Veias fechadas para a América Latina. Pedrán e Avelar, por Rui Daher

Nada do que vier do Regente Insano Primeiro me ocupará. Preocupar, sim. Tenho filhos.

Veias fechadas para a América Latina. Pedrán e Avelar, por Rui Daher

(publicado originalmente em CartaCapital)

Espero virar a meia-noite do domingo, 15 de março, para não escrever antes do ódio prenunciado e proposto pelo Regente Insano Primeiro (RIP), para aquele dia. Sua ideia, magnífica em época de pandemia, irmos às ruas acabar com a democracia, resgatada há 35 anos. E que siempre termina en lo mismo. Sua claque de imbecis a aplaudi-lo, move-se para afrontar os Poderes Legislativo e Judiciário, ao cabo, a democracia. Pedem fim de eleições e volta de votos impressos. Como?

Nada do que vier do Regente Insano Primeiro me ocupará. Preocupar, sim. Tenho filhos. Até o extermínio desse monstro político, ignorante econômico, ogro nas tendências mundiais dos costumes, sempre ficarei com estômago revolto e dedicarei algumas palavras para denegri-lo.

Estive na orla do Velho Chico, o rio de meus amores. A brisa forte é ao mesmo tempo leve, gostosa, e permite que eu controle o momento de reacender a brasa do cachimbo. Repete: “não, não e não; corro diante de seus olhos há mais de 20 anos e nunca vi essas águas fazerem você se acovardar”.

Verdade, Chico, brinco: “e por que tantas pessoas de máscaras no hotel”? Não sei se ele se refere à pandemia ou a Bolsonaro. Devolve o jocoso rio, em cordel: “Vento muito forte, vento muito forte, pode vir lá do hemisfério norte, e vai que aqui espalhe muita morte”.

Mais do que as de nossa miséria? No momento, me vem à cachola cabocla nordestina, corpo lindo e coxas fortes, no dia anterior, em arrasta-pé, me dirigiu um pequeno sorriso. Olho para o céu e lembro trechos de Galeano. É quando fecho parte das veias da América Latina.

Pedrán

Filho de Alfredo “Tigrón” Caballero, Pedro Juan sempre odiou o nome com que foi registrado, homenagem de seu pai ao herói da independência paraguaia.

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A família plantava uvas, milho e hortaliças numa propriedade de 12 hectares nos arredores de Mendoza. Também, arriscavam um vinho artesanal que o encucado pai dera o nome de Amambahy, homenagem (mais uma) ao departamento paraguaio onde viveu por alguns anos. A família sobrevivia bem na propriedade.

Em 1982, patriota e defensor da ditadura militar, o pai resolveu lutar contra os britânicos pela posse argentina das ilhas Malvinas. Morreu num bombardeio. Pedrán diz que Videla e Galtieri ofereceram-lhe medalha póstuma. Les dijo que se lo metieran en el culo.

Já tendo se registrado em Mendoza com o nome Pedrán Caballero, conheci-o nos anos 1990, em viagem para grande empresa brasileira, projeto que estudava trazer fertilizantes para o Centro-Oeste brasileiro, através de barcaças pelo Rio Paraguai, até Corumbá (MS) e Cáceres (MT).

Amigos, ideias políticas, agricultura, e o tal vinho Amambahy, me apresentaram ao “El Asador de la Izquierda”. Lá estava Pedrán.

–  No creo que me quede más aquí. Me voy a Brasil. Solo sé plantar. ¿Lo que me sugiere? ¿Adónde debo ir?– Compensa mudar? Contara-me que sua irmã, Sarita, há doze anos, se casara com um norte-americano e foram morar em Miami. À irmã, que já se separara do gringo ricaço, por justiça, ofereceu metade da venda dos 12 hectares. Ela declinou. Continuaria doméstica em Miami. Dividas a pagar. “Tal vez, un día en el futuro querido hermano”. – ¿Y tú, en Brasil, como eres después del fin de la dictadura?– Como siempre bromeando, mintiéndonos a nosotros mismos.Passei mais de 20 anos sem ter notícias de Pedrán. Nenhuma carta ou mensagem digital, pesquisa no Facebook.

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Avelar

Confesso a amigos de Petrolina (PE) paixão por galinha caipira aqui, capoeira lá. Ambas caneludas, ou caneludos, quando frangos.

– Vai comer a melhor do Brasil. Tem gente que roda 600 km de Salvador até Casa Nova para comê-las ou buscá-las. Ricaços vêm de helicópteros. De Petrolina é perto, uns 60 km. Vou ligar e reservar. Precisa.

No caminho, a paisagem, apesar de sempre no semiárido nordestino, vai-se tornando mais agreste, mais sertão. Junto com Pilão Arcado, Remanso e Sento Sé, na origem, foram municípios encobertos pelas águas da barragem de Sobradinho. Hoje em dia, recuperaram ou inovaram vocações.

Chegamos ao restaurante “Chapada do Avelar”, tocada pela família Avelar, “deliciosa galinha de capoeira feita na hora”. Estamos na BR-235, km 12.

Além da criação de galinhas, Mestre Avelar, cultiva cana, frutinhas e madeiras da região que irão se juntar a suaves cachaças, harmonioso encontro com o patrimônio cultural brasileiro.

Ameixinha (fruta exclusiva do semiárido, diferente das conhecidas nos Sul e Sudeste), Miroró (Pata-de-Vaca, aqui), e a purinha. Degusto todas.

Da galinha, pirão, macaxeira, pimenta caseira, farofa, tudo produzido pela família, só posso alinhar com os momentos mais divinos que esta carcaça já carregou.

https://www.facebook.com/pages/Chapada-Do-Avelar/1472148596380372

Avelar me conta o restaurante ter sido apoiado por organização não governamental do estado da Bahia, o Instituto Água Viva. Logo entendo os efeitos da inclusão social, da agricultura familiar, e dos abandonados arranjos locais produtivos, não importam suas origens, mas sim os propósitos.

https://www.institutoaguaviva.org.br/projetos-sociais/?gclid=EAIaIQobChMIvvSH5qOk6AIVDg-RCh1uJwlXEAAYASAAEgKLPPD_BwE

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– Menino, tu sabes que até gringo comprou lote por aqui e tá trabalhando no projeto.

– Sério?

– No quê?

– É técnico de futebol do time da meninada. Acho que argentino. Olha ele lá, tomando cerveja.

Olho e pasmo.

– Chama ele pra mim, Avelar.

Nos olhamos.

– Pedrán!

– Ruí!

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