A paixão secreta de Augusto dos Anjos, tão secreta que ninguém nunca soube, por Sebastião Nunes

Por Sebastião Nunes

O que tem de ser tem força, foi dito e redito.

Era uma jovem baixa, muito magra, de cabelos escorridos e grandes olhos negros num rosto escavado pela tristeza, pelo desencanto ou, por falta de palavra mais justa para dizer o indizível, pela vida.

Ali estava ela, na plataforma da estação ferroviária de Leopoldina, cidade mineira da Zona da Mata, apertando entre os dedos lívidos um livro também magro, que uma única e enorme palavra rotulava: EU.

O que fazia ela ali, desamparada, à espera?

Saltando do comboio com passos vagos, como se o chão lhe fosse estranho e o pé adormecido se recusasse a nele pousar, desceu, esquálido e assustado, assombrado desde tempos imemoriais pela dor de existir mais nada, desceu, repito, o poeta Augusto dos Anjos, há pouco nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueiro, ali mesmo naquela cidadezinha catita, embora mais morta do que viva.

Encontraram-se, quase trombaram um no outro, pois para que teria vindo ela ali, senão para encontrar o poeta, e por que estava ele ali, senão para tão extraordinário e insólito acontecimento, ainda que improvável, ainda que estranhíssimo?

 

O QUE O CÉU UNIU NADA SEPARA

Nada separa o que o céu uniu, foi dito e redito.

Nascido no Engenho Pau d’Arco, numa distante Paraíba do século XIX, foi preciso que brigasse com o governador, foi preciso esperar 30 estirados anos para que, naquela tarde de uma primavera qualquer, lá estivesse ela, ali estivesse ele, parados diante um do outro como se estátuas, até que ela, com voz rouca e difícil, dissesse:

– O senhor poderia me autografar este livro? Me faria muito gosto.

O poeta, tomado de repente pelo pânico do inesperado encontro, não só titubeou como recuou, e teria fugido se a moça, de grandes olhos negros, não repetisse:

– Poderia? Por favor?

 

NINGUÉM RECUSA O IRRECUSÁVEL

Há pedidos que são irrecusáveis, foi dito e redito.

Então, não tendo como negar-lhe o autógrafo tão abruptamente solicitado, de tal forma quase implorado, como se ela a um santo se dirigisse, tudo o que encontrou para dizer à jovem, como uma besta empacada, foi isto:

– A quem?

– A quem o quê? – pois ela desentendeu a questão proposta pelo também magro poeta, que diante dela se inteiriçava ossudo.

– A senhora poderia dizer-me a quem dedicar o livro? – esclareceu.

– Ah! – disse ela espantada e corando, como antigamente se corava, como muito antigamente as pessoas exibiam no rosto a alma. – Sim, é isso, dedique-o para mim.

– Sei, sim – anuiu o poeta. – Dedicá-lo à senhora. É isso o que deseja.

– Sim – respondeu discretamente ela, corando de novo. – É tudo o que desejo, acho que é tudo.

– Está bem – concordou o poeta. – Dedicá-lo. Mas…

 

NÃO DIGA O NOME DE DEUS, DIGA D’US

Não se diz em vão o nome de Deus. Então diz-se D’us, foi dito e redito.

Seria essa a razão do mas? Levá-la a dizer seu nome indizível? Mas não era um nome indizível como Deus, D’us, e ela entendeu a dúvida do poeta, e riu.

– Tem razão – acrescentou ela. – Como sou tonta. Pareço-lhe uma desastrada e confusa criatura, não é mesmo? Pois como adivinharia meu nome?

De fato – concordou o poeta. – Se não me diz o nome, não há como dedicar o livro, não é mesmo?

E o poeta riu. Quem haveria de dizer: o severo poeta de bigodinho amassado, o triste e melancólico poeta da dor e da morte, o poeta riu!

O mundo estava finalmente salvo: pois que os dois – o amargurado e a triste, um em frente da outra, ambos se olhando, eles riram.

E como se nada mais fosse perguntado, e como se nada mais fosse necessário à recriação do mundo, ela disse o nome. E com ele explicou:

– Augusta. Eu me chamo Augusta. É quase como o seu. Tenho 28 anos. Sou professora de português no Grupo Escolar Ribeiro Junqueiro, que o senhor irá dirigir. Tenho acompanhado sua obra desde que morava na Paraíba. Ouvi falar da edição e encomendei o livro. Tenho lido bastante a seu respeito. De bom e de ruim. Mais de ruim. Até a maldade que o doutor Olavo Bilac fez com o senhor eu li. Tremendo de raiva, mas li. Adoro o senhor! Ah, desculpe. Adoro a sua poesia. Amo a sua poesia.

A confissão estava feita. Durante langorosos anos Augusta se guardara para a espantosa declaração. Saiu num rompante. Durante pesados anos Augusto se protegera para nunca ouvir semelhante confissão. A vida de ambos estava, finalmente, completa.

Quatro meses depois Augusto morreu. Nunca mais se soube de Augusta.