Agnès Varda, uma cineasta para cineastas, por Walnice Nogueira Galvão

A modéstia, a firmeza e o senso de humor que a caracterizavam, bem como esse lado que os franceses chamam de “frondeur” e que aproximadamente traduzimos por rebelde, aparecem no discurso com que recebeu o Oscar honorário

Por Walnice Nogueira Galvão

Esta que agora se foi aos 90 anos era um espírito livre: veja-se a carreira excêntrica e até mesmo idiossincrática. Foi membro do grupo inicial “puro e duro” da Nouvelle Vague francesa, de Jean-Luc Godard, François Truffaut etc., que se entrincheirava na Cahiers du Cinéma, a mais renomada revista de cinema do mundo. Seu filme de ficção La Pointe-Courte (1954) antecede e antecipa esse movimento, enquanto dois outros se tornaram clássicos de sua fase inaugural: Cléo de cinq à sept (1962) e Le bonheur (1965). Gradativamente se afastaria do filme de ficção, encaminhando-se para formas mais experimentais, criando um tipo de documentário em que predomina sua fantasia.

Começou a vida profissional como fotógrafa, aliás  fotógrafa oficial, do TNP, o Théâtre National Populaire, de Jean Vilar, que revolucionou os palcos, marcando a estética e postulando a arte para todos. Logo depois, acompanharia seu marido Jacques Démy,  convidado a filmar em Hollywood, onde ficariam por pouco tempo. Do lado dela, resultou da viagem  um inconveniente curta sobre os Black Panthers (1968). No mesmo embalo, tinha ido antes a Cuba e faria Nous les cubains (1963). Bem mais tarde, como um tributo ao marido, que estava agonizando, Agnès fez o filme Jacquot de Nantes (1991), falando da infância dele e de sua incoercível vocação para o cinema, a partir de um olhar muito terno. Dedicaria a ele mais dois filmes: Les demoiselles ont eu 25 ans (1993) e L´univers de Jacques Démy (1995).

Precursora e porta-bandeira do cinema independente, seus filmes não rendiam finheiro, mas ela tampouco se rendia e filmou até praticamente o último dia (Varda d´après Agnès, 2019). A modéstia, a firmeza e o senso de humor que a caracterizavam, bem como esse lado que os franceses chamam de “frondeur” e que aproximadamente traduzimos por rebelde, aparecem no discurso com que recebeu o Oscar honorário. Nele afirma que seus filmes privilegiam os trabalhadores e as mulheres. Ela mesma foi feminista de primeira hora e signatária do histórico “Manifesto das 343”, pela legalização do aborto na França, logo efetivada. E contribuiu ainda com o filme L´une chante, l´autre pas (1977), que trazia a questão a debate. Liderou no ano passado, ao lado de Cate Blanchet, a marcha das mulheres por igualdade no Festival de Cannes.

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Não ganhava dinheiro mas colecionava prêmios. No fim da vida, passou a receber troféus pelo conjunto da obra. Foi a primeira diretora mulher a receber o Oscar honorário, em 2017.  No ano seguinte, candidata ao Oscar 2018 com o documentário Visages Villages, sequer apareceu na lista dos finalistas. Ao que parece, os eleitores da Academia nem viram seu filme, mas ela bateu o recorde de mais idoso candidato (89 anos). O filme foi galardoado por toda parte, inclusive em Cannes, como o melhor documentário de 2017, seja na Independent Spirit Awards americana, seja na Mostra de Cinema de São Paulo, onde levou os prêmios de público e crítica.

Em Cannes, a Palme d´Or honorária – única mulher a recebê-la – coube-lhe em 2015. O César, o Oscar francês, precipitou-se, concedendo-lhe em 2001 um prêmio por conjunto de obra, supondo uma obra encerrada. Um tanto precoce, obrigaria  o César a premiá-la outra vez, por Les plages d´Agnès, em 2009.

Mas os prêmios já choviam sobre ela desde o início da carreira. Seu segundo filme de ficção, Le bonheur (As duas faces da felicidade), levaria dois Urso de Ouro em Berlim em 1965 e Sans toit ni loi (Sem eira nem beira), sobre os sem-teto, levaria dois Leão de Ouro em Veneza em 1985.

Sua panóplia tinha muitas armas e ela se tornaria artista plástica na velhice. Convidada pela Bienal de Veneza (2003), compareceu com uma instalação intitulada Patatutopia: toneladas de batatas, ela mesma camuflada de batata andando de um lado para outro e declamando textos. Outros trabalhos se seguiriam, como a instalação “La cabane du cinéma”, uma cabana construída com negativos de seus filmes, que figuraria numa mostra na Fundação Cartier (2006), na Bienal d´Art Contemporain de Lyon (2009) e correria mundo. Mas até a morte não cessariam as reinações de La Varda.

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Walnice Nogueira Galvão – Professora Emérita da FFLCH-USP

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