A homossexualidade de Mário de Andrade

Euler de França Belém 

Homossexualidade “trava” biografia de Mário Andrade

 O Ezra Pound brasileiro era homossexual, usava cocaína e abusava de bebidas alcoólicas. ulcão de complicações, o autor de “Macunaína” vai ganhar uma biografia explosivaÁlbum de família/1935Mário de Andrade, autor do romance “Macunaíma”: o poeta e prosador foi o intelectual que sedimentou as ideias revolucionárias da Semana de Arte Moderna de 1922 e contribuiu para mudar a linguagem da literatura brasileira

Finalmente! O escritor Mário de Andrade, autor do romance “Macu­naí­ma” e do poema “Pauli­ceia Desvairada”, morto há 61 anos, em 25 de fevereiro de 1951, vai ganhar uma biografia, escrita pelo jornalista Jason Tércio. Na sexta-feira, 10, no suplemento de cultura do “Valor Econômico”, o ótimo “Eu&”, o jornalista e biógrafo Tom Cardoso revela, no texto “Enfim, uma biografia de Mário”, a história da biografia em andamento. É um fato a comemorar, pois, embora nascido há 118 anos (9 de outubro de 1893), o papa da Semana de Arte Moderna de 1922 e um dos principais inventores do modernismo no Brasil, o modernismo com cor local, jamais havia ganhado uma biografia — decente ou indecente. Qual o motivo do “esquecimento”, se Mário é um dos autores mais estudados do país? Simples: sua homossexualidade, quase sempre apresentada en passant, inclusive com sugestões de que tinha amantes mulheres — quatro ou cinco grandes amores femininos. A própria reportagem de Tom Cardoso — não é uma resenha, porque o “livro”, que deve ser publicado pela Editora Objetiva, teve apenas sua primeira versão concluída — passa ao largo. O autor, sabendo das dificuldades de lidar com um intelectual tão múltiplo (e defendido pelos acadêmicos) — “um vulcão de complicações”, como ele disse, numa carta a Sérgio Buarque de Holanda, em 1934 —, é cuidadoso. O texto do “Valor” tangencia a questão da homossexualidade e não menciona a paixão de Mário por drogas, inclusive cocaína, e bebida alcoólica. Como nem sempre tinha dinheiro para adquirir uísque e vinhos refinados, tomava porres homéricos de cerveja. Mas é preciso mesmo cuidado com o tema da homossexualidade, não por temor à família e aos tabus tropicais, e sim porque não define um escritor da qualidade e complexidade de Mário. Há sempre o risco de, ao se abusar do sensacionalismo, o biógrafo concentrar-se nos baixos instintos, no apelo ao popularesco. Ainda assim, como a homossexualidade não é crime e não é motivo para que alguém se envergonhe, merece ser referenciada num texto exaustivo, como uma biografia detida, sobre o autor de “Amar, Verbo In­tran­sitivo”. O jornalista, escritor e tradutor Moacir Werneck de Castro, no perspicaz “Mário de Andrade — Exílio no Rio” (Rocco, 237 páginas), escreve: “Deve-se notar que Mário de Andrade, ao estudar em profundidade a obra de um escritor e/ou artista, não deixava de assinalar aspectos que considerava importantes da vida sexual deles. Em Machado de Assis aponta a ‘forte sensualidade nitidamente sexual do artista’, o fato de ter casado e vivido com uma só mulher, com o que ‘simboliza o conceito do amor burguês’. Castro Alves era ‘uma sensualidade perfeitamente sexuada e radiosa’; poeta que ‘canta, e, sem querer, prega uma pansexualidade aceita’”.

