Ver Emergir o Monstro da Piscina, por Jorge Alexandre Neves

Ver Emergir o Monstro da Piscina

por Jorge Alexandre Neves

Ele andava de gaia arriada, piongo de dar pena. Vivia sentimentos dúbios. Por um lado, o desejo à liberdade e ao prazer. Tornara-se um hedonista. Mas parece que não estava preparado para pagar o preço (um grande amigo, algum tempo depois, disse a ele: “tem que ter vocação, rapaz…”; é isso, até para ser hedonista de verdade tem que se ter vocação. Grande lição!). De outro, um profundo sentimento de culpa que consumia suas entranhas. Afinal, muita gente que amava tinha sido magoada.

Começou, então, a refletir sobre como refazer sua vida. Não tinha mais idade para viver naquela esculhambação. Alguns amigos tinham feito a mudança, mas para tanto, tinham virado evangélicos. Vôte! Aí também não, era demais para ele. Já tinha buscado uma estrada de Damasco que, por mais que desejasse, não se revelou a ele. Não era por ali que iria encontrar um caminho pra se reconstruir.

Não por racionalidade instrumental pura e crua, mas provavelmente por instinto, buscou na sua origem mais profunda a resposta que buscava. Afinal, já tinha lido que certa tradição intelectual enxergava nas lembranças de uma infância feliz em família a força que teria feito um anjo ser despertado pelos sinos da páscoa e derrubar o frasco de veneno com o qual Fausto desejaria se suicidar.

Assim, viajou cerca de 2.100 Km e encontrou o que queria. Foi recebido por uma generosidade comovente. Muito mais do que achou que era merecedor. Um calor humano, um amor tão profundo e tão sincero que dominou seu espírito. Sentiu-se profundamente feliz e acolhido. Pela primeira vez em muitos anos se viu satisfeito, mesmo sem os prazeres com os quais tinha se acostumado. Descobriu-se salvo por sua família. E, de fato, a partir dali conseguiu reunir as energias necessárias para reconstruir sua vida.

Mas aconteceu uma coisa que, inicialmente, causou a ele um pequeno incômodo. Ele notava que, de vez em quando, nas agradáveis conversas à beira da piscina, regadas a whisky (como é comum naquela parte do litoral nordestino, mas que ele, depois, descobriu pessoalmente também ocorrer no Caribe colombiano, o que lhe despertava a pergunta: “com esse calor todo, de onde vem esse gosto d’gente por whisky?”), cerveja e uma boa cachacinha mineira que costumava levar, ele via a imagem de um mostro aparecer à flor da água da piscina. Àquela altura, não comentava com ninguém, devia ser delírio etílico.

Todavia, verão após verão, toda vez que fazia aquela travessia rumo ao aconchego do amor de sua família, aquele monstro emergia à flor da água da piscina de forma cada vez mais visível. Com frequência, ocorria em conversas mais entusiasmadas que se davam com a visita de parentes e amigos da família. E, não raro, a conversa era essa (de forma sintética): “o bolsa família estimula a preguiça”, “as cotas rompem com a meritocracia” etc. Se outros percebiam que o monstro vez por outra emergia e botava sua cabeça para fora d’água, cada um guardou para si.

O tempo passou e por circunstâncias da vida, aquela travessia de milhares de quilômetros parou de ser feita a cada verão. Ele foi tocando sua vida e se sentindo cada vez mais distante daquela energia que tinha sido fundamental na reconstrução da sua vida. Sentia-se culpado por esse distanciamento. Por outro lado, ficava chocado e assustado ao ver de longe que o monstro da piscina tinha emergido pra vários lados que olhava.

Hoje, o monstro se espalhou para todo canto do país, e muitos daqueles que não perceberam que a cada verão ele botava a cabeça para fora da piscina, agora, além da máscara que vestem para tentar sobreviver à pandemia, usam também uma venda sobre os olhos para não ver a desgraceira que o mostro fez com o Brasil.

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