Romance de Victhor Fabiano narra a ascensão religiosa na política

Em entrevista ao GGN, o escritor e sociólogo fala sobre as influências da conjuntura política atual sobre o enredo de sua quinta publicação, “Igreja da Vila”

Capa do romance de Victhor Fabiana, "Igreja da Vila". | Imagem: Divulgação

Jornal GGN – Política e religião não se misturam! Bem, é o que dizem por aí. Mas, atualmente e ao longo da história da humanidade, intervenções religiosas no Estado são mais comuns do que deveriam, pelo menos de acordo com a afirmação que garante um “Estado laico”. Mas… e a bancada evangélica? É esta ascensão cristã na política que dá o tom do novo romance de Victhor Fabiano. O autor fala ao GGN sobre a obra. 

Com 22 anos, aluno de escola pública e bolsista na graduação, o escritor e sociólogo Victhor Fabiano se debruça sobre sua quinta publicação, “Igreja da Vila”, editado pela Barn Editorial. “O livro traz uma mensagem política e social muito importante de buscar entender as movimentações religiosas pelo poder, para que as pessoas entendam como o poder tem se construído e quais são os grupos envolvidos nisso ao longo dos últimos anos”, explica o autor. 

O romance traz à tona o mistério em torno da morte de Benedito Ronem, um político tradicional da família local que domina a política na Vila São José de Assunção, onde a Paróquia determina há séculos as relações entre seus moradores: os assuntos escolares, o calendário oficial, a distribuição do jornal regional, a entrada de candidaturas e empresários interessados no público local. 

“O livro surge a partir de uma divagação que tive andando pelo bairro da Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, quando vi uma igreja católica no centro do bairro, em uma rua mais alta, e as casas ao redor. Então quis criar uma história na qual uma vila foi construída ao redor de uma igreja. Mas foi explorando o enredo, quando eu menos esperava, que me aproximei do assunto da ascensão evangélica na política”, conta. 

A história política é marcada pela religião e não seria diferente nos tempos políticos em que vivemos. “Pessoas não entendem e não tem noção do quanto grupos religiosos e não só evangélicos, mas também católicos, têm uma influência tão forte na política que eles conseguiram definir o rumo do país e eleger um presidente, que é o Bolsonaro”, diz o sociólogo e escritor.  

Fabiano é fruto da escola pública e se formou em Ciências Sociais pelo ProUni (Programa Universidade Para Todos) na PUC-SP. Sua bagagem é parte fundamental no desenvolvimento da nova obra.  “A sensibilidade que eu fui conquistando ao longo do tempo me ajuda muito a escrever e a expressar os problemas, os desejos, os medos de pessoas como eu, de famílias como a minha… porque, muitas vezes, a história de famílias trabalhadoras, de famílias mais simples, ficam à margem da literatura, ou são tratadas de modo estereotipado”, afirma Victhor Fabiana.  

A publicação de Igreja da Vila vem para selar uma carreira de publicações iniciada aos quinze anos com o livro “O Lavrador e o Plebeu” (2012), enredo fruto de uma redação escolar no ensino fundamental; “O Epitáfio” (2013); “Guerra da Minha Rua” (2017) e o romance “Bom Dia, Ditador” (2018).

“Igreja da Vila traz um amadurecimento não apenas da forma de escrever, porque eu tive a oportunidade de aprender coisas novas, mas traz um amadurecimento temático e do tratamento da política. Eu busquei perceber e expressar como a política influencia na vida cotidiana das pessoas comuns, dentro das casas, na vida privada, campo que muitas vezes fica pra trás quando se fala de política. Quando, na verdade, a política acontece principalmente na esfera do Estado, mas também tem suas consequências – que são fortes – na vida privada das pessoas”, explica o autor. 

Em 2018, a “Igreja da Vila” foi premiada no 2º Edital de Publicação de Livros da Prefeitura de São Paulo com a publicação de mil exemplares. A obra foi lançada em diversos locais de São Paulo e chegará a outras cidades do interior do estado em 2020.

“O livro não faz uma crítica direta à nenhum grupo religioso. As consequências das atitudes desses grupos falam por si só. A intenção é mostrar essas consequências como motivadoras de problemas da sociedade, problemas econômicos, problemas humanos e que ferem a dignidade humana, além de mostrar como a ganância pelo poder, não só poder político como o financeiro, faz com que a religião se torne, como diz Marx, o ópio do povo”, completa o autor, em entrevista ao GGN.

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