Um dia de cão, por Izaías Almada

O bizarro e o brega caminham lado a lado já agora com a extensão da cidadania para cães e gatos, com direito a passaporte para viagens ao exterior.

Um dia de cão

por Izaías Almada

Outrora, a expressão “um dia de cão”, era usada para significar e ilustrar situações difíceis, angustiantes mesmo, para uma ou várias pessoas.

“Passei um dia de cão”.

Lembro-me ainda do filme do diretor Sidney Lumet, baseado em uma história real acontecida na cidade de Nova York, onde dois cidadãos assaltam uma pequena agência bancária com o propósito de conseguirem o dinheiro necessário para que um deles fizesse delicada operação de troca de sexo.

Al Pacino, praticamente no início de sua magistral carreira como ator teatral e cinematográfico, protagonizou o filme de Lumet, dando contornos realistas e trágicos a uma história bizarra: um dia de cão para muitos moradores do Brooklin novaiorquino.

Com o passar do tempo, cada vez mais e mais rápido no seu passar, o homem vai acumulando conquistas científicas e conhecimentos práticos e teóricos sobre e para a sua própria sobrevivência, em eterna procura por seu protagonismo diante da natureza.

E a tal ponto vão esses conhecimentos e essas conquistas que já é possível, não apenas mudar de sexo, mas mudar tudo o que for possível mudar: mudar de opinião, mudar de religião, mudar de ideologia, mudar de comportamento, mudar de país, mudar de hábitos alimentares… E por aí vamos, pois a lista de possíveis mudanças é enorme… 

O problema, às vezes, é que nem toda mudança significa progresso ou avanço nas relações humanas. Como essa do Brasil de 2020, por exemplo, trancafiado numa espécie de manicômio institucional. 

Mas deixemos a filosofia, a política e os loucos de lado por instantes e pensemos em mais essa mágica capitalista digna do mitológico rei Midas que, onde tudo em que tocava virava ouro: refiro-me aqui à transformação dos cães como um produto de primeira necessidade.

Viver “um dia de cão” ainda terá o mesmo significado nos dias de hoje?

Animais domésticos sempre foram queridos e bem vindos, não é essa a questão, mas não éramos obrigados a tê-los. E muito menos éramos pressionados para humanizá-los, alguns deles se transformando em patéticas figuras a circular pelas ruas das cidades.

Chamados de “meninos” ou “meninas”, consoante o sexo, são vistos a desfilar com saias e vestidinhos ou paletós e gravatas. Usam sapatinhos de lã ou mesmo botinhas de salto. Andam em carrinhos de bebê e alguns de seus donos usam o papel higiênico para os quilos e quilos de cocos espalhados pelas calçadas das cidades.

A moda, ah! A moda! De repente passear cães e cadelas, desculpem, meninos e meninas, por ruas e avenidas virou moda, quase uma necessidade, marca de status social, pois comprar um ou mais cães e sustentá-los dá status social, sobretudo com todas as bugigangas postas à venda, além da ração e dos veterinários, hospitais, spas, hotéis, supermercados, boutiques de roupas e penduricalhos, viagens de avião ou navio para o exterior, etc, etc., etc… 

Estimativas já apontam para a cifra de quase 40 bilhões em serviços e produtos para pets no Brasil.

Hoje em dia é mais fácil adotar um cão que do que adotar uma criança. Em ruas do comércio chique das grandes cidades brasileiras vemos cenas de cortar o coração: meninos e meninas de verdade com os seus sete, oito anos de idade a venderem panos de prato, balas, chicletes, passando ao lado de cãezinhos sendo empurrados em carrinhos e emperiquitados em suas ridículas roupinhas.

O bizarro e o brega caminham lado a lado já agora com a extensão da cidadania para cães e gatos, com direito a passaporte para viagens ao exterior.

E do jeito em que vão as coisas e os novos hábitos e comportamentos, levar “uma vida de cão” será sinônimo de levar uma vida maravilhosa, com mordomias e direitos dos mais variados.

Não sei se já existe, mas uma boa ideia para quem tem tempo e dinheiro, a turma do mercado financeiro, será abrir uma escola de línguas (idiomas) para cães, sobretudo com o estudo do inglês, falado em todo o mundo.

How are you feeling, my little dog, my sweet heart? Come here… Chique, não?

A essa altura o leitor estará se perguntando: esse articulista não tem assuntos mais sérios para tratar?

Claro que tenho: posso falar sobre a abstinência sexual no nordeste, sobre como deixar cidadãos brasileiros em suspense na China do coronavirus, sobre o crítico de cinema Pedro Bial, sobre a namoradinha do Brasil na Secretaria da Cultura, sobre o excelente trabalho de combate a corrupção do novo governo federal, sobre como viajar de graça em aviões da FAB, sobre o Ministro da Educassão e sua esselente adiministrassão e por aí afora.  

Assunto não há de faltar. O que falta mesmo a nós brasileiros, é um pouco de vergonha na cara nesse país de democracia em vertigem.

Meu carinhoso abraço e apoio a Petra Costa por sua coragem e sensibilidade.

3 comentários

  1. Quando vejo alguém sendo passeado por seu cachorro na rua, logo penso: lá vai um senhor com seu escravo. O bicho dá sua liberdade e produz alguns agrados idiotas ao dono em troca de comida, abrigo e proteção. Se fosse gente, seria o caso de trabalho análogo à escravidão. Confirma a tese de Jessé Souza: o que mais caracteriza o brasileiro é a herança escravocrata. Ter um bicho à sua disposição é o escravismo ainda tolerado.

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  2. Essa “humanização” dos cães faz parte das bizarrices do homem, um bipede inútil ao planeta, que sequer serve mais para adubo, dado a quantidade de quimicos alojados em seus tecidos.

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  3. Ariano Suassuna ja dizia na peça O Auto da Compadecida que o brasileiro é capaz de dar bife para cachorro e osso para seus serviçais… O filme de Sidney Lumet parece estranho, mas esta cheio de humanidade. Humanidade essa que parece que muitos dentre nos deixaram para tras e agora seguem com seus objetos de luxo e vazios vazios.

    Por causa do meu trabalho, tive que ler o livro do Pedro Bial sobre Roberto Mainho. Uma vergonha. Não tenho nenhuma ilusão.

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