Cartões postais da capital baiana estão no passado

Atrações que encantavam visitantes, hoje, agonizam

“O pessoal convida a visita pra casa, mas não limpa a casa”, diz o guia turístico Rosevaldo Souza ao definir a situação da relação entre Salvador e os turistas. Sem a devida manutenção dos pontos turísticos e a estrutura para atender aos visitantes, a frustração fica estampada nos rostos de quem ainda se arrisca a vir para cá. “A cidade é muito suja e tem que melhorar bastante. De onde a gente vem, a cidade é bem mais preparada não só nos pontos turísticos”, compara a catarinense Janaina Busarello.

A imagem da cidade bonita, alegre e com uma cultura rica está sendo transformada graças ao esforço das autoridades locais. Os tradicionais pontos turísticos – Elevador Lacerda, Abaeté, Pelourinho e Forte São Marcelo – estão cada vez mais esquecidos e quem trabalha nestes locais já sente a ausência de turistas. “As pessoas chegam do Elevador e voltam daqui mesmo”, afirma o guia Rosevaldo.  Em novembro, 32% dos quartos de hotéis estavam vazios em Salvador, enquanto em Aracaju e Fortaleza estes índices foram de 23% e 15%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.

“Estrutura é bem antiga”

Um dos maiores símbolos da capital baiana, o Elevador Lacerda é uma dor de cabeça para os moradores de Salvador e uma decepção para os turistas. As filas para usar o equipamento – sujo e com três das quatro cabines fechadas – dobram na descoberta Praça Tomé de Souza. Para os turistas, a surpresa maior vem depois da entrada no elevador, que tem até teias de aranha na parte interna.

“Deu um medo. A estrutura é bem antiga”, declarou Cledir Ferrari, que veio de Santa Catarina para conhecer a capital baiana, enquanto esperava na fila a vez de descer no Elevador Lacerda. Além dos problemas estruturais e de limpeza, os turistas ainda têm de lidar com o assédio dos vendedores e pedintes durante o deslocamento entre as cidades alta e baixa.

Segundo o guia turístico Rosevaldo, o número de visitantes tem diminuído no local ao longo dos anos. Ele conta que a maioria dos turistas vai ao Centro Histórico por conta dos roteiros turísticos e da proximidade com o porto de Salvador, que deve receber cerca de 260 mil pessoas este ano segundo a Codeba. No entanto, a chegada pelo terminal marítimo não é das melhores e a primeira imagem de Salvador é triste. “A primeira ‘visão’ dos turistas é o cheiro de xixi e cocô no porto da cidade”, diz o guia Hector Pertierre.

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A Transalvador disponibiliza ônibus gratuitamente, durante a reforma do Elevador Lacerda, para o transporte entre as Praças Tomé de Souza e a Cayru.

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Pelourinho redescobre-se

A baiana Rosa Rodrigues levou o amigo Carlos Oliveira, guia turístico no Rio de Janeiro, para passear nas ruas de pedra do Pelourinho e se queixou bastante da deficiência na prestação de serviços aos turistas. “As baianas só vendem acarajé depois das 17h, mas os turistas sentem fome em qualquer hora. Pela noite, não tem nada aqui. Fecha tudo, porque você fica amedrontado”, afirma Rosa.

Carlos acredita que é preciso revitalizar o Centro Histórico e investir mais em pousadas, para que os turistas se hospedem no Pelourinho. “Acho que para os turistas é mais interessante ficar aqui do que em um hotel de luxo. Isso aqui é a Bahia. E, além disso, voltar às 2 da manhã é complicado”, conclui.

Rosa acredita que o público que visita o Pelourinho quer ver arte e cultura. Ela ainda pontua a ausência de bares e restaurantes que valorizem gênios baianos como o músico João Gilberto. “O povo que vem para Salvador não vem só para a praia, vem para conhecer a cidade colonial. Ele quer ver arte, cultura, andar nessa pedra, ver a negritude na rua”, opina.

Apesar dos problemas com o lixo acumulado em várias ruas e da estrutura deficiente de diversos casarios, ainda é possível ter esperança após o passeio pelo Pelourinho. Diversos locais, entre eles a frente da Fundação Casa de Jorge Amado, passam por reformas. “Sinto um movimento de recuperação do Pelourinho”, afirma Rosa.

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Fama de insegura

A Lagoa do Abaeté continua bonita – só que vazia. A pouquíssimos dias do início do verão, época em que Salvador mais recebe visitantes, um de seus lugares mais famosos amargava a presença de menos de dez turistas numa manhã ensolarada. “Antes, era nota dez. Agora, é dois”, contou Arivaldo, comerciante no Parque Metropolitano do Abaeté.

A falta de visitantes deve-se à fama de insegurança. “Antigamente a gente ia pra lagoa, namorava. Hoje, quem tem coragem de ir? É pedir para ser assaltado ou coisa pior”, disse o garçom Everaldo Santos. Para o comerciante Arivaldo, no entanto, o problema não é mais a falta de segurança. “Já vi cenas absurdas, assalto à mão armada. Antes, tinha visitante e não tinha polícia. Hoje, tem polícia, mas não tem visitante”, disse.

A diretora do Parque, Eliene Leão, diz que há seis meses não há registros de violência no local, mas a imagem negativa não foi desfeita. “Nós ainda temos uma demanda turística muito baixa para o nível dos atrativos que temos no local. O maior público hoje, mesmo, é a própria população de Salvador”, disse.

Vindos de São Paulo, a professora Andréa Gonçalves e o industriário Geovane Macedo disseram ter adorado o lugar. “A gente, como turista, achou lindo”, afirmou Andréa. Mas, apesar da animação do trio paulista, os anfitriões de Itapuã sentem falta do antigo Abaeté. “Está bem estragado, sem estrutura. Para o que já foi, poderia estar melhor”, declarou a moradora Jesuína Almeida, 54 anos.

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História trancada

Os mais de 280 anos de história do Forte de São Marcelo, apelidado por Jorge Amado como o umbigo da Baía de Todos os Santos, estão trancados e inacessíveis à população e turistas. O tradicional passeio à fortificação marítima está suspenso desde março de 2011.

Segundo a assessoria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o contrato com a Associação Brasileira dos Amigos das Fortificações Militares e Sítios Históricos (Abraf), que era responsável pela manutenção do Forte, foi rescindido por causa da situação de deterioração do local. O órgão ainda informou que repassará para a iniciativa privada a concessão do monumento. A iniciativa, chamada de Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), é inédita do Brasil.

No entanto, somente um ano e oito meses depois de suspensão da visitação ao monumento, o edital de licitação com as regras para receber as propostas dos interessados foi publicado no Diário Oficial. Ainda segundo a assessoria do Iphan, 12 interessados e somente duas propostas foram recebidas.

Anualmente, mais de cem mil pessoas visitavam o Forte São Marcelo, segundo informações da empresa responsável pela conservação do local.

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Fotos: Dário Guimarães / Metropress

Fonte: http://www.metro1.com.br/portal/?varSession=noticia&varEditoriaId=5&varId=24002

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