No meio do Pitiú: o urubu malandro do Ver-o-Peso e o primo do Marajó, por Luiz Fernando Juncal Gomes

O causo foi assim contado. Aí dona Onete, a Rainha do Carimbó Chamegado, fez a música. 

No meio do Pitiú: o urubu malandro do Ver-o-Peso e o primo do Marajó

por Luiz Fernando Juncal Gomes

Pitiú: Típica gíria paraense. É o cheiro característico de peixe, você consegue sentí-lo com maior intensidade no Ver-o-Peso, maior feira livre da América Latina, localizada em Belém-Pará); cheiro de ovo também é pitiú. Esse peixe tá com um pitiú muito forte. (Google) 

O urubu é onipresente no cotidiano amazônico. Nas cidades que conheci – Óbidos, Juruti, Santarém e Belém -, eles estão por toda parte. Era assim também em Ubatã (BA).  

O motivo é a disputa por comida, restos de peixe na orla e de feiras livres, atacam sacos de lixo, fazem uma grande anarquia. Na minha casa, deixava os sacos de lixo suspensos na grade do portão, mesmo assim dali a pouco eles bicavam e espalhavam sujeira pelo chão.  

O Pará é pródigo em histórias e causos. Um dia o colega Amarildo contou a história do urubu do Ver-o-Peso, que tinha um primo que morava no Marajó.  

Diz que um dia bateu a saudade no urubu do Marajó e decidiu visitar o primo de Belém, que morava no Ver-o-Peso.  

Levantou voo, atravessou o canal e acomodou-se em uma das torres azuis do Mercado. Olhou pra baixo e reconheceu o primo em meio a uma grande algazarra, dezenas de urubus disputando um bucho de boi, que ia rolando pelo chão no meio da terra, sendo bicado por todos, maior briga, porradaria comendo solta.   

Reparou na situação deplorável do primo, todo bicado e estropiado pelas brigas diárias, magro, faltando penas, uma asa troncha. Voou até o chão e foi ter com o primo. E disse:  

– Primo, olha a tua situação lamentável, larga disso, vamos pro Marajó, lá é outra vida, ninguém briga por comida. 

Tanto falou que acabou convencendo o primo. E iniciaram o voo em direção ao Marajó. 

Ao entrar na ilha, lá do alto o primo estropiado do Ver-o-Peso avistou uma cabeça de peixe podre, perfilou as asas e desceu como uma bala em direção. O primo do Marajó balançou a cabeça, desceu junto e chegou a tempo de impedir, e dizer que na ilha ninguém se importava com aquilo e convenceu o primo a retomar o caminho. 

Mias pra frente, o urubu magrelo viu uma carcaça de boi, igualmente podre, e repetiu o ataque. Novamente o primo interferiu e impediu. Vamos pra frente, disse ele. 

Até que, lá do alto, viram um bando de urubus se refestelando com uma rês acabada de nascer, fresquinha. Ambos desceram e aproveitaram. Disse o primo nativo: “Tá vendo, primo, é disso que estou falando”. 

Depois da apresentação do Marajó, cada um tomou seu rumo, afinal o primo já estava devidamente orientado. 

Passaram-se as semanas, os meses. Um dia, o primo do Marajó encontra o primo de Belém. Ele estava pousado em um pau, gordo, penas brilhantes, completamente diferente de tempos atrás. Porém, triste, macambúzio, pra baixo, deprimido. 

E o primo questiona o motivo da depressão. E o outro responde: “Ah, primo, estou com saudade”. 

Como assim, saudade daquela vida desgraçada? 

É o outro responde: “É, primo, saudade daquela sacanagem do Ver-o-Peso, daquela putaria…”

***

O causo foi assim contado. Aí dona Onete, a Rainha do Carimbó Chamegado, fez a música. 

No meio do Pitiú  

A garça namoradeira
Namora o malandro urubu
Eles passam a tarde inteira
Causando o maior rebu 

Na doca do Ver-o-Peso
No meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú 

Eu fui cantar carimbó
Lá no Ver-o-Peso
Urubu sobrevoando
Eu logo pude prever
Parece que vai chover
Parece que vai chover
Depois que a chuva passar
Vou cantar carimbó pra você 

No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú 

Urubu malandro
Foi passear lá no Marajó
Comeu de tudo
Mas vivia numa tristeza só
Urubu lhe perguntou
O que se passa, compadre?
Tô com saudade da minha branca
Do Ver-o-Peso, da sacanagem
Lá eu sou pop star
No meio da malandragem
Fico bem na foto
Na entrevista e na reportagem 

No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú 

Alô, pessoal da Pedra! Alô, os barqueiros
Todas as pessoas que trabalham
Com esse peixe maravilhoso do meu Pará
Que tem esse nome tão bonito
Dessa Pedra do Ver-o-Peso!
Pitiú dos nossos peixes, da água doce!) 

No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú
No meio do Pitiú, no meio do Pitiú 

Dona Onete – No Meio do Pitiú (VIDEO) – YouTubeDo disco ‘BANZEIRO’ de DONA ONETE // From the DONA ONETE album ‘BANZEIRO’Ouca ‘BANZEIRO’ e compre o LP/CD aqui // Stream ‘BANZEIRO’ + buy the LP/CD: https://…www.youtube.com

Domingo, 12 de abril de 2015 – Logo pela manhã, lá de Santarém, a amiga Elô manda uma mensagem: “Seu Luiz, eu sei que o senhor gosta de música, hoje tem show da Dona Onete & Lia Sophia, no Sesc Pompeia. Não perca). Não perdi, comprei o ingresso pela internet e cheguei, como de hábito, 1h30 antes do show, marcado para às 18 horas.  

Instalado na minha mesa e boteco de sempre, na rua Clélia, a uma quadra de distância do Sesc e ao lado do estacionamento onde tinha desconto tamanha a assiduidade, observo um movimento inusitado. Dezenas de mulheres passam pela calçada, todas vestidas com saias rodadas de chita. E flores no cabelo. Todas paramentadas para dançar o carimbó. 

O show era na Choperia do Sesc Pompeia, onde cabem ao menos 800 pessoas, todas em pé. E havia um mar de mulheres de saias de chita..E virou uma grande festa com muita dança ao som do carimbó chamegado da dona Onete e Lia Sophia.  

E vi e ouvi No meio do pitiú.  

Os deuses e as deusas da música nunca me abandonam.  

Dona Onete & Lia Sophia – Quando eu te Conheci – Sesc Pompéiawww.youtube.com

Dona Onete, rainha do carimbó chamegado, recebe todas as homenagens 

O É do Pará acompanhou a artista paraense em um momento especial de sua carreira, quando recebeu o prêmio: Troféu Tradições, da União Brasileira de Compositores (UBC), reverenciando a música e a cantora paraense. 

Por Aline Bersa, Programação TV Liberal 

02/07/2022 14h43  Atualizado há um dia 

https://redeglobo.globo.com/pa/tvliberal/edopara/noticia/dona-onete-rainha-do-carimbo-chamegado-recebe-todas-as-homenagens.ghtml

1 Comentário

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Alexandre

- 2022-07-21 15:28:01

Sensacional essa história: a carniça não basta, é preciso, por ela, embolar-se com os outros carniceiros.

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