Pancho Villa não era louco

Do Portal Luís Nassif

Pancho Villa não era louco

(do cara Beto Ruschel que também é cachorreiro)

Já com a minha cachorrada alimentada, lembrei de um papo dos tempos das conversas no bar de um português em Sampa.

O boteco era embaixo do apartamento do Renato Teixeira. Era ali que a gente se encontrava.

Éramos muitos amigos “improvisando”, até que, um dia, depois de meses ouvindo improvisos, Seu Manoel quebrou mais um copo no chão.

– Cachorro que brilha no escuro, ai essa não!

Eu tinha contado que o Pancho, um ovelheiro mestiço que eu ganhara no Uruguai, de raiva, havia comido o controle da TV.

Eu iria viajar por um mês e pedi pra minha família, dois filhos e a esposa, que não deixassem de levar o Pancho duas vezes por dia até o parque ali perto. Expliquei que, sendo um cachorro de fazenda, de raça pra trabalhar com ovelhas (mestiço de Border-Collie e Schnauzer, duas raças famosas por sua inteligência) seu lugar não era num apartamento. Estava sofrendo sem as suas correrias pelo campo.

Viajei e voltei. Vinte dias tirando férias nuns presídios fazendo um “Globo Repórter” com o Caco Barcelos.

A primeira coisa que reparei, quando entrei, foi um buraco de um palmo de largura no encosto de uma cadeira bergére antiga, as molas saindo pra fora.

– Foi o Pancho! Você saiu, ele enlouqueceu, até comeu o controle da TV, o aparelho endoidou. Melhor é mesmo levar o coitado de volta pra fazenda. Toda noite a gente tem que prender ele no banheiro. Se ficar solto, esburaca mais a cadeira.

Seu nome completo era Pancho Villa Ruschel e seu nome vinha dos bigodes de Schauzer. Mas, a gente abreviava.

Olhei pra cadeira e pro Pancho, e ele se encolheu todo, tipo pedindo desculpas e reconhecendo que fora ele o autor da coisa. Saiu pra varanda e deitou quietinho.

Desfiz a mala e fiz um chimarrão. Quando fui pra varanda, num canto havia um osso de canela de boi, certamente comprado para o Pancho. Mas o osso dava dois dele. O Pancho, deitado ali, me olhou fixamente e, depois, arrastou o osso pela sala.

Nós dois nos entendíamos. Fui atrás.

Com muito esforço ele conseguiu subir na cadeira com o osso imenso. E olhava por osso, pro buraco na cadeira e pra mim.

Ficou tudo claro! Ele explicou e eu entendi. O osso era grande demais pra esconder no único lugar macio que encontrara na casa, no encosto da cadeira! Mas não conseguira terminar sua obra.

Por sorte eu havia chegado. Levei a ele e o osso pro parque. Ele feliz abriu um buraco, e, olhando em volta pra ver se ninguém estava vendo, enterrou o osso no pé de uma seringueira.

Problema resolvido,embora faltasse o controle da TV. Levei o Pancho a um veterinário amigo. Expliquei a situação e ele fez uma radiografia.

Mas me tranqüilizou.

– Ele mastigou bem – mostrou os pedacinhos dentro do Pancho – Agora os pedaços vão saindo aos poucos, e vão sair sem causar danos nenhum.

De noite, com uma fita daquelas de amarrar seqüestrados em filme policial, tapei o buraco na cadeira e sentei pra ver um filme. Ainda em pé, liguei a TV.

Sentei. E como sempre, o Pancho pulou no meu colo e se preparou pra dorminhocar satisfeito. O filme começou, mas o volume, sem explicação, subia de repente. Os canais pulavam. Sem controle na mão, o volume aumentava e, depois de andar daqui pra lá, a TV parava ligada no “Animal Planet”.

Eu levantava, ia a até o aparelho e abaixava, mudava pro filme. Na quarta vez que fiz isso, como medo da bronca dos vizinhos, desisti.

Fui deitar sem filme.

Na cama fiquei pensando, pensando… fantasmas? Não podia ser.

Sem conseguir dormir, voltei pra sala e liguei a TV. Não aconteceu nada, tudo normal. Até pude ver o fim do filme. Mas, quando o Pancho veio pra sala, a TV pirou… e tudo fez sentido

Antes de comprar outro controle, eu aprendi:

O volume eu tinha que ajustar coçando a barriga do Pancho…

A troca de canais eu fazia direcionando sua cabeça prum lado e pro outro…

Mesmo assim ficou difícil ver TV. Cada vez que ele se coçava ali por perto, era aquela loucura de troca de canais e volume subindo e descendo.

E mais, ele já havia aprendido a posicionar-se pra ver seus programas preferidos no “Animal Planet” com o volume que gostava. Cachorros ouvem bem e ele ouvia o som bem baixinho. Tava tudo explicado!

Bem, eu estava neste ponto do causo, e o português que já me olhava sério. Fazia um tempo que parara de lavar o copo.

Mesmo com seu olhar ameaçador, terminei a narrativa.

– Até aí tudo bem, né? Eu e a turma lá em casa também gostamos daqueles programas com bichinhos. Mas o problema maior era outro. O Pancho às vezes dormia no meu quarto, e nessa época, quando entrava, entrava com o corpo todo brilhando no escuro. Acontece que o controle nos botões tinha aquela substancia que faz brilhar tudo pra gente achar o controle no escuro. Era ela na barriga dele, e ele brilhando e acordando a gente toda noite.

Nessa hora foi mais um copo pro chão.

– Cachorro que brilha no escuro, ai essa não!

Depois de jurar que era verdade, tranqüilizei o dono do bar.

– Seu Manoel, isso foi por pouco tempo, levei o Pancho de volta pra fazenda. Ele agora tá feliz, só come sua ração e voltou a correr trabalhando com as ovelhas. Voltou pro seu mundinho sem TV e onde pode enterrar seus ossos. No sul, lá nos pampas tem muito espaço pra isso… 

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