Ursos, por Rui Daher

O que poderia querer um jovem casal de ursos polares a visitar-me em noite tão triste para o planeta e mais infeliz para o meu país?

Ursos

por Rui Daher

Conto: um casal de ursos polares vem me procurar. Ainda não estamos no inverno. As folhinhas me apontam, outono. Diante deles, eu, surpreso, começo a chorar. O que poderia querer um jovem casal de ursos polares a visitar-me em noite tão triste para o planeta e mais infeliz para o meu país?

Ele, graciosamente, senta-se num sofá, à minha frente, leve sorriso. Ela parece mais recatada. Pergunto seus nomes.

– Ursulino.

– Úrsula.

– Ah, nomes bonitos.

– Não disfarce, Rui, óbvios, não?

´- Nem tanto. Poderiam ser João e Maria. Alguma numeração, 01, 02, e 03, se algum dia rebento vier.

– Não está ainda em nossos planos. Somos jovens e preocupados com o que vocês, humanos, estão fazendo com as mudanças climáticas. Pra quê proliferar, se em breve poderemos estar extintos?

– Entendo. Mas nós, humanos, também.

– Não a natureza é mais resistente, maior, longeva, do que nós, mamíferos carnívoros, plantígrados. Da mesma família dos pandas. Veja o que está acontecendo com eles.

– Discutível, realmente. Mas por que vêm a mim, nesta Redação, vazia, solitária, eu afogado em lágrimas pelo planeta e o Brasil. A nós atingem um vírus e um verme.

– Alguém do seu conselho consultivo que costuma proteger-lhe, pediu-nos uma visita.

– Mas, ursos, por quê? Não achei justo, tirar-lhes de seu habitat normal.

– Você, Rui, é imortal, né?

– Claro que não, aliás, estou na finitude.

– Pois é, nós também não somos, e trabalhamos num circo celestial a que todos os membros de seu conselho consultivo assistem aos nossos espetáculos circenses.

– Já sei. Coisa do antropólogo Darcy Ribeiro.

– Não. De Alfredinho Bip-Bip, preocupado com Aldir Blanc

– Eu também, claro. Querem-me alegre e sem derrubar lágrimas?

– Deixe de drama. Estamos aqui para alegrá-lo. O que quer.

– Vocês podem cantar e dançar “Siri recheado e o cacete”?

– Claro. É uma das nossas preferidas.

– Bis. Iuhuuuu!

Sempre será muita matraca deles pra nossos poucos berros.

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