Margarete e Eu


Em 1983, cansado da falta de opções no Brasil, casei-me, junto com minha primeira esposa nos mudamos para Londres. Ela tinha uma amiga, Susanne, recém casada, que precisava alugar um quarto de seu apartamento para poder pagar o financiamento; o que ela e o marido ganhavam não era suficiente. A ideia era fazer um casamento cruzado, eu me casaria com a Susanne, e minha mulher com o marido dela; assim conseguiríamos visto de permanência e poderíamos ficar e trabalhar sem medo da imigração, o temido Home Office, que na época (e ainda hoje) mirava principalmente os latino americanos.

Chegamos em fevereiro de 1984 (um ano emblemático para viver ilegal em Londres) depois de mais de 1 mês num navio cargueiro. Arranjei emprego como lavador de pratos num restaurante em Covent Garden onde pegava às 09:00 da manhã, só saia depois de lavado o ultimo prato da janta, e arrumado a cozinha inteira. Na maioria das vezes só conseguia sair depois da meia noite, quando já era tarde demais para pegar qualquer ônibus, trem ou metrô para ir para Riddlesdown, em Croydon, a mais de 1 hora de trem do centro. Várias noites, por 3 meses, dormi na Victoria Station, um país desenvolvido, mas cadeiras de estação mais desconfortáveis que banco de praça do Kassab.

Na época eu já me intitulava ‘de esquerda’, mas de economia não entendia chongas. Não tinha a menor noção do que fosse neoliberalismo, mas antipatizei com a Margarete desde o início. Aliás, já não ia com os cornos dela desde 82, por conta da guerra das Malvinas. Não que apoiasse os ditadores argentinos e sua estratégia diversionista e supostamente patriótica de iniciar o conflito. É que desde as aulas dos mestres Ademir Maia (história) e José Luiz (geografia) eu compreendia e detestava o imperialismo britânico, aliás, qualquer imperialismo, principalmente o estadunidense.

Na época as iniciativas criminosas de tentar acabar com o estado de bem estar social (welfare state) ainda eram só um esboço da dilapidação do Estado como promotor da igualdade social e corregedor das diferenças. Quando precisei de médico, por conta de um furúnculo, crônico, que reincidiu depois de eu colocar a mão ferida num balde, onde repousavam talheres sujos, que esperavam minha ação de lavador mascarado; compreendi por que eles eram mais desenvolvidos que nós.

Nada de ir direto pro hospital. Primeiro se marcava uma consulta com o médico da vizinhança, que atendia em sua própria casa, sem grandes custos para o Estado. Consulta marcada para o dia seguinte da ligação. No consultório, nada de filas, exame feito e a necessidade de uma punção confirmada, foi marcada mais uma consulta, agora no hospital, para o dia seguinte, às 8:00 da manhã. Tendo já sofrido do mesmo mal, e lembrando da espera no Antônio Pedro, hospital de Niterói que prestava atendimentos de urgência, me antecipei e antecipei a fila. Cheguei no hospital às 6:05 da manhã. Corredores desertos, não se via ninguém, nem havia recepção. Fiquei lá meio pasmado, cheio de dor no sovaco inchado pela íngua. Exatamente às 6:30 aparece uma pessoa pelo corredor de entrada,  ao mesmo tempo que entra uma enfermeira e chama um nome, era a pessoa que havia entrado. Isso se repetiu a cada meia hora até chegar a minha vez, exatamente às 8:00 da manhã.

Fui atendido com a frieza profissional do britânico, a punção foi feita como eu já tinha visto ser feita no Brasil umas 3 vezes antes, com a mesma dor lancinante. Na hora de botar o dreno, dentro do buraco de onde saíram uns 300 ml de pus, eu sofri de verdade, perto  de meio metro de dreno de borracha foi inserido no espaço vazio, me deram um papelzinho, que na farmácia do hospital troquei por antibióticos, grátis! A única exigência era que se devolvesse o vidro com o excedente da dosagem ao fim do tratamento. Durante uma semana voltei ao hospital para a religiosa troca do dreno, sempre, pontualmente, às 8:00 da manhã. O furúnculo renitente jamais voltou, nem essa maravilha de tratamento de saúde, gratuito e de qualidade, destruídos pelo neo liberalismo daquela safada.

Só conseguiu executar a contento seu plano do mal, quando em 82, com a ‘vitória’ sobre os mal equipados e empobrecidos argentinos, a Margarete fez uso de uma opção ditatorial, na ‘democrática’ constituição britânica. Lá, o mandato dura exatos 4 anos, e a reeleição é eterna, já que o eleito não é o governante, mas o partido. Este escolhe o primeiro ministro, sem vergonha de escolher o mesmo alguém por dezenas de anos a fio (e ainda falam mal do Chaves) se viver tanto. Mas há algo ainda pior, o governo, se sentir confiança no seu taco, pode convocar eleições sempre que quiser, e sentir que tem chances de ganhar. Assim o partido Tory (conservador), em 82, após a ‘heroica vitória’ sobre os malvados argentinos, convocou eleições que normalmente só ocorreriam em 83, e ganhou mais 4 anos para impor sua agenda anti povo, fato que se repetiu mais de uma vez, sob a batuta de ferro, mas suja da bosta neoliberal, da Margarete.

Já foi tarde, mas conseguiu o que queria, acabou com um sistema de saúde, transportes (lá até os taxis, black cabs, eram estatais) educação e emprego mais democráticos dos últimos 5000 anos!

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