O escritor era mesmo homossexual? Ou era “pansexual” ou bissexual? Ou era assexuado? Há indícios de uma sexualidade viva em Mário, mas não a sexualidade tradicional, definida, fixada pelo comportamento moral e, às vezes, religioso. O cérebro do modernismo patropi teve relacionamentos com mulheres, como sua professora de alemão Kaethe Meichen-Blosen. O que não se sabe, e certamente não se saberá em profundidade — não há memórias e as cartas divulgadas até agora não são reveladoras, antes insinuantes, quando o são —, é como era mesmo o relacionamento. Mário era dado a amores platônicos com mulheres e mantinha relacionamento estreito com vários jovens — escritores e jornalistas. “Estreito” não significa, porém, “sexual”. A biografia que Jason Tércio está escrevendo não é autorizada. Entretanto, temendo alguma retaliação, o jornalista e escritor procurou a família de Mário. Um sobrinho, que fala em nome dos herdeiros, o tratou “com respeito e cordialidade”. Tom Carvalho diz que “ele não teria apresentando nenhum obstáculo legal ou moral — disse apenas que não via necessidade de uma biografia sobre seu tio”. Na verdade, a biografia é necessária, desde que não se concentre no sensacionalismo. Mário é uma espécie de Ezra Pound brasileiro. Como se sabe, Pound copidescou o longo poema “A terra desolada”, do maior poeta do século 20, o norte-americano T. S. Eliot (ao lado de Fer­nando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade). Tornou-o mais preciso e o intransigente Eliot acatou as sugestões. James Joyce também aceitou algumas orientações de Pound ao compor “Ulysses”. Mário, na verdade, fez muito mais. Além de contribuir para que a literatura brasileira — e até o jornalismo (há, claro, quem escreva como se fosse um poeta parnasiano ou, até, romântico, mas é exceção) e mesmo a fala — perdesse a coloração empolada e pomposa, sendo decisivo para a modernização da língua, tornando-a mais universal, sem perder o ethos local, Mário escreveu centenas de cartas para escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Fernando Sabino e, entre outros, Pedro Nava, sempre apontando qualidades, defeitos, reticências, preguiças nos seus textos. Tornou-se uma referência para poetas e prosadores. Mário fazia aquilo que é necessário: situava o autor no contexto da poesia (e da prosa) brasileira e internacional. Às vezes, pensa-se que se está fazendo uma literatura avançada, modelar até para a literatura mundial, quando, na verdade, está-se a repetir o que já foi feito, e não raro com qualidade inferior. Mário tinha conhecimento técnico, uma formação excepcional, para dizer aos “moços” se estavam avançando, recuando ou apenas repetindo ou diluindo. O escritor-orientador não criava uma camisa-de-força; pelo contrário, apresentava o problema, sugeria mudança de foco, mas admitia que o caminho deveria ser trilhado pelo poeta, contista ou romancista. Os escritores ficavam esperando as cartas e praticamente todos disseram que foram úteis. Ele orientou o maior poeta da língua portuguesa no século 20, Drummond de Andrade. Não é pouco. O crítico Mário percebeu, com mestria, que estava orientando um poeta maior, e mesmo maior do que ele próprio, e, no lugar de se mostrar competitivo, provou-se acessível, indicando, com sua pedagogia positiva, caminhos para que o grande poeta se tornasse ainda maior. As cartas trocadas entre Mário e Drummond são “crítica literária”, só aparentemente fortuita, e são quase literatura, tal a qualidade dos textos. “Orgulho de Jamais Aconselhar — A Epistolografia de Mário de Andrade” (Edusp/Fapesp, 245 páginas), do professor-doutor Marcos Antonio de Moraes, é um livro esplêndido sobre as cartas de Mário a escritores e jornalistas (leia uma carta de Mário de Andrade para Drummond). As cartas têm sido muito estudadas, e merecidamente. Espera-se, porém que o exame das missivas não impeça a análise de sua obra literária. Se depender da professora-doutora Telê Ancona Lopez, isto não acontecerá. Telê tem sido para os pesquisadores aquilo que Mário foi para os escritores: uma orientadora brilhante e segura. Jason Tércio fará muito bem, se quer publicar uma biografia séria, se colocar seu texto final sob o crivo da professora da Univer­sidade de São Paulo.

