Esculpindo a tradição, por Jorge Henrique Bastos

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". O relato do artesanato colonial produzido por três peruanos radicados há décadas no Centro de São Paulo

O peruano Julio X trabalha esculpindo a imagem de Jesus Cristo crucificado no estilo colonial. Foto de Jorge Henrique Bastos

Por Jorge Henrique Bastos

As mãos coriáceas de Julio X escalavram o corpo de Cristo Crucificado. O formão extrai lascas do cedro que caem ao chão como cachos de cabelo. O artesão opera com afinco. O suor e a dedicação pairam sobre a escultura em madeira, já entrando na fase final para imprimir mais realidade orgânica na matéria imitando matéria.

Estamos em pleno Centro de São Paulo, numa esquina esquecida da capital. Entre o ir e vir de carros e gente, três peruanos perpetuam sua arte longe da terra natal. São simbolicamente a memória dos meandros que teceram a trama histórica da América Latina, o eco do encontro e da barbárie. Algo das Missiones parece renascer aqui.

Dois irmãos, Pedro Vargas (64) e Jorge Valentín (68), mudaram para o Brasil há mais de vinte anos, com seus desejos e a típica “artesanía” que aprenderam desde jovens na sua amada Cusco. Meses atrás, Julio X (45) se uniu à dupla. Ele também vive aqui há mais de duas décadas. Nunca deixaram de trabalhar naquilo que herdaram: a arte cusquenha.

Altares, púlpitos, molduras entalhadas, restauração e folheação a ouro e prata são os labores principais que produzem. A oficina é exígua, razão pela qual Julio X esculpe o Cristo na calçada, à sombra de uma pequena árvore, entrincheirado entre tapumes que o isolam um pouco do olhar absorto dos passantes. Teve sorte em encontrar seus conterrâneos, e agora se dedica com todo zelo à sua obra, sem se preocupar com a máquina fotográfica. Os pormenores da musculatura devem ficar prontos em duas semanas. Em seguida, a imagem imponente receberá cor, delineamentos e finalizações. A simplicidade de Julio camufla a vida difícil para um artista da sua condição. Vê-se que o desemprego, a intolerância, e o descaso marcaram os olhos e a alma desse homem. Mas não se entregou, transplanta a força da sua arte para a peça em que trabalha como um médico na mesa de operação.

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Jorge Valentín é o mais velho de todos. Comento com ele que teve quase um homônimo no Brasil, Manoel Valentim, só que era um artista negro, e viveu no século XVIII. O olhar humilde e vivido expressa o orgulho do seu ofício, brilham nele os traços indígenas de uma América atravessada por espoliações cíclicas. Desde que chegou no país, não deixou de lidar com o estilo cusquenho. Primeiro sozinho, depois em parceria com seu irmão, Pedro. Juntos, persistem nessa esquina há vinte e tantos anos. Passa crise, entra crise, lá continuam. Sabem que o momento atual é muito grave, daí procurarem dar o máximo quando conseguem uma encomenda como a que agora dedicam todo cuidado. Não esquecem que são estrangeiros. É preciso mostrar que dominam seu trabalho.

O ganho não é muito, mas dá para pagar as despesas. O Cristo Crucificado chegou em boa hora, e coincidiu com Julio estar disponível para a empreitada. Era a pessoa certa, no momento certo. Cito então o verso de Fernando Pessoa:

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

E essa está sendo gerada à luz do dia, no Centro de uma das mais importantes megalópoles da América Latina, onde todos os dias milhares de africanos, coreanos, árabes, bolivianos, venezuelanos, entre muitos outros, vivem e lutam por uma função. A maioria dos imigrantes que escolheram São Paulo são latino-americanos. Optaram por este gigante da América que claudica como uma criança à beira do abismo.

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Segundo dados da Polícia Federal, no Brasil existem mais de 750 mil imigrantes, a maior parte vivendo na capital paulista. O número é ínfimo, se comparado com outros países, e tendo em conta que a população brasileira é de 210 milhões de habitantes. Ou seja, representam apenas 0,4% da população.

A ONU calcula em 260 milhões de pessoas vivendo fora do seu país de origem. Transportam consigo as tradições, cultura, hábitos e sonhos.

Como esses três peruanos que insistem em dourar o dia a dia paulistano, enquanto buzinas, motores e fumaça invadem o ar, e o formão incide de novo na madeira, no momento em que outra lasca de cedro rola aos meus pés.

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