Um só em todos, Florestan Fernandes, por Rui Daher

por Rui Daher

Escrevo no minuto em que determinação federal manda adiantar em uma hora os relógios. Em casa serão muitos os acertos, mas a lua que ilumina o meu pequeno jardim é uma só. Linda como em todas as estações lunares visitadas pelos táxis de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, e a mesma beleza da moça árabe que acabo de elogiar no Al Janiah, boteco-bunker, onde eu, Cléo, Fernando Juncal e Dimea terçamos alegrias e alguns pesares: “Fazer o quê? Eles sempre mandaram”.

Nesse restaurante, se não por engano, você nunca verá chegar musculoso rapaz, camisa polo com bordado de 12 centímetros no peito, entregar o SUV ao manobrista e admoestar: “Vê lá onde vai levar esse carro. É caro”. Até porque lá não há quem manobre os carros. Se houvesse, estranharia não usar o pé esquerdo ao partir.

Quer dizer que é meia-noite, mas é uma da madrugada? Talvez por isso, na casa vizinha, um grupo de amigos se diverte. Ouço o zum-zum de suas conversas, risadas, fico feliz. Aquela lua soberana me fazia solitário. Cançonetas e tenores italianos abafam o som do DVD de Eduardo Gudin, com que Juncal gentilmente me presenteou. Do outro lado do muro, palmeirenses roxos. Errei. Não admitiriam o roxo. Verdes ou esmeraldinos. Tenho pouco contato com vizinhos. Sou belo, recatado e do lar, mas gosto quando fazem festa. O barulho não me incomoda, pelo contrário, me conforta como o cheiro de pizza que vem de lá. Penso em gritar por um pedaço.

Só então me lembro que alguns minutos atrás passara o Dia dos Professores. Seria ainda tempo de homenageá-los? Parabenizá-los, nunca! Quem melhor do que eles para saber o quanto merecem e não recebem.

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Começo uma brincadeira.

Ah, você, Denise, primeira professora. Por que me punha no colo? Lição que nunca mais esqueci e vivo a pedir. Foi no Instituto de Ciências e Letras, dirigido pelo austero Dr. Alfredo Pucca, entre o Vale do Anhangabaú e o Largo Santa E(I)figênia (até hoje o Vaticano não me esclareceu).

Do largo da santa atravessei o viaduto até o largo do santo. O Bento. Fui dar com os beneditinos Martinho, Anselmo, Alberto, Bonifácio, Bernardo, Afonso e Henrique. A maioria com sobrenomes alemães. Generalizemos: Schweitzer. E os laicos Dick, Mastrobuono, Ceccheto, Abrão, Gallizia, Silveira.

Perceberam? Depois da Denise, nenhuma mulher ou colo. Ah, os padres daquela época. Ainda assim sou capaz de lembrar nomes e rostos de todos. E de gosta-los. Sem revanche, pois.

Diferente de quem me ensinou em cursinhos. Deles lembro quase ninguém. Dráuzio Varella e Di Genio, mais por suas atualidades do que pelo tempo em que me deram aulas.

Na GV, o Suplicy, mas este não deixa ninguém o esquecer. Lá sim, muitos carinhos. Tragtenberg, Angarita, Kurt, Bresser, Gustavo, Raimar. Uma mulher: a Cecília. Sem colo.

Na USP, Ciências Sociais, creio que predominavam as mulheres. Colos permitidos somente na coxa esquerda. Eunice, Lux, Maria Tereza, Maria Vitória, Maria Conceição. Seminários com Dona Ruth e Ecléa Bosi. Todos no nome de um só, o Professor Florestan Fernandes.

Os demais? Leôncio, Kowarick, Souza Martins, Ianni, Gabriel Cohn, Guilherme Mota, Giannotti, Paulo Arantes, Paul Singer.

De uns gostava, de outros não. Motivos didáticos? Nem tanto. Apenas a fragmentação da esquerda em suas origens. Quando rarearam os colos e prevaleceram os holerites nos empregos que davam sustento à família, desisti.

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Tanta gente, não? Todos tentando enfiar algum conhecimento nesta cabeça tonta, torta, que não se leva a sério e dói quando pensa que não sabe nada.

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2 comentários

  1. Cheiro de Pizza…
    Acho que é por isso que sinto falta do Dominó…

    Rui quando escreve – ou dá entrevistas; sim, assisti – sobre agro, negócios e toda essa riqueza que ainda nos sustenta antes que a devastem também, é soberano em seu métier.

    Mas para tratar do cotidiano que tem cheiro de pizza, lua especial – pela blogosfera é fácil encontrar o fenômeno de ontem -, bate papo, futebol e que tais, é, como disse outro dia, supimpa.

    Lapidação pelos Mestres ou Conquista? Ambos creio.

    Não deixe de nos avisar sobre o lançamento do Dominó. Ando precisando de alegrias fortuitas – nossa realidade é lancinante – e tenho certeza de que o Dominó e a lembrança daquele tempo bom vão me ajudar a continuar respirando o ar pestilento contaminado por você sabe por quem(ns)..

    Um abraço Rui.

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