Jason Tércio diz, em termos apropriados, que “a falta de uma biografia de Mário é uma das maiores lacunas na memória cultural do país, porque, além de principal líder do modernismo, ele foi um dos grandes pensadores da cultura brasileira” (o Brasil é um país tendente a copiar modas: duas cantoras de qualidade duvidosa, Amy Winehouse e Lady Gaga, ganharam biografias, absolutamente desnecessárias). O biógrafo acerta quando sugere (o texto entre aspas é de Tom Cardoso) “que a Semana de 22 só se confirmou como movimento transformador, com todos os seus desdobramentos políticos e culturais, pela capacidade de mobilização de Mário de Andrade. Para o escritor, a Semana corria o risco de não passar de um evento cultural, importante sim, mas sem grandes consequências, se não fosse pela militância que Mário e Oswald de Andrade tiveram”.

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Mostrando-se atento à bibliografia séria, e pouco afeito aos poetas concretistas, notadamente os irmãos Haroldo e Augusto de Campos — que apresentam Oswald como suprassumo da modernismo —, Jason Tércio destaca que Oswald “era principalmente um agitador, um catalisador, e Mário, ‘um pensador participante’”. Indicando que conhece bem o trabalho de Telê Ancona Lopez, João Luiz Lafetá e outros, Jason Tércio nota que foi Mário “quem deu sequência às ideias da Semana, quem mais se empenhou para manter acesa a fogueira, participando dos debates posteriores com artigos na imprensa e palestras, ajudando a fundar revistas, escrevendo ensaios e pondo em prática, nos seus textos, todo o ideário modernista”. Noutras palavras, Mário consolidou o modernismo brasileiro — inclusive como orientador de uma geração excepcional (Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, “rebentos” mais decisivos do que o “Caim” Oswald) —, mas não transformou-o num movimento estanque, paralisante. Mário entendeu, ao incentivar Drummond e João Cabral, entre outros, que o modernismo era uma “revolução” estética em andamento, que começara com ele e Oswald, mas precisava seguir adiante, com autores inclusive mais afortunados literariamente — como são os casos de Drummond e João Cabral, espécies de cristalização do modernismo patropi, ao lado do Guimarães Rosa de “Grande Sertão: Veredas”, o encontro da literatura de Joyce com a mediação dos modernistas e regionalistas tropiniquins. De algum modo, Guimarães Rosa fez sua “antropofagia” literária.

Jason Tércio observa que Mário “inventou” o intelectual hiperativo. Foi poeta, romancista, cronista, crítico de arte, musicólogo, etnógrafo, fotógrafo, professor, colecionador de arte. Esquece de citar o contista e orientador cultural de uma geração. Por que Jason Tércio evita comentar, em jornal, sobre a sexualidade “complexa” de Mário? Talvez não tenha sido perguntado por Tom Cardoso. Pos­sivelmente, como o tema é espinhoso, o biógrafo não quis antecipar possíveis iras familiares.

Sexo era muito importante para Mário, como, aliás, para todas as pessoas. Moacir Werneck de Castro, amigo de Mário e um de seus orientandos (Carlos Lacerda também foi “orientado” pelo escritor), toca no assunto, com cuidado, às vezes citando, como suporte, o livro “Figuração da Intimidade — I­ma­gens na Poesia de Mário de An­drade”, do professor e crítico literário João Luiz Lafetá. Mas, como indica o título, trata mais de uma análise da poesia, não especificamente do homem. Lafetá descobre que a obra (a poesia) ilumina o homem — talvez mais do que  as cartas. Moacir escreve: “Os ‘quatro amores eternos’ [mulheres], citados no ‘Girassol da madrugada’, tinham sido na realidade efêmeros, decepcionantes, uns não passando de platônico. Afora esses casos, tivera na mocidade experiências sexuais das quais alguma lhe custou caro para tratamento de ‘doença feia’. E também ‘amores populares’, referidos por seu amigo de juventude Rubens Borba de Moraes. Por exemplo, uma ‘mulatinha linda’, cobiçada pelos rapazes do grupo, e a quem um dia viram passar de braço com o Mário, ‘muito apertadinho’. Não se conhecem em sua vida grandes paixões, amores duradouros e absorventes”.

