As canções de Alberto Nepomuceno

Anna Maria Kieffer grava integral de Nepomuceno

A mezzo-soprano Anna Maria Kieffer e o pianista Achille Picchi lançam, na terça-feira, dia 25, às 19h30, no Instituto Cultural Itaú (av. Paulista, 149, São Paulo), o CD “Alberto Nepomuceno. Canções” (Akron), com 23 das 87 canções do compositor cearense Alberto Nepomuceno (1865-1920). No lançamento, os intérprete mostram algumas obras e fazem uma apresentação audiovisual sobre a vida e a obra do compositor. É um primeiro passo para a recuperação do prestígio de uma obra hoje abandonada aos livros de história da música brasileira, como se Nepomuceno não fosse mais que um precursor do nacionalismo musical e um mestre medíocre. A pesquisa de Anna e Picchi demonstra que ele foi o maior compositor de canções do Brasil e um dos grandes mestres do fin-de-siècle tropical. O projeto da cantora é registrar em CD e divulgar a integral da obra vocal de Nepomuceno.

O disco acrescenta dados inéditos à idéia que se tem sobre o compositor. Afinal, são gravadas pela primeira vez muitas das canções. Anna escolheu as que tinham letra em português e indicação de opus. Há música baseada em versos de Machado de Assis, João de Deus, Gonçalves Dias, Juvenal Galeno, Luís Guimarães Filho, Coelho Neto, Osório Duque Estrada, Gonçalves Crespo e outros poetas da época. A prosódia dessas músicas é impostada e um tanto artificial, reproduzida com fidelidade pela cantora. Mas foi o marco de consolidação do canto em português, ainda considerado monstruoso na época, apesar do ensaio de ópera nacionalista acontecido nas décadas de 1850 e 1860, com encenação de diversas óperas em português. A teimosia de Nepomuceno impôs o canto em português definitivamente por força de suas composições para voz e piano.

Ele não foi, porém, um nacionalista integral. Conforme observa o historiador Vasco Mriz, suas músicas em vernáculo não ultrapassam 30 por cento do total de sua produção. A maioria de seus “lieder” é em italiano, alemão e até sueco. O aprendizado do compositor se deu em Berlim, Roma e Paris, onde estudou órgão com os principais mestres do período. Nascido em Fortaleza, filho de músico, estudou em Recife, dirigindo ali os concertos do Clube Carlos Gomes. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1884, onde tocou piano no Clube Beethoven e na Sociedade de Concertos Clássicos. Na época, pediu bolsa de estudos ao governo para cursar o conservatório de Milão. A bolsa foi negada, mas o escultor Rodolfo Berardelli bancou a viagem do músico à Milão, em 1888, onde estudou como maestro Terziani, o mesmo que havia dirigido a estréia da ópera “Il Guarany”, de Carlos Gomes, em 1870. Depois estudou inscreveu na Akademische Meister Schule de Berlim e na Scola Cantorum de Paris. Em Berlim, compôs a suíte “Série Brasileira”, uma das plataformas inaugurais do nacionalismo musical. A obra utiliza, por exemplo, o tema folclórico “Sapo Cururu” no movimento inicial, “Alvorada na Serra”, o maxixe no “Intermezzo” e no “Batuque” que encerra a obra. Escreveu e fez estrear, na capital francesa, a música de cena para a peça “Electra”, de Sófocles, na adaptação de Charles Chabauldth. Voltou ao Rio em 1895, para assumir a cadeira de órgão do Insituto Nacional de Música. Ao dirigir a apresentação da “Suíte Brasileira”, em 1897, chamou negativamente a atenção da crítica por causa do “Batuque”, que foi chamado de “verdadeiro ultraje à divina arte”. A obra tem orquestração pobre e pouca imaginação, mas é considerada uma conquista pelos nacionalistas. A vida de Nepomuceno no Rio foi uma seqüência de sofrimentos e decepções, como aconteceu com todos os artistas que decidiram prestar serviços ao país. Suas duas óperas, “Ártemis” (1898), com libreto de Coelho Neto, e “Abul” (1899), baseada no drama de Herber Ward, representada em 1913 em Buenos Aires e Rio, com relativo sucesso. Entre 1906 e 1906, foi diretor do Insituto Nacional de Música, o que lhe permitiu algumas viagens ao exterior, como a que o levou à Exposição de Bruxelas em 1910, onde regeu diversas obras de compositores brasileiros. Ao deixar o Instituto, compôs obras sinfônicas, trios e quartetos e obfas para voz e orquestra. Richard Strauss regeu o “Prelúdio do Garatuja” em 1920. Morreu pobre, em casa de um amigo, agonizando enquanto entoava cada vez mais piano um cantochão.

