Flip: a crítica ao conceito de raça

Do G1

Freyre e a questão racial:

08/08/2010 13h29 – Atualizado em 08/08/2010 13h38

Debate atualiza a questão racial da obra de Gilberto Freyre

Peter Burke e Hermano Vianna estavam na última discussão sobre o autor.
Sociólogo críticou movimento negro, que cria conceito de ‘negro genérico’.

A mesa “Gilberto Freyre e o século 21”, a última em homenagem ao autor de “Casa-grande & senzala” e talvez a mais interessante, reuniu neste domingo (8) os acadêmicos Peter Burke, Hermano Vianna e José de Souza Martin, com mediação de Benjamin Moser – o biógrafo de Clarice Lispector que escreveu recentemente um artigo pol mico sobre Freyre.

Burke, que é britânico e fala português, destacou a relevância da obra de Freyre no século 21 e a necessidade de adaptar seu pensamento às novas realidades do multiculturalismo, concentrando sua fala nos conceitos de “mestiçagem cultural” e “hibridismo cultural”. “Esses conceitos são talvez mais relevantes hoje que no século 20”, afirmou o historiador.

Freyre aplicou a ideia de mestiçagem cultural ao analisar diversos temas, como o nosso furebol “mulato”, que incorpora elementos da capoeira e do samba, a nossa literatura, que mistura ficção e análise social nos romances de Jorge Amado, e até mesmo o nosso sexo.

“Ao escrever sobre sexo, Freyre usou um vocabulário muito rico, que reflete a interpenetração entre diferentes culturas”, disse Burke, autor do livro “Repensando os trópicos”. “Mas uma cultura não é um texto, não é uma lingaugem, apesar de as duas apresentarem analogias. Então é preciso tomar cuidado ao pensar numa tradução cultural pura e simples”, completou.

José de Souza Martins e Benjamin Moser.
(Foto: Reprodução)

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Burke em seguida comentou o conceito de “ideias fora do lugar”, criado pelo crítico Roberto Schwarz. “Quando cheguei ao Brasil, nos anos 80, só se falava disso, como uma crítica ao ‘macaqueamento’ de modelos externos e a importação de modelos estrangeiros, mas tenho problemas com essa ideia. Nos anos 20 essa atitude levou Graciliano Ramos a afirmar que não se devia jogar futebol no Brasil, por ser um esporte europeu”.

José de Souza Martins, classificado por Moser como o maior sociólogo brasileiro vivo, autor de livros como “Fronteira”, sobre a escravidão na Amazônia, e “O cativeiro da terra”, sobre o lento processo de libertação dos escravos no Brasil. Ele contou duas anedotas de viés antropológico, provocando gargalhadas na plateia antes de entrar no tema.

“É evidente que a sociologia de Freyre não tem lugar no século 21 nos mesmos termos em que teve na sua época, mas ainda tem seu espaço. Na questão racial, sobretudo, sua obra voltará a ter um destaque crescente”, opinou Martins.

Sobre o conservadorismo do sociólogo, Martins brincou mais uma vez. “Desde 68, para os estudantes de ci ncias humanas, até Karl Marx é de direita”.

Negro genérico
Martins fez uma crítica velada ao movimento negro no Brasil. “Hoje está se criando a ideia do negro genérico. Ora, não existe negro genérico: os negros que vieram como escravos para o Brasil vieram de diversas etnias, inclusive, no caso dos negros muçulmanos, até mais cultos que os portugueses. Essa diversidade foi muito importante: a Casa Grande selecionava a dedo o negro da senzala que trabalharia nela, casa grande, criando uma possibilidade de ascens o social entre os negros escravos. É preciso entender esses aspectos da história dos negros no Brasil”.

Martins fez uma análise interessante da questão racial no Brasil. “No fundo a ideia de que o Brasil é composto de três raças é uma tolice, porque nenhuma das três raças existe, somos um país inteiramente mestiço. O Brasil é um país de brancos mestiços com branços, da mesma força que existe diversidade entre os negros e as populações indígenas. Quando lemos Gilberto Freyra, ficamos mais sensíveis a essa diversidade, que é também linguística”.

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Hermano Vianna, autor de “O mistério do samba”, disse ter em Gilberto Freyre uma grande fonte de inspiração, particularmente os numeros artigos que ele publicou na imprensa pernambucana. “Acho interessante radicalizar as ideias de Gilberto Freyre. Obviamente, o Brasil não é uma democracia racial, e Gilberto Freyre não disse isso. O elogio da mestiçagem também é uma interpretação errada, que acoberta o racismo na sociedade brasileira. Temos que transformar esses conceitos em armas de combate ao racismo. 

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