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Numa carta a Oneyda Al­va­renga, Mário aprecia aquilo que Paulo Prado (o rico financiador da Semana de Arte Moderna) chamou de “monstruosa” sensualidade. Mário escreveu na mesma carta: “… não se trata absolutamente dessa sensualidade mesquinhamente fixada na realização dos atos de amor sexual, mas de uma faculdade que, embora sexual sempre e duma intensidade extraordinária, é vaga, incapaz de se fixar numa determinada ordem de prazeres que nem mesmo são de ordem física. Uma espécie de pansexualismo, muito mais elevada e afinal de contas, casta, do que se poderia imaginar. O Manuel Bandeira que me conhece muito intimamente, uma vez, me disse: ‘Você… você tem um amor que não é amor do sexo, não é nem mesmo o amor dos homens, nem da humanidade… você tem o amor do todo!’”.

João Luiz Lafetá nota que o poema de Mário “Canto do mal de amor” é a expressão do “desejo sexual que tem sua realização impedida”. Ao analisar os poemas do “Grã cão do outubro”, Lafetá percebe, e estou citando Moacir Werneck, “o ‘complexo de mutilação’ visível na ‘fragmentação do eu’ e um sem-número de imagens — símbolos fálicos, sadismo oral etc., tudo máscaras do sexo misturadas a preocupação com a realidade do país e do mundo”. Baseado em Lafetá, Moacir Werneck conclui que é possível observar “um componente homossexual” em “sua personalidade”. Ele sofria muito, afirma. “O seu sofrimento” resultava “de uma sexualidade irrealizada, ou mal realizada, que ele ‘sequestrou’ e sublimou, movido por um pudor extremo, ao qual os freios sociais da época davam maior força repressiva”. O escritor não se considerava edipiano, mas adorava a mãe e viveram na mesma casa até sua morte.

Mário bebia muito — cerveja, uísque e até uma pinguinha. “Sabe, dei para beber. Tomo bebedeiras. Caí na farra”, disse a Rubens Borba de Moraes. Ele conta que ficava dias “de cama”. Também adorava drogas: “Experimentei de tudo”. Numa carta a Oneyda Alvarenga “escreve que o apaixona extraordinariamente ‘experimentar um tóxico que ainda não conheço’”. E revelou a Paulo Duarte: “Sofro a atração de todos os vícios”. Certa vez, no carnaval de Recife, usou drogas durante cinco dias. “Lou­camente”, contou. Tomou éter, cocaína e sedol. O médico e memorialista Pedro Nava “assegura”, nas palavras de Moacyr Werneck, “que Mário jamais se viciou”. Sua morte, aos 51 anos, se deve, possivelmente, à vida “desregrada”.

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Homem culto, quando apelava, Mário apelava feio. Quando tentaram reconciliá-lo com Oswald de Andrade, que ele só chamava de “Osvaldo”, Mário atacou, numa carta ao amigo e discípulo Murilo Miranda: “Ele que vá à reputa e a triputa que o pariu”. Oswald “batia” em Mário, quase sempre abaixo da linha de cintura, e depois enviava amigos comuns para tentar recompor a amizade. Ao saber que Murilo havia comido carneiro com Oswald, Mário replicou: “Na verdade jantou porco. (…) É uma espécie assim de ódio a posteriori. Se eu visse ele se afogando, acho que o meu impulso natural seria pegar um pau e dar pra se salvar. Mas logo, refletindo, eu percebia que devo odiar ele, e o pau me servia pra empurrar ele mais fundo na água bendita”. Mário morreu sem aceitar a reconciliação com o desrespeitoso autor de “Serafim Ponte Grande”. O que ele disse acima mostra que era menos politicamente correto do que se pensa.

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