Datam de Paris, 1894, as primeiras canções do CD, entre elas “Ora dize-me que a verdade”, “Amo-te muito”, ambas com versos de João de Deus, “Mater Dolorosa” (Gonçalves Crespo) e “Tu és o Sol” (Juvenal Galeno), canções vincadas pelo romantismo schumanniano, bem como “Medroso de Amor” (Juvenal Galeno), espécie de lundu transfigurado em que o cantor manda embora a moreninha que o enfeitiça. A composição mais recuada data de Petrópolis, 1899, e se intitula “Xácara”. A canção tem um certo sabor de modinha, assim como “Trovas I” (Duque Estrada), de 1901, “Soneto” (Coelho Neto) e sua canção mais conhecida “A Jangada” (Juvenal Galeno), última composição, de 1920. Nestas músicas, os ritmos nacionais aparecem reelaborados de acordo com os preceitos do lied alemão. Vasco Mariz prefere definir o compositro como como “brasileirista” em vez de “nacionalista”, pois ele mais sugere um nacionalismo do que chega a praticá-lo integralmente. Mário de Andrade condena nas canções de Nepomuceno a distorção da prosódia natural do português pelas exigências do ritmo e da melodia. Comete uma injustiça. O CD mostra domínio da prosódia e naturalidade rítmica, apesar da impostação típica das regras do português cantado, ajudadas a serem definidas, aliás, pelo próprio Mário de Andrade. Seja como for, Nepomuceno escreveu em 1895 uma frase que até hoje ecoa no meio musical: “Não tem pátria o povo que não canta em sua língua”. Prova de sua universalidade, Nepomuceno não levou a frase à risca, dedicando-se a diversas línguas e tradições.

A interpretação de Anna Maria Kieffer é moderna, sem prestar fidelidade ao clima prosódico da época. Sua voz precisa sopra ânimo a peças esquecidas e dadas como obsoletas. O papel do piano não é de mero acompanhador de acordes. Picchi ressalta as harmonias sofisticadas e as intervenções do teclado, que muitas vezes se combina à voz como unidade indissolúvel. Os dois músicos mostram que Nepomuceno compõe a trilha sonora do fim-de-século brasileiro. É datada e assim, em sua especificidade temporal, deve ser apreciada. Nepomuceno foi o principal compositor de lieder brasileiro. A condenação da arbitrariedade da prosódia, diga-se de passagem, atingiu também os lieder de Schubert, Beethoven e Schumann, entre outros. A releitura que empreende da obra do compositor cearense só pode acontecer neste momento em que a estética nacionalista já deixou de exercer influência e força institucional e se torna necessário retomar a produção de alguns anjos caídos da Belle Époque. O CD, primeiro de uma série, é uma empresa intelectual e artística de alta significação.

Luís Antônio Giron

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=nxyWTxiMPeA]

 

 

[video:https://www.youtube.com/watch?v=a6s-Z65dKDE

 

 

Fontes: 

http://www.oocities.org/vienna/8179/nepomuceno.html

http://pqpbach.sul21.com.br/2014/11/04/alberto-nepomuceno-1864-1920/

 

             

Luciano Hortencio

Música e literatura fazem parte do meu dia a dia.

20 Comentários

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  1. LÍNGUA PÁTRIA

     

    A GALHOFEIRA E O BATUQUE

    “Não tem pátria um povo que não canta em sua língua.”

    Nepomuceno foi a figura central da cultura brasileira no seu tempo, idealista convicto, “o mais culto e mais capaz dos compositores do seu tempo” […].

    Em A linguagem musical de Alberto Nepomuceno, Caio Sílvio Braz disse sobre o compositor:

    “Nepomuceno não foi um mero precursor. Deixou mais de 200 obras dentre elas uma centena de lieds, peças orquestrais, trios, etc. Fundou as bases da moderna música brasileira.”

    Podemos antever Villa-Lobos ouvindo a “Brasileira” de 1919 ou Ernesto Nazaré em “Galhofeira” de 1894, e tantas outras inspiradas na música popular, que tão bem conhecia e soube prestigiar […].

