Sonic e a vitória dos Robotiniks financiados pela DARPA, por Fábio de Oliveira Ribeiro

De uma maneira sutil e indireta “Sonic - o filme” faz parte do esforço ideológico dos militares dos EUA de lavar-limpo seus principais objetivos

Sonic e a vitória dos Robotiniks financiados pela DARPA

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

“O filme é top. Totalmente fiel ao jogo. Eu adorava jogar Sonic e amei o filme. Jim Carrey está perfeito como Dr. Robotnik.” Essas foram as palavras utilizadas por Erika para descrever a obra de Jeff Fowler. Erika tem 24 anos e ficou hipnotizada durante a projeção do filme. Com sua expressão corporal ela demonstrou um grande envolvimento emocional com “Sonic- o filme”, confirmando sua afirmação acerca da predileção pelo jogo.

A simetria entre o jogo e o filme me parece evidente. É possível descrever “Sonic- o filme” com uma descrição do jogo.

“Amplamente aclamado como ‘o jogo mais rápido do planeta’ quando do seu lançamento no início da década de 1990, o Sonic não perdia quase tempo com com enigmas complicados ou façanhas extenuantes de destreza manual. A maior parte do tempo você corria às cegas, rolando em alta velocidade por um pano de fundo luminoso, ricocheteando, despencando e sendo catapultado caminho afora. A despeito de todo movimento, o pobre viciado no Sonic tinha pouco controle sobre as ações do personagem na tela; só havia realmente duas opções – pular e correr mais – e, praticamente qualquer combinação dos dois produzia algo de interessante na tela. A falta de controle não era percebida como uma deficiência porque o sentido do jogo – o que fez dele um sucesso estrondoso – estava no puro prazer de se mover, de se mover rápido. Era menos um jogo do que um brinquedo em que se ‘andava’. Seu código genético tinha mais a ver com o da montanha-russa do que com o jogo de tabuleiro.” (Cultura da Interface, Steven Johnson, Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2001, p. 159)

O filme realmente parece uma montanha russa. No momento em que a correria é interrompida (cena em que o Sonic recebe um tiro de dardo tranquilizante) a trajetória do personagem é interrompida e redefinida. Sonic é mais rápido do que qualquer coisa, mas ele não foge do projétil. Ele escolhe ser tranquilizado porque cansou de ficar sozinho? Essa é a única pergunta sugerida pelo filme, que no mais não contém enigmas complicados.

“Sonic – o filme” é uma obra fácil concebida para encantar pessoas acostumadas com um jogo que não exigia façanhas extenuantes de destreza manual ou intelectual dos jogadores. Sonic sai do ponto A (correria solitária) e chega ao ponto B (heroísmo solidário) com ajuda dos seus novos amigos. No final o pobre Dr. Robotnik, vilão que desejava dissecar Sonic e preferia a companhia das suas máquinas, recebe o que merece. Ele termina sendo confinado sozinho num planeta cheio de cogumelos.

Antes do filme terminar, entretanto, os militares que haviam contratado o Dr. Robotnik por causa dos defeitos dele se tornam estranhamente sorridentes e compreensivos. Nesse sentido, “Sonic – o filme” pode ser considerado uma metáfora perfeita do novo estilo norte-americano de vida. Não importa quanto os militares dos EUA custam (e eles já custam quase todo o orçamento daquele país) ou o que eles realmente façam (cometer crimes de guerra e rejeitar qualquer supervisão do Tribunal Penal Internacional), o fato é que o militarismo gringo não pode ser objeto de qualquer questionamento num filme “made in USA”, pois ele é intrinsecamente virtuoso.

Sonic, o jogo, não tinha qualquer compromisso específico com esse militarismo. “Sonic – o filme” funciona como uma interface do novo “American way of death”, pois a obra de Jeff Fowler tem uma função: matar na fonte qualquer crítica que possa ser feita ao militarismo. Isso é obtido mediante a dissociação que foi feita entre o Dr. Robotinik e o US Army, corporação que na realidade tem gasto dezenas de bilhões de reais para realizar o sonho de construir um exército totalmente mecanizado.

De uma maneira sutil e indireta “Sonic – o filme” faz parte do esforço ideológico dos militares dos EUA de lavar-limpo seus principais objetivos. Enquanto o respeitável público acreditar na virtude do militarismo “made in USA”, o US Army poderá continuar a construir exércitos totalmente mecanizados e informatizados capazes de realizar assassinatos seletivos ou massivos sem causar “danos colaterais”.

Os “danos colaterais” nesse caso não são as vítimas do imperialismo nos territórios invadidos e devastados pelos EUA e sim os pobres soldados norte-americanos que voltam para casa despedaçados, mutilados e traumatizados. Os veteranos custam uma pequena fortuna ao orçamento militar do império. Esse problema também será resolvido pelos Robotiniks de carne e osso sustentados com as verbas do DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency).

Frank Zappa disse certa feita que a política era um ramo de entretenimento do complexo militar industrial. “Sonic – o filme” pode ser considerado uma descomplicada peça de propaganda do militarismo norte-americano. A função da obra de Jeff Fowler é fazer os espectadores ficarem paralisados diante de uma montanha russa enquanto a correria do US Army para realizar seus objetivos não é interrompida. “Sonic – o filme” é um dardo tranquilizante ideológico.

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