Cinema: A Noiva Síria

Do Cinequanon

A NOIVA SÍRIA

Muitos são os filmes que têm retratado as disputas entre Israel e Palestina, mas A Noiva Síria se diferencia não apenas pela mudança geográfica do conflito (desta vez localizado na fronteira entre Israel e Síria e envolvendo uma comunidade drusa[1]) como também pela atenção e carinho despendidos na construção de suas personagens.

Neste novo filme do israelense Eran Riklis, baseado no roteiro da palestina Suha Arraf, antes dos grandes conflitos geopolíticos, existem ospequenos dramas pessoais. As personagens de Riklis não são meros fantoches para ilustrar a tensão no Oriente Médio, mas possuem vidas e dilemas próprios. Emulando a batalha de seus próprios países, as personagens de A Noiva Síria – em especial as mulheres, foco principal do filme – lutam também elas para lidarem com as barreiras que lhes foram impostas. Assim, Mona, a noiva do título, luta para superar a burocracia kafkiana que a impede de concretizar seu casamento, sua irmã Amal (interpretada por Hiam Abbass, conhecida do público brasileiro por suas atuações em MuniqueFree Zone e Paradise Now e Lemon Tree) esforça-se para vencer o preconceito de seu marido e da sociedade para poder prosseguir com seus estudos enquanto sua filha enfrenta o pai em nome de uma paixão adolescente.

Obviamente a situação sócio-política da região não serve apenas como pano de fundo para o enredo, mas entrelaça-se, invade e interfere na vida dessas personagens. Isso se nota desde a primeira seqüência do filme,onde Mona, já com seu vestido de noiva, caminha pelas ruas do bairro repletas de bandeiras negras, luto pela morte do presidente sírio, e se prolongará ao longo do filme, nas diversas dificuldades criadas em torno de seu casamento em função de sua situação peculiar: apesar de serem ambos drusos, a noiva vive nas colinas de Golã, território ocupado por Israel desde 1967, enquanto o noivo mora na Síria, fazendo com que o casamento deva ser realizado em território neutro, na fronteira entre os dois países e sob a supervisão da Cruz Vermelha.

 

Por vezes, a multiplicidade de histórias paralelas e a complexidade da situação vivida pelas personagens torna o filme um pouco confuso e faz com que algumas histórias não sejam satisfatoriamente desenvolvidas (como no caso do relacionamento entre uma francesa voluntária da Cruz Vermelha e o irmão galanteador da noiva), mas a simpatia que o filme reserva a todas as suas personagens, recusando-se a estigmatizar vilões ou vítimas, acaba por compensar essas deficiências. 

Ao final, Riklis aposta na perseverança e coragem individual como uma possível saída para os impasses gerados pelas políticas equivocadas no Oriente Médio. Sem pretensões de ser um retrato definitivo dos impasses da região, A Noiva Síria consegue misturar conflitos pessoais, políticos e culturais sem tornar-se didático ou enfadonho e, ao mesmo tempo, sem deixar de dar o devido peso e importância a uma questão tão complexa. 

[1] Os drusos são uma comunidade sem pátria (vivem principalmente no Líbano, Israel, Síria e Jordânia), não são considerados muçulmanos nem cristãos (embora sua religião seja influenciada por ambas) e, devido às perseguições religiosas que já sofreram, costumam dissimular sua própria origem (assumindo a religião dos locais onde vivem e mantendo suas próprias convicções em segredo).

 

A cultura de países do Oriente Médio parece ser um mistério, às vezes. Como um povo inteiro pode não ter nacionalidade? Como uma mulher é capaz de se casar com alguém que nunca tocou e, além de tudo, aceitar nunca mais ver sua família por conta da união? Como um simples carimbo pode atrapalhar a vida de tantas pessoas? São essas as questões que permeiam A Noiva Síria .Esse filme me foi indicado por um amigo na ocasião em que postei sobre Lemon Tree, somente hoje tive oportunidade de assistir. A direção e muitos dos atores são os mesmos de Lemon, assim como o tema, a discórdia no Oriente Médio.

