Filme “Os Famosos e os Duendes da Morte”: a ponte para a Iluminação

O filme “Os Famosos e os Duendes da Morte” (2010) é uma das raras incursões da produção do cinema nacional no imaginário arquetípico gnóstico. A narrativa mergulha nesse imaginário ao caracterizar o protagonista como o Viajante que através do silêncio, melancolia e introversão busca o estado alterado de consciência da suspensão: a busca de uma ponte (simbólica e literal – uma ponte é a locação principal da narrativa) entre esse mundo e a iluminação.

 

“- As vezes eu tenho nojo de mim. Queria que tudo acabasse de uma vez!
– Como? A ponte?” (diálogo do protagonista no MSN)

 

Em uma cidadezinha gaúcha habitada por descendentes alemães vive um jovem absolutamente deslocado, melancólico, a maior parte do tempo em silêncio. Fugindo do cotidiano entediante do lugarejo, o garoto se enclausura no seu quarto onde se conecta com o mundo exterior por meio da internet, sob o codinome de Mr. Tambourine Man. Como na música, ele é influenciado pela melancolia das canções de Bob Dylan. Tenta expressar seu descontentamento com a vida por meio de contatos virtuais. Incapaz de expressar suas angústias para a sua mãe viúva e para os amigos, tem as ferramentas da internet como uma opção existencial.


Mas um mistério assombra a narrativa. Entre seus sonhos, devaneios e alucinações ronda a imagem de uma garota (que na internet assina como Jingle Jangle, outra referência a Bob Dylan), tal qual um fantasma. Com a chegada de um homem misterioso que retorna à cidade após um acidente há anos atrás, a atmosfera do filme passa a beirar o realismo fantástico. Alucinações e realidade começam a se misturar. Tudo parece girar e convergir para a ponte de ferro da cidade, o elemento emblemático da narrativa: local não só de uma série de suicídios que ocorrem no vilarejo como, também, peça-chave do simbolismo final ao qual o filme pretende chegar.


“Os Famosos e os Duendes da Morte”, o primeiro longa-metragem de Esmir Filho (diretor de curtas como o famoso hit da Internet “Tapa na Pantera”), inspirado no romance de Ismael Canepele (“Música para Quando as Luzes se Apagam”) é mais do que um drama intimista adolescente que tenta emular tramas como as do filme “Paranoid Park” de Gus Van San. Mais além, “Os Famosos…” é mais um exemplo de como o cinema apresenta as formas de constituição da subjetividade contemporânea por meio de recorrentes personagens míticos da tradição do gnosticismo. Uma tradição que parasita literatura e cultura, garantindo as constantes ressurgências dos elementos gnósticos ao longo da história.

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