    [video:http://youtu.be/0Q4WX0gifV8 width:600 height:450]

    Biblioteca Nacional do Brasil dedicava várias páginas à vida e obra de Nepomuceno. Em uma delas aprendemos que:

    “No dia 4 de agosto de 1895, Nepomuceno realizou um concerto histórico, marcando o início de uma campanha que lhe rendeu muitas críticas e censuras. Apresentou pela primeira vez, no Instituto Nacional de Música, uma série de canções de sua autoria em português. Estava deflagrada a guerra pela nacionalização da música erudita brasileira. O concerto atingia diretamente aqueles que afirmavam que a língua portuguesa era inadequada para o bel canto. A polêmica tomou conta da imprensa e Nepomuceno travou uma verdadeira batalha contra o crítico Oscar Guanabarino, defensor ardoroso do canto em italiano, afirmando: ‘Não tem pátria um povo que não canta em sua língua.’

    Reunião da Família Nepomuceno

    O grito de guerra de Nepomuceno foi ouvido apenas um ano depois de ele ter composto as Quatro peças líricas.

    [video:http://youtu.be/n2npsjy61dc width:600 height:450]

    iNFORMAÇÕES:

    http://daniellathompson.com/Texts/Le_Boeuf/cron.pt.26.htm

      1. Calda & Caldo

         

        TOCOTAMEN

        A ilustração seria inserida aquí, mas vacilei e saiu lá em riba.

        Neste post, vou contar um causo, que tem relação com a citação “ganhaste esta moreninha” da cauda levantada.

        Se é verdade Terta?

        É, uai!

  2. Nepomuceno

    Por

    Eliseu d’Angelo Visconti

    Nepomuceno foi autor do projeto de reforma do Hino Nacional Brasileiro e regulamentação de sua execução pública.

    A pianista norueguesa Walborg Bang, retratada por Visconti, ao lado de seus três filhos, no Brasil., casou-se, em 1893, com o compositor brasileiro.

    Sete anos antes, Visconti havia feito o retrato de Alberto Nepomuceno tocando órgão, em Paris, onde os dois artistas brasileiros aperfeiçoavam seus estudos.

      1. Mabomubra

        Don Luc e o Nepô são feras.

         V. Ex.ª é o resgatador-mor dos monstros sagrados da música brasileira.

        torod2

        Você caminha dentro e eu gosto muito…

        Fui!

        1. O Lobo do Mar

          Dom JNS!

          Eu sou como você! Você é um verdadeiro Lobo do Mar! Numa corrida de jangadas vocé é sempre o de diante e eu sempre o de detrás… Três, três, passarás…

          [video:https://www.youtube.com/watch?v=QFg6ljzC1r4%5D

          [video:https://www.youtube.com/watch?v=U9rIlC7JPDE%5D

          [video:https://www.youtube.com/watch?v=upnbdlBvmA%5D

          [video:https://www.youtube.com/watch?v=i0cwaN_HY6Y%5D

          [video:https://www.youtube.com/watch?v=erdWOYWbfTY%5D

      1. O que ha na cabeça das cantoras ?

        Esse post me deu a irresistivel vontade de assistir um concerto na Salle Pleyel ou na Cité de la Musique. Quem sabe Anna Maria Kieffer e sua bela voz não passam por aqui! 

         

  3. Darius Milhaud

     

    A influência da música brasileira sobre a música de Milhaud

    Darius Milhaud

    A influência brasileira na música de Milhaud durou por muitos anos, ainda que de forma intermitente. 

    Darius Milhaud e Henri Paul Claudel com Hoppenot no Brasil

    Darius Milhaud e Henri Paul Claudel com Hoppenot no Brasil

    Para os amantes do choro, é interessante notar que Brazileira, o terceiro movimento de Scaramouche, composto por Darius Milhaud, tem uma notável semelhança com Ainda Me Recordo, de Pixinguinha, e, estranhamente, a sua abertura soa como o tango Brejeiro, de Ernesto Nazareth.

    [video:http://youtu.be/t-Av_Yl25X0 width:600 height:450]

    [video:http://youtu.be/sOzFyNPiiqc width:600 height:450]

    [video:http://youtu.be/zYnC2xOQDM8 width:600 height:450]

    Após Le Boeuf sur le Toit (1919) veio Saudades do Brasil em solo de piano, op. 67 (1920) e orquestra, op. 67b (1920-1921), um conjunto de danças com os nomes dos bairros do Rio,e dedicado a vários amigos que ele conhecia no Brasil:

    Sorocaba (para Madame Regis de Oliveira)Botafogo (para Oswald Guerra)Leme (para Nininha Velloso-Guerra)Copacabana (para Godofredo Leão Velloso)Ipanema (para Arthur Rubinstein)Gávea (para Madame Henrique Oswald)Corcovado (para Madame Henri Hoppenot)Tijuca (para Ricardo Vines)Sumaré (para Henri Hoppenot)Paineras (para La Baronne Frachon)Laranjeiras (para Audrey Parr)Paysandu (para Paul Claudel)

    Em 1926, Darius Milhaud reutilizou Galhofeira, de Alberto Nepomuceno, desta vez inserindo-a no seu Souvenir de Rio, parte XI do Le Carnaval d’Aix, Op. 83b para piano e orquestra.

  4. LOBOLO

     

    Vaca Estrela, Boi Fubá, Lobolo e Madiba

    “Seu dotô me de licença, pra minha história contá. Hoje eu tô na terra estranha e é bem triste o meu pená.”

    “Descasei, joguei, investi, desisti e, se há sorte, eu não sei, dessa vez, eu vi” e desfiz, sem choro e nem vela, o meu recente pedido de casamento de além mar.

    Só sei que, sem conhecer, pessoalmente, a gata de Nacala e, sem fazer o indispensável Teste Drive, desisti do casório insano e que Deus me livre e guarde para sempre.

    “Eu sou caipira – não sou de Pirapora – e a nossa Senhora de Aparecida, iluminou a mina escura e funda… o trem da minha vida” – só pode ser isso.

    Fiz todas as tratativas com o Ibraimo, o irmão da Maninha, que estagiava como maquinista, na CVRD, e preparei as malas para conhecer todos os inferninhos e todos os points escondidinhos da praia de Fernão Veloso, qué é banhada pelo Oceano Índico.

    Nampula, Moçambique

    Encomendei um vermelho fresquinho – peixe muito saboroso, quando servido frito em postas – pra fazer um sashimi num boteco à beira da praia.

    Nacala Praia de Fernão Veloso

    E, prá conquistar o coração da Maninha, escrevi uma romântica mensagem prá ela:

    “Moça, me espere amanhã, levo o meu coração, pronto pra te entregar. Moça, moça eu te prometo, eu me viro do avesso, só pra te abraçar. Eu quero me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder. Eu quero, eu quero… eu quero…”

    Quando mais perto ficava o dia da minha partida para Moçambique, mais o meu coração acelerava o batimento, exibindo com uma arritmia danada, que piorou muito depois que tomei a vacina contra o Ebola, preparada com o caldo de galinha caipira, à moda mineira, misturado com o caldo de piranha da receita típica do Mato Grosso do Sul.

    Para acabar com a ansiedade e acalmar a minha dor dilacerante, marquei a data da viagem a reservei, imediatamente, a passagem aérea para Nacala.

    Para meu espanto, quando contei ao Ibraimo – que retornou pra Moçambique no início do mês de outubro – que eu  levaria a minha sanfona, o meu violão, um pandeiro e um triângulo, além, é claro, de três litros de cachaça da roça, ele arregalou os olhos e fez a revelação bombástica que me salvou da degola:

    – Jones, ela é mulçumana e ora cinco vezes durante o dia. Ela não vai acompanhar as suas noitadas e nem vai levar uma vida desregrada como a sua.

    – O quê? O quê que você está falando? Ela reza quantas vezes?

    – Ela ora às 4:00 horas da manhã; às 12:00 horas, às 15:00, às 18:00 e às 19:30 horas.

    – Cê tá maluco Ibraimo? E na hora do rala-e-rola? Ela também pára pra rezar?

    – Ela é mulçumana…

    – Crê’m Deus Pai! E o lobolo como é que  vai ficar? Já tô com a documentação que foi expedida pra levar, de navio, um boi fubá e trinta vacas estrelas pra dar prá sua família. E aí?

    bixo boi sussa

    – Você vai se casar com ela?

    – Ibraimo, Meu Bom, “como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar”, mas nem tanto!

    * * *

    A tradição do lobolo tem sido tema de muitas controvérsias em Moçambique. Mesmo depois da independência, que tentou desvalorizar os antigos costumes, o lobolo vingou e muitos jovens começam também a valorizar esta cerimônia.

    O lobolo apesar de estar regenerado na forma e no conteúdo, mantém, até hoje, o sentido social que representa, daí que, afirmar que o lobolo é uma compra traduz uma forte agressão naquilo que são os costumes, crenças e práticas culturais de Moçambique.

    photo_1373125887279-1-HD.jpg

    O apaixonado Madiba deu 55 cabeças de gado como lobolo para a família de Graça Machel, esposa do falecido presidente Samora Machel.

     

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