Usando um casamento arranjado como ilustração dos absurdos criados pelas tensões étnicas da região, “A Noiva Síria” consegue divertir o espectador, ao mesmo tempo em que o comove.

A Noiva Síria discute, também, o papel das mulheres dentro dessa sociedade. Renegadas a segundo plano, casam-se com quem

 a família escolher, não têm direito a estudo, muito menos voz político-social. De uma forma leve, um tanto quanto triste – afinal, ver uma noiva que nunca sorri não é nada feliz -, a produção apresenta a situação tanto dos moradores de Majdal Shams quanto das mulheres no Oriente Médio, em geral, de uma forma que passa longe do panfletário, dando leveza à comédia dramática.

Ao mesmo tempo em que ela está triste por não poder mais ver sua família, Mona deseja mudar de vida completamente e é isso que o casamento significa para ela. Na fronteira, juntam-se a família, a polícia – atrás do pai de Mona, que não poderia estar ali por causa da liberdade condicional -, o funcionário do governo responsável pelo casamento (que em nada difere de funcionários públicos brasileiros, o que é engraçado de observar), os policiais que vigiam a fronteira, funcionárias da ONU (Organização das Nações Unidas) e a família do noivo.

Boa parte da história acontece literalmente na fronteira entre Síria e Israel: a região das Colinas de Golan, onde os drusos vivem sob domínio israelense há anos.

Ali, Mona se prepara para o casamento arranjado com seu primo Tallel , um ator de sitcom da televisão síria que ela não conhece pessoalmente.

Infelizmente, há um probleminha: a partir do momento em que atravessar a fronteira para unir-se a seu marido, ela não será autorizada a retornar a seu povoado natal e não poderá mais ver sua família.

Um grande elenco de personagens se mistura à situação, incluindo o irmão mais velho de Mona, Hattem, que incorreu na ira de seu pai, anos atrás, ao abandonar a família para casar-se com uma médica russa; e seu irmão mais jovem, Marwan, um empresário não inteiramente honesto que hoje vive na Itália.

Também aparecem sua irmã mais velha, Amal, de tendências feministas e mãe de duas filhas, (Moderna demais para a tradicional aldeia, ela luta para ingressar na faculdade agora que suas filhas estão crescidas. Para ela, nunca mais ver a irmã mais jovem é doloroso demais); o marido desta, Amin, que rejeita as tendências liberais da esposa, e, finalmente, o patriarca da família, Hammed, um ativista árabe.

Uma funcionária da Cruz Vermelha, Jeanne, faz o possível para tentar ajudar a facilitar todos os trâmites complicados, sem muito sucesso.

Equilibrando-se com habilidade entre drama familiar, farsa bem-humorada e comentário político, o filme nunca perde o rumo, apesar da complexidade do palco em que a ação acontece, e consegue infundir à história tanto humor quanto drama genuíno. Mona segue para seu casamento em meio a uma manifestação política entre os brados de “Sacrificar o próprio sangue em nome nacional! Com honra e com sangue lutamos por Golan, União e patriotismo Golan é da Síria”. Com seu pai sendo um dos líderes da passeada e com a ameaça de ser preso por estar em liberdade condicional por motivos políticos.

Com seu grande número de personagens retratados com profundidade e simpatia (e representados à perfeição pelo elenco), “A Noiva Síria” realiza uma proeza rara: fundir o pessoal e o político de maneira perfeitamente afinada.

Espero que gostem da indicação.

Beijos a todos! Tânia.

http://lindaoriental.blogspot.com.br/2009/11/noiva-siria.html

      • Informações Técnicas
        Título no Brasil:  A Noiva Síria
        Título Original:  The Syrian Bride
        País de Origem:  França / Alemanha / Israel
        Gênero:  Drama
        Tempo de Duração: 97 minutos
        Ano de Lançamento:  2004
        Estreia no Brasil: 19/05/2006
        Site Oficial:  http://www.syrianbride.com
        Estúdio/Distrib.:  Europa Filmes
        Direção:  Eran Riklis 

  

 

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