Fugindo da piada pronta

Explicando a Piada

Sempre tive bons professores de filosofia, mesmo esta tendo sido excluída dos currículos nos anos 60, por iniciativa da ditadura militar. Era matéria non grata, já que com ela se forma indivíduos com senso crítico, característica perigosíssima numa ditadura. Ainda no CEN, em Niterói, foram Emílio e Rezende, excelentes no ofício de nos dar instrumentos, vetados pela ditadura, de entender a realidade à nossa volta com olhos mais abertos e independentes. Já na EBA (Escola de Belas Artes UFRJ) foi a vez de um casal, esqueço o nome do marido, que ensinou ética, mas sua esposa, quase com certeza se chamava Lélia Bustamante deu aulas, ótimas, de estética. 

Lembro de uma aula onde o professor, quebrando o ritmo, explicou a estrutura da piada, e as formas de humor e comédia. Ele citou o Nome da Rosa, do Umberto Eco, livro onde, além de trazer luz sobre cismas e história da igreja católica, se faz uma alusão ao livro desaparecido de Aristóteles, sobre a Comédia. Num trecho supostamente atribuído ao filósofo, se diz que, se deve fazer humor com coisas naturalmente risíveis, ridículas, evitando o humor rasteiro e barato, de focar no que distingue os outros e os torna únicos, o humor excludente do preconceito.  

Cabe aqui uma discussão breve sobre as diferenças entre humor e comédia. Humor é a arte de fazer rir, de fazer graça, a comédia é a aplicação teatral do humor, é a interpretação da piada. Humor de bom gosto segue, entre outras (depois explico melhor) a regra de Aristóteles, de fazer rir do que é naturalmente risível. A comédia, por suas características próprias, e seu teor histriônico, mais facilmente cai no erro de ridicularizar o que é diferente: costumes, vestimentas, linguajar, raças e credos. Tudo isso é fácil de transformar em piada, já que tudo que é diferente nos amedronta um pouco, e nos afasta o suficiente para que tentemos transformar em piada a identidade alheia. Pode-se notar isso nas piadas racistas (preconceituosas), a estrutura é sempre a mesma, aquela de detonar o que nos incomoda por ser diferente. Nessa categoria podemos trocar os elementos da piada, e fazer com que ela mantenha seu nocivo potencial risível, em detrimento da vítima, ou vítimas. A mesma piada pode ostentar personagens de raças, religiões e culturas diversas, sem que se mexa numa vírgula, só na descrição dos protagonistas. 

Na explicação do meu mestre, com a qual concordo, a estrutura de uma piada é exatamente a mesma de um ato de magia de prestidigitação (prestidigitação, a técnica dos dedos rápidos). O que faz o mágico? Com uma mão, e assistido por mulheres belas em trajes exíguos, atrai (distrai) nossa atenção para algo totalmente irrelevante, enquanto a outra mão, discreta, executa o truque que vai nos maravilhar na conclusão do ato. Em humor esse truque final se chama, em inglês por não existir similar em português, punch line ( a linha da pancada). É como se estivéssemos fisgados, sem saber, numa linha imaginária, que no fim da piada nos dá um solavanco para que entendamos onde o piadista nos queria levar. Numa boa piada o enredo nos leva a pensar numa conclusão completamente diferente da pretendida pelo autor, ele nos leva, através da distração, a imaginar algo totalmente diferente do que intenciona, e no fim, se o contador é bom, a risada é inevitável. 

Esses dias contei uma piada, escrita em meu blog, mas acho que não fui lá muito feliz. Alguns não enxergaram a piada e criticaram o simplismo e brevidade de uma ‘análise’ do simbolismo da justiça (piada boa é piada curta), outros mais bem intencionados, me corrigiram alguns pecadilhos conceituais (necessários pra fazer valer a punch line) dando inclusive uma ótima aula de simbologia, mas estragando a piada!

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