O Papa e a desqualificação da correção como recurso de reação

Nas últimas semanas discutimos várias vezes a crescente frequência com que comunicações desconstrutivas são usadas. Infelizmente isso tem substituído o que seria mais desejado pela sociedade, que seria o discurso propositivo.

Alguns exemplos:

– Serra acusa Dilma de preparar dossiês (que sabia-se internos ao PSDB) e de ser favorável ao atendimento de urgências por aborto (quando ele assinou a portaria que Dilma endossava);

– Serra acusa o PT de ser “do quanto pior melhor”, quando na realidade nos últimos 4 anos a maioria das obstruções à mudanças, das contradições e dos retrocessos votados no Congresso foram iniciativa do PSDB (não é aqui para se discutir isso, mas poderia listar 5 exemplos relevantes);

– Alguns líderes religiosos acusam o PL 122/06 de ser gerador de privilégios para gays, quando na realidade a intenção do projeto é reduzir os privilégios dos preconceituosos, que hoje não sofrem reprimenda alguma;

– Pessoas insatisfeitas com a movimentação feminista tentam barrar debates ao rapidamente desqualificar o discurso feminista como “feminazi” ou “ditadura do politicamente correto”, sem oferecer nenhuma argumentação.

– Da política externa estadunidense há tantos exemplos que é ocioso falar, mas citamos seu discurso em relação a governos da América Latina.

Em todos esses casos é sempre clara a causa em questão e quem seria a parte desfavorecida, aquela “pela mudança”, “minoritária” ou de algum modo atualmente a mais fraca e demandante, mas o hábito de conservar estruturas passadas (reação) é tão disseminado que fica fácil deixar o adversário temporariamente sem ação, apenas acusando o seu discurso de ser exatamente aquilo que se buscava mudar.

Com a repetição do processo, conseguiu-se outra coisa : que pessoas bem intencionadas comprassem a idéia de que o discurso PC é repressor ou mesquinho, quando na realidade não há nenhum exemplo concreto de alguma injustiça obtida por esse discurso, muito pelo contrário. (Exemplos concretos nunca são oferecidos pelos que criticam o discurso politicamente correto.)

Em outras palavras, a piada do “pega ladrão” é mais verdadeira do que nunca.

Veja-se que interessante as declarações recentes de Bento XVI.

Sabemos do histórico exercício de poder da ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) e de sua influência atual sobre metade da Europa e toda a América Latina. Normalmente os governos fazem concessões à ICAR, como exemplo o acórdão entre Brasil e Vaticano de 3 anos atrás. A Itália aceitou ser o único país da Europa Ocidental desenvolvida a não ter parceria civil homoafetiva.

Na maioria dos países latinos e em alguns da Europa Oriental o catolicismo é religião de pelo menos 75% das pessoas. Por óbvio isto é uma situação que de modo algum pode ser considerada minoritária ou reprimida. E há garantias para a liberdade religiosa em todos os países europeus, inclusive graças à compreensão de que os imigrantes islâmicos foram convidados e são necessários à sua estrutura econômica (e são metade das crianças nas escolas de algumas cidades da Alemanha, Holanda e França.)

Não obstante, Bento XVI denuncia a “cristianofobia”. Não sei se a seleção de frases publicada hoje pelo terra foi viesada ou não, mas faço notas para algumas partes que considerei importantes no que se refere ao que expus:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4847337-EI294,00.html

Papa denuncia “cristianofobia” crescente na Europa

O papa Bento 16 expressou nesta quinta-feira a preocupação profunda da Igreja Católica com “a hostilidade e o preconceito” contra o cristianismo verificados na Europa, dizendo que o secularismo crescente é tão negativo quando o fanatismo religioso.

 

(Nota: o secularismo apenas retirou a capacidade da ICAR de interferir na legislação civil, mas não impediu em nada a prática religiosa cotidiana. Um exemplo são as isenções de impostos no Brasil, que provavelmente são comuns na Europa também.)

 

Na mensagem do Dia Mundial da Paz da Igreja Católica, comemorado em 1 de janeiro, ele também reiterou suas condenações recentes à falta de liberdade religiosa em países do Oriente Médio onde os cristãos formam uma minoria, como o Iraque e a Arábia Saudita. Bento 16 disse que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido do mundo e que é “inaceitável” que em alguns lugares eles tenham que colocar suas vidas em risco para poderem praticar sua fé.

Mas ele falou com mais contundência sobre a Europa, onde a Igreja diz estar sendo atacada por alguns governos e instituições europeias, em questões como o casamento homossexual, o aborto e o uso de símbolos religiosos cristãos em locais públicos.

(Nota: as iniciativas dos governos são apenas para proteger os direitos de minorias afetados pelo discurso da ICAR. A ICAR é geralmente a atacante, somente é atacada quando se revela obstrutiva. O alvo aqui pode ser a recente iniciativa da Comunidade Europeia de questionar porque apenas a Itália não aceita parceria civil homoafetiva. Talvez possa também ser tentativa de reversão da legislação pró-aborto da Itália.)

“Manifesto também minha esperança de que no Ocidente, e especialmente na Europa, seja encerrada a hostilidade e o preconceito contra cristãos pelo fato de eles estarem determinados a orientar suas vidas de maneira consistente com os valores e princípios expressos no Evangelho”, disse ele na mensagem.

(Nota: quem não segue os preceitos da ICAR são seus fiéis. Nenhum governo faz propaganda contra a ICAR ou pede que os católicos deixem de ser católicos. Se o alvo aqui forem as várias propagandas governamentais pelo uso de preservativos seria anacrônico demais.)

“Que a Europa, em vez disso, se reconcilie com suas raízes cristãs, que são fundamentais para compreender seu papel passado, presente e futuro na história”, disse ele.

(Nota: não há crise do cristianismo na Europa. Em alguns países, como Alemanha, o governo até intermedia sistemas de doação descontados em folha de pagamento. Nos países europeus há muito mais vocações, como percentual da população, do que na América Latina. O propósito pode ser se defender dos questionamentos aos casos de pedofilia ou a recente lei britânica que proibiria igrejas e escolas ligadas a igreja de despedirem gays apenas por orientação sexual.)

A mensagem, este ano intitulada “Liberdade Religiosa, o Caminho para a Paz”, é tradicionalmente enviada a líderes mundiais e instituições nacionais e internacionais, como as Nações Unidas.

O papa pôs no mesmo nível aquilo que o Vaticano descreve como “secularismo agressivo”, como o casamento homossexual e as restrições a símbolos religiosos como crucifixos, presépios e outras tradições, e o fanatismo religioso.

(Nota: o casamento homossexual é uma demanda civil que remonta desde os anos 70 e já foi muito debatido e considerado justo pela maioria das populações e de seus legisladores. O incômodo terá sido Portugal ter atualizado sua legislação este ano? As restrições a símbolos religiosos na França foram adotadas por demandas dos próprios cristãos, que não desejavam que islâmicos os usassem, sendo assim apenas se buscou a isonomia.)

“É preciso que fique claro que o fundamentalismo religioso e o secularismo são semelhantes, na medida em que ambos representam formas extremas de uma rejeição do pluralismo legítimo e do princípio da secularidade.”

(Nota: quem está rejeitando o pluralismo mesmo?)

Uma autoridade do Vaticano que apresentou a mensagem do papa disse em entrevista à imprensa que entre 200 milhões e 300 milhões de cristãos no mundo “enfrentam ameaças diárias de assassinato, espancamento, prisão, e outros 350 a 400 milhões são discriminados em empregos e habitação”.

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