Trânsito, por Antonio Prata

Da Folha

Trânsito
 
Antonio Prata
 
“E agora, trânsito! Alan Zucchini, é com você!”. “Alô, Ludmila, trânsito complicado hoje na capital, seis e catorze da tarde, tamos aí com mais de 500 km de engarrafamento. Vamos sobrevoando agora a região da avenida Paulista, onde um grupo de 300 manifestantes protesta contra a última chacina, aí, do fim de semana, que matou 15 pessoas em Jandira. As três faixas sentido doutor Arnaldo completamente fechadas”. “Eita ferro, todo dia, agora, hein, Alan? É chacina, é professor, é sem-teto, é sem isso, sem aquilo! Gente, quer protestar? Legal, mas precisa parar o trânsito? Faz corrente no Facebook! Grupo de zapzap!”.
 
“Haha! É isso mesmo, Ludmila”. “Pelamor! Que mais, Alan?”. “Zona leste: pra quem pega a Radial o trânsito também vai embaçado, aí, no sentido bairro, com uma pista interditada por causa de um acidente envolvendo uma betoneira e um motoboy. Parece que o motoboy, infelizmente, veio a falecer”. “Infelizmente. E continua na pista, o corpo, Alan?”. “Pela informação que a gente tem aqui, continua sim, Ludmila, tá esperando a chegada da perícia pra liberar.” “Gente, vê se pode uma coisa dessa? Todo dia morre motoboy em São Paulo! Todo dia! E não tem como agilizar essa perícia? Não tem condição, cada moto que cai, travar a cidade inteira!”. “Pois é.” 

 
“Que mais, Alan? Só notícia ruim, hoje?”. “Não tá fácil, não, Ludmila. A marginal Pinheiros tá bloqueada na altura da ponte estaiada por causa de uma situação com reféns num ônibus escolar, parece que tem um homem ameaçando explodir uma bomba dentro do ônibus.” “Tragédia! Situação com refém na ponte estaiada, na hora do rush, quer dizer, pega a Bandeirantes, Berrini, Roberto Marinho, trava geral ali! Vamos torcer pra não morrer ninguém, senão, amanhã já viu, lá vai todo mundo fechar a Paulista de novo!”.
 
“Vamos torcer. Agora, o trânsito tá ruim mesmo é no Morumbi, Ludmila. Um incêndio em 200 barracos na favela de Paraisópolis tá praticamente fechando a Giovanni Gronchi, parece que os moradores da comunidade tão inclusive invadindo as pistas, fugindo do fogo, tá um caos aquilo ali.” “Que absurdo! Um perigo pros motoristas, isso, imagina, atropelar alguém? Perigo até, aí, de assalto, arrastão, cadê a polícia, nessas horas, Alan?”. “A tropa de choque já chegou, Ludmila, tão usando gás lacrimogêneo e bala de borracha pra direcionar o pessoal de volta pra comunidade.” “E o fogo?!”. “Tranquilo, o fogo não chega na pista, é só nos barracos mesmo, sem perigo pros motoristas”.
 
“Ainda bem. Bom trabalho da nossa polícia, olha aí, todo mundo critica tanto, nessas horas a gente tem que aplaudir. Mais alguma coisa, Alan?”. “Opa, tá chegando aqui uma última notícia: parece que um cachorrinho foi atropelado na pista expressa da marginal Tietê, perto ali do Cebolão.” “Ai, Alan, que horror! É grave?”. “Ainda não tenho a inf…. Ah, tem sim, parece que é uma cadelinha, uma cadelinha da raça pug, tá, o nome dela é Valkíria e, no caso, ela se encontra desacordada, enquanto vários motoristas, ali, prestam os primeiros socorros”. “Alô, prefeito, cadê o Samu? Cadê o Águia, governador? Ninguém faz nada?! Só orando, mesmo, Alan, vamos orar, vamos ter fé em Deus, que Deus vai ajudar a Val a sair dessa!”. “Amém, Ludmila!”. “Amém!”. 

3 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Roberto Monteiro

- 2015-10-05 16:49:38

Mas não é somente em São Paulo.

Outras cidades se encaminham para esse destino. Banalização da vida humana.

Vagalume do Brejo

- 2015-10-05 13:56:45

Não tenha duvida.

Não tenha duvida.

BRAGA-BH

- 2015-10-05 11:05:52

Tô na dúvida se a imprensa de

Tô na dúvida se a imprensa de São Paulo não trata destas coisas realmente assim como retratado no Post!!

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador