Uma crônica entre a melancia inteira e sua metade

Entro no Supermercado para comprar algumas frutas. Sentadinho dentro de um carrinho de compras um garoto de 4 anos faz um espetáculo. Todo mundo presta atenção nele.

-Eu quero melancia, eu quero melancia.

O avô do menino apanha metade de uma melancia na gondola. O menino estica os bracinhos e se torna mais assertivo.

– Essa não, eu quero aquela grande. A grande.

O avô aponta uma melancia inteira

– Essa, essa. Eu quero melancia.

– A outra é melhor… diz o avô, meio sem graça.

Passo perto do menino com as bananas e peras que escolhi. A mãe dele esta quieta. Um cliente que se dirige ao caixa na minha frente se vira para o moleque.

– A melancia grande é muiiito grande, maior que você. Você não vai conseguir comer ela inteira.

Irritado por ter sido contrariado o moleque apresenta dois argumentos que acredita ser irrefutáveis.

– A grande é melhor. E eu quero a grande, a outra não.

O moleque não só desiste da melancia inteira como aumenta sua lista de compras.

– Eu também quero maçãs… E a melancia. Não, essa não. A grandona.

Entrego minhas frutas para a moça do caixa e digo baixinho

– Esse carinha não vai ter problemas na vida. Ninguém, nem o avô consegue enganá-lo.

A moça enuncia uma resposta… não consigo lembrar o que ela disse pois no momento que terminei a frase comecei a divagar.

Puta merda, esse espetáculo que estou presenciando é uma metáfora perfeita da situação do país nesse momento, digo para mim mesmo.

Em alguns dias os eleitores brasileiros poderão escolher entre conservar seu Estado (Fernando Haddad) ou abrir mão de metade dele (Jair Bolsonaro). Mas se eles escolherem a segunda a hipótese o que restar do Estado será a melancia que os desembargadores, juízes, procuradores e promotores devorarão inteira como se fosse só deles.

Aquele moleque insistente que estendia os bracinhos para a melancia grande e rejeitava a que lhe foi oferecida pelo avô pode ser considerado um símbolo tanto os eleitores de Haddad quanto dos juízes e promotores de Bolsonaro. Suponho que o voto da mãe silenciosa tenha decidido o resultado, mas sai do supermercado antes da compra deles terminar.

 

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