coisa que é a matéria-prima de nós, que somos nós mesmos tentando fervorosamente uma essência que apenas acontece no caminhar. A essência é construída. Jean-Paul Sartre somente se igualava a Beavouir, suas demais mulheres eram a alegria.

Devo escrever assim até que me digam certas coisas. Tudo caminha como se eu soubesse que o passar dos 30 anos seria desse modo triangular ondulado. Artistas músicos escritores são fatos fora do meu controle. Eles aparecem e eu os admiro com este olhar que fica flexível e permissivo, como quando alguma coisa se abre e eu recolho, recolhendo tudo isso que agrega complementa e diz: bom dia, o sol vale e o amarelo é perene. As vestimentas desses feitos são poéticas e a poesia é um dos meus fantasmas – a poesia é-me familiar. Estou na simetria, no passo exato que conjuga casas indivíduos arte tempos e objetos, e logo a palavra escrita que é o elo. Escrevendo. Como se algum dia eu planejasse meu próprio fim.

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