A fenomenologia bergsoniana do Tempo em “Durante la Tormenta”, por Wilson Ferreira

O filme espanhol “Durante La Tormenta” (2018) é um filme surpreendente pois consegue, em muitos aspectos, figurar em uma linguagem audiovisual a complexidade da fenomenologia de Bergson

Durante la tormenta. Imagem de divulgação

Por Wilson Ferreira

Somos seres que sentem tristezas, paixões, emoções pessoais ou estéticas. Essas sensações e emoções crescem em nossa alma até ocupar o psiquismo, criando nossas memórias. Elas conferem duração, o “tempo puro”, distinto do Espaço que nos dá a ilusão de que o Tempo é apenas uma sucessão de instantes fragmentados em passado, presente e futuro. Essas são as ideias do filósofo francês Henri Bergson, com grande atualidade e estudado em diferentes áreas como cinema, literatura, neuropsicologia e bioética. O filme espanhol “Durante La Tormenta” (2018) é um filme surpreendente pois consegue, em muitos aspectos, figurar em uma linguagem audiovisual a complexidade da fenomenologia de Bergson – uma misteriosa tempestade elétrica cria um contato entre 1989 e 2014 através de uma velha filmadora VHS. Involuntariamente a protagonista interfere no passado e cria uma espécie de “efeito borboleta”, tornando-se prisioneira de uma realidade alternativa. Mas o “tempo puro” bergsoniano será a único instrumento para tentar reconfigurar a ordem cósmica e retornar à sua vida perdida. Filme sugerido pelo nosso leitor José Maurício Paes de Oliveira.

Para o Gnosticismo o Tempo é uma falha cósmica: o tempo como uma sucessão de instantes ou estados que se justapõem linearmente, instantes separados uns dos outros no interior de uma linha que vai do passado ao futuro. Uma linha que tende para a entropia e a morte.

A questão não que o Tempo seja uma ilusão. O problema é que o Tempo está submetido ao Espaço, como pensam seja o senso comum ou o filosófico e científico – o tempo cronológico, indivisível e homogêneo. Por isso, todos nós seríamos vítimas do esquecimento já que, submetida ao Espaço, a percepção temporal é entrópica: tende ao efêmero, à dispersão, dissolução.

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Talvez o filósofo que mais próximo chegou a essa intuição gnóstica sobre Tempo e Memória foi o francês Henri Bergson (1859-1941). Para ele, o Tempo em si conteria a Duração – o Tempo ganharia níveis de profundidade no qual coexistem graus do passado, ora próximos da ação, ora próximos do sonho. Haveria uma penetrabilidade recíproca onde presente e passado se distinguem mas, por outro lado, não se separam, criando uma “duração pura” no qual memória e pensamento se confundem quando estão livres do Espaço.

O problema para Bergson é que nossa mente seria como uma central telefônica: selecionamos da percepção e memória apenas aquilo que nos interessa por razões práticas, para que o pensamento não seja invadido pelos sonhos – a memória em estado onírico.

Certamente o filme espanhol Durante a Tormenta (2018), disponível na plataforma de streaming Netflix, é a melhor tradução audiovisual para o pensamento complexo de Henri Bergson em textos como “Ensaios sobre os dados imediatos da consciência” (1889) e “Matéria e Memória” (1896). Um thriller de suspense que mistura viagem no tempo, efeito borboleta, teoria do caos e realidades alternativas que se tocam como uma espécie de hipertexto cósmico que poderia criar exponencialmente novas realidades.

Dirigido por Oriol Paulo, o filme segue uma tradição de produções espanholas sobre paradoxos temporais como Crimes Temporais (2007, clique aqui), El Cuerpo (2012, também de Oriol Paulo) e Contratiempo (2017), firmando-se como um gênero bem distinto do restante da produção cinematográfica daquele país.

O filme explora um roteiro complexo, com diversas viradas narrativas, com tradicionais convenções do gênero romântico. Mas com curiosas alusões a PoltergeistDe Volta para o Futuro e até Janela Indiscreta de Hitchcock, numa atmosfera que lembra bastante a série clássica Além da Imaginação.

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O Filme

Tempestades que rompem o continuum espaço-tempo é a premissa causadora de um loop temporal entre os distantes anos de 1989 e 2014. Duas tempestades sincrônicas que estão ocorrendo simultaneamente no espaço de 25 anos, criando uma interpenetração entre passado e presente. Uma aposta arriscada do diretor Oriol Paulo, pois parte de uma premissa impossível, mas consegue fazer com que o roteiro não caia no absurdo e no caos. Mantem o pulso em toda narrativa, permitindo ao espectador juntar as peças do quebra-cabeças

Aliás, tempestades têm qualidades irresistivelmente cinematográficas, criando atmosferas que evocam bem a transição de estados de uma realidade para outra. A tempestade de O Mágico de Oz é o mais famoso exemplo, quando um tornado transporta Dorothy do mundo monocromático da realidade para as cores da terra de Oz. Ou o filme Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012) onde a tormenta que atinge o protagonista no meu do oceano provoca nele uma experiência de epifania e de revelação cósmica.

O filme começa em 1989, quando imagens de TV estão mostrando cenas ao vivo da queda do muro de Berlim. Um menino chamado Nico toca guitarra em seu quarto enquanto uma filmadora grava, enquanto lá fora uma tempestade elétrica cobre o céu. Sua atenção é desperta para os gritos vindos de uma casa vizinha e acaba testemunhando um crime. Depois de fugir da cena do crime com o assassino atrás dele, Nico atravessa a rua e é atropelado mortalmente por um caminhão.

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Vinte e cinco anos mais tarde e sob um mesmo céu encoberto pela mesma tempestade elétrica, Vera (Adriana Ungarte), seu marido David (Alvaro Morte) e a menina Gloria (Luna Fulgencio) estão mudando-se para a mesma casa. Lá Vera encontra guardado em um armário, a velha filmadora e um aparelho de TV de Nico empoeirado pelo tempo.

Vera descobre que pode se comunicar com Nico naquele exato momento de 1989 quando ele dedilhava sua guitarra. Essa é a segunda premissa inverossímil do filme, mas a rápida sucessão dos fatos distrai o espectador a não pensar muito nisso: Vera adia a ida de Nico à cena do crime, conseguindo salvar sua vida.

Mas involuntariamente torna-se vítima de um inesperado efeito borboleta – cria uma realidade alternativa na qual David não mais reconhece ela e Vera jamais foi casada ou teve uma filha chamada Gloria. A partir daí Vera está imersa num apocalipse pessoal e emocional. O que poderá fazer para que mundo (e talvez o cosmos) retornem às configurações inicias da sua própria linha do tempo?

Essas serão as duas únicas esperanças para Vera: reencontrar aqueles velhos dispositivos de 1989 (a TV e a filmadora com o vídeo de Nico) e encontrar o próprio Nico, agora